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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A chave é criar poupança


EDWARD PRESCOTT - Nobel de 2004

A chave é criar poupança

• "O Brasil conseguirá se aproximar do padrão de vida dos países desenvolvidos somente se os brasileiros estiverem convencidos de que boas políticas serão perseguidas ao longo de vários e vários anos. Não basta implementar as medidas corretas por um curto período. A única esperança que vislumbro é que o Brasil se descentralize. Tenho algumas sugestões. Livrem-se da centralização de poder em Brasília e reduzam drasticamente os impostos federais. Deixem que os estados da federação ganhem autonomia e compitam entre si por investimentos. Se algum deles quebrar, coloquem-no num programa de intervenção, como foi feito com a cidade de Nova York nos anos 70. Ainda que sensibilidades possam se ouriçar, é preciso reconhecer que regimes democráticos, como o brasileiro, não são precondições para o sucesso econômico. Pelo contrário: muitos países saíram da pobreza sob regimes autoritários. Vejam os casos de Pinochet, no Chile, Franco, na Espanha, Park, na Coréia do Sul, ou Chiang Kai-shek, em Taiwan. O Brasil teve sua ditadura, mas ela parece ter piorado as coisas e não alterou a natureza da sociedadeo país não desenvolveu um sistema democrático baseado na propriedade privada e no consumo, integrado aos países avançados. O caso mexicano é similar: a economia evoluiu muito durante o regime autoritário, mas não criou uma ampla e enraizada sociedade privada.

É fundamental que o Brasil estimule a criação de uma sociedade privada. Esse é o motor de qualquer ciclo de expansão sustentável. Já o combustível é a poupança. Nenhum país cresce sem um sistema que induza a formação de poupança. Em Cingapura, o crescimento veio após a introdução de poupanças compulsórias. É condição vital, no entanto, que os recursos sejam bem geridos. Eles não podem ser desperdiçados nas mãos de governos incompetentes. Instituam um sistema de poupança crível e, em 25 anos, o Brasil crescerá rapidamente. Há sempre o risco de o governo expropriar esses recursos, por isso é crucial dar às pessoas a chance de escolher onde pôr o seu dinheiro.

A China claramente não pode continuar crescendo no atual ritmo. Muito de seu rápido avanço se deve simplesmente à transição de um setor agrário tradicional para um setor urbano moderno. Mas a nova economia do país não é tão eficiente assim. A renda per capita da China deverá se estabilizar num nível equivalente a 40% da renda dos países ricos. É minha melhor estimativa. A Índia está crescendo rapidamente porque o sistema econômico se tornou menos ruim, mas o desenvolvimento do país não continuará a não ser que o sistema fique ainda menos ruim. Os indianos provavelmente alcançarão o nível de renda da América Latina se se tornarem mais abertos."


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Protecionismo sufocante

ROBERT MUNDELL - Nobel de 1999
Protecionismo sufocante

• "O Brasil abraçou uma política de desenvolvimento protecionista num momento em que o restante do mundo estava se abrindo internacionalmenteCom as inovações avançando num ritmo vertiginoso, é crucial aceitar essa interdependência mundial e desenvolver as vantagens comparativas naturais de um país. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo, ficou em 81º lugar em um ranking de abertura econômica elaborado pela Heritage Foundation, com informações de 157 países (o mais aberto é Hong Kong). A característica comum a todos os países fechados, como o Brasil, é que eles têm baixa renda per capita. Não há como ter crescimento sem empresários, sem pessoas que iniciem novos negócios. Vários países latino-americanos colocam barreiras ao surgimento de novas empresas. Enquanto nos Estados Unidos uma companhia pode ser constituída em poucas horas, na América Latina isso pode levar meses. Países menos burocráticos, como os Estados Unidos e a China, conseguem atrair o investimento estrangeiro direto, fundamental para o crescimento porque traz consigo capital, tecnologia e mercados. O sistema tributário brasileiro também desestimula os investimentos. Outro requisito é a estabilidade macroeconômica. Sem ela, não há crescimento duradouro. Acredito que, no caso de muitos países, a melhor maneira de obter estabilidade macroeconômica é tornar-se parte de uma grande área de moeda comum. A Europa fez isso ao criar o euro, e a moeda tornou-se tão efetiva quanto o dólar. Várias outras zonas econômicas planejam a união cambial. A América Latina precisa seguir essa iniciativa. Por que lidar com quase 100 moedas na região? O Brasil deveria liderar o Mercosul na direção de uma maior, e não menor, abertura comercial. Além disso, deveria defender a existência de uma moeda única da América Latina. Fiz essa proposição pela primeira vez há quarenta anos, em 1966. Poderiam dizer que cachorro velho não aprende truques novos – mas, nesse caso, eles não precisariam. O Brasil deveria ser o centro de uma moeda sul-americana atrelada ao dólar. Logicamente seria melhor um único sistema monetário internacional, mas não dispomos dele hoje. Tivemos um depois da II Guerra Mundial, quando demos ao Fundo Monetário Internacional o papel de guardião do sistema de paridade cambial. Hoje temos de escolher sistemas monetários internacionais que se adaptem à necessidade da configuração de poder entre as nações. O sistema funciona com base nas duas principais moedas, o dólar e o euro. Talvez seja muito complicado e instável.

Essas são apenas sugestões, talvez não as melhores. O ideal é observar que, nos últimos sessenta anos, ocorreram três casos de milagre econômico: o Japão e a Alemanha no pós-II Guerra e a China, a partir de 1978 e especialmente depois de 1997. Nesses três casos, o crescimento foi liderado pelas exportações num regime de câmbio fixo. Recentemente, sob pressão do FMI, a China flexibilizou um pouco o câmbio. Mas o país não pode arruinar seu modelo permitindo grandes oscilações na cotação de sua moeda, o yuan. O sucesso chinês se deve à sua elevada taxa de poupança, ao enorme influxo de investimento estrangeiro direto, ao superávit na balança de pagamentos e à taxa de câmbio fixa e competitiva. A Índia foi na mesma direção e tira proveito da abertura comercial que fez na década passada, além de se valer do fato de seus habitantes falarem inglês, o que lhes dá vantagem na indústria tecnológica e de software."


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O peso da burocracia e da educação ineficiente


JAMES HECKMAN - Nobel de 2000
O peso da burocracia e da educação ineficiente

"O maior obstáculo ao crescimento brasileiro é o excesso de burocracia e regulamentações. Qualquer observador externo percebe isso. Essa característica representa um custo enorme para quem queira fazer negócios. Faltam incentivos para que as pessoas possam ser mais competitivas. É o que a China e a Índia estão fazendo. No Brasil esses estímulos são muito tímidos, predomina um pensamento que lembra o mercantilismo, de viver em um mundo de castas e protegê-lo do jeito que ele é. Não há uma economia competitiva e flexível, na qual as pessoas abram empresas, fechem empresas, contratem bons funcionários, demitam maus funcionários, contratem bons professores, demitam os professores ruins. É uma influência negativa que o país teve dos europeus, de todas aquelas velhas instituições de Portugal e da Espanha. A América Latina tem mais regulamentações do que a Europa. O custo de contratar um funcionário é muito elevado no Brasil, e isso desacelera a economia. Se você tentar evitar que o desemprego aumente nos períodos ruins, o emprego também não vai melhorar muito quando as coisas forem bem. Essa inflexibilidade amarra a economia.

A questão política também afeta o avanço brasileiro. As reformas chilenas demoraram quase dez anos para dar resultados. A existência de um governo autoritário tornou relativamente fácil sustentá-las. Em alguns países, como Nova Zelândia e Inglaterra, as reformas foram feitas em ambiente democrático. A situação era tão difícil que as pessoas perceberam que as coisas não poderiam permanecer daquele jeito. As greves fizeram a população se virar contra os sindicatos. Surgiu um novo sindicalismo, muito mais responsável. O legado de Margaret Thatcher talvez seja um pouco mais de desigualdade social, mas um crescimento econômico muito maior. Tony Blair manteve as mesmas políticas. Não houve reestatização, não apareceram novas estatais. As pessoas perceberam que o modelo estatista, sucesso do pós-guerra, já não funcionava. Isso soa como pregar ao vento na América Latina, se olharmos para o que está acontecendo na Bolívia ou na Venezuela. Há uma onda contrária às reformas na região. As boas lições nunca foram aprendidas de verdade.

Para piorar, os políticos costumam ter uma visão de curto prazo. Querem eliminar a desigualdade, e como fazem isso? Dando dinheiro para os pobres. Essa política pode até reduzir a desigualdade no curto prazo, mas investir nas crianças e na qualidade da escola criaria bases mais sólidas para o aumento na qualidade de vida. O Brasil incrementou os gastos no ensino básico nos últimos anos, mas os níveis ainda são muito baixos. Isso ajuda a perpetuar a diferença de classes, porque os ricos podem pagar por boas escolas, e solapa o potencial de crescimento. Alguns atribuem o forte crescimento da Irlanda, nos últimos vinte anos, à melhora do ensino básico. Uma nova geração, com uma educação superior à de seus pais, ingressou na economia e pôde participar do milagre irlandês. Foi um pré-requisito para o crescimento de hoje."
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Capitalismo de compadrio



Inicio a republicação de artigos de Nobéis em Economia sobre as razões para o crescimento pífio no Brasil há décadas. Estes pequenos artigos foram escritos em 2006 e continuam válidos.

Acho dificil encontrarmos uma boa análise de estrangeiros sobre o Brasil ou mesmo sobre qualquer país em que o individuo analista não seja nativo. Entretanto, como se trata de Nobéis, há de se dar crédito merecido.

A razão para publicar novamente estes artigos é uma só: identificar o ponto comum entre eles. Adianto logo: o problema fulcral do Brasil é politico. Os detalhes, eles apontam. A importância de cada um desses detalhes, cabe ao analista descobrir.

A cada semana publicarei um e começo com Gary Becker.

GARY BECKER -  Nobel de Economia de 1992 – reproduzindo artigo Veja de 2006.

Capitalismo de compadrio

• "É mais fácil entender por que a China e a Índia estão crescendo rapidamente do que compreender o que se passa na América Latina e no Brasil. Dos anos 1940 até meados dos anos 1980, os chineses e os indianos praticamente não progrediram. Sob o peso de economias centralizadas e estatais – comunismo na China e um socialismo inespecífico na Índia –, chineses e indianos viram seus países estagnar. Os dois governos detinham controle total sobre os investimentos. A China começou a reformar o setor agrícola no fim dos anos 1970, ao permitir que os camponeses ficassem com parte daquilo que produziam. Gradualmente, o mesmo começou a ser feito com a indústria. Hoje o setor privado é predominante. A tributação é baixa, há menos burocracia e regulamentação. Em vez de fugirem para Taiwan ou Hong Kong, agora os talentos chineses podem ficar no país.

Na Índia a história é parecida. Houve uma abertura no fim dos anos 80 e início dos 90. Atividades foram transferidas à iniciativa privada, a tributação caiu e a burocracia diminuiu. Mas é lógico que ambos os países asiáticos começaram a crescer a partir de um nível muito baixo e, ainda hoje, apesar do salto produtivo, são bastante pobres – especialmente a Índia, cuja renda per capita, de 3 000 dólares por ano, é metade da chinesa. Caso mantenham as reformas de orientação capitalista, esses países têm potencial para avançar rapidamente ao longo das próximas décadas. O Japão cresceu muito durante quarenta anos. Taiwan fez o mesmo ao longo de trinta.

Já a América Latina é um mistério. Há o caso de sucesso do Chile, cujo modelo é similar (até mais extremo) ao chinês e ao indiano – abertura da economia, redução do estatismo e da burocracia, mercado de trabalho mais flexível. Graças a esse modelo, o Chile vem tendo sucesso nos últimos 25 anos. Por que o resto da América Latina não produz os mesmos resultados? A minha opinião é que o Brasil ainda resiste a fazer as reformas executadas pelo Chile. O México, depois dos últimos ajustes, avançou bastante. Sobrou ainda muita burocracia e regulamentação, em especial no mercado de trabalho. Há ainda o que eu chamaria de "capitalismo de compadres" – algumas famílias ou setores privilegiados conseguem favores e empréstimos do governo. No caso mexicano, no setor televisivo e nas telecomunicações. Suspeito que isso também seja verdadeiro em outros países da América Latina, como o Brasil. Eu diria que esse compadrio é uma das principais causas do atraso econômico da região."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Minha visão sobre as saídas para o Euro: não é preciso ter recessão!


O debate sobre a crise por que passa o Euro me deixa perplexo. É a tal da unanimidade acadêmica. Em uníssono , os economistas, na linha chamada de liberal, apontam o mesmo receituário do FMI que, como sabemos, não tem nada de liberal. Pelo contrário. FMI sempre foi, em todos os cantos e em todas as épocas, sinônimo de recessão e aprofundamento das desigualdades sociais. Nós brasileiros bem sabemos o quanto essa turma de burocratas trabalhou para a promoção de políticas que objetivavam única e exclusivamente o pagamento da dívida externa. Pouco lhes importava o custo do ajustamento e qual a lógica do endividamento. No coroamento de nossas tentativas para debelar a inflação, o  “Real” só contou com o apoio do FMI depois que o sucesso foi certo e inquestionável. Para finalizar FMI, lembro que Milton Friedman recomendava sua extinção;  recomendação que ainda acato.

Fazendo um resumo rápido sobre o Euro, diria simplesmente o que de fato se passa presentemente na União europeia. Como se sabe, a política monetária não está disponível para os países membros do Euro individualmente. O que os países membros poderiam fazer para atenuar choques seria o emprego de política fiscal. Política sobre juros e câmbios não estão disponíveis àqueles países.  Como a crise está a demonstrar, a dificuldade para o funcionamento de uma política monetária única está na impossibilidade do país monetizar sua dívida pública. Os países envolvidos com o Euro abriram mão da emissão monetária, comprometendo-se a um déficit de no máximo 3%, tendo em vista o caráter estabilizador da política monetária no âmbito do conjunto dos países envolvidos com a União Europeia.  Para piorar a situação, os países envolvidos com a União europeia  se endividaram em moeda que não podem emitir.

Portanto, quando se fala em União Europeia tem-se claro que os países não têm opção de politica monetária ou cambial. As políticas compensatórias que os países membros poderiam fazer são efetivamente fiscais. Mas o uso abusivo das políticas fiscais redundaram em endividamento exagerado que já encontrou seu limite de sustentabilidade da dívida pública. E agora?

O que o FMI quer todos sabemos: políticas recessivas, de forma a se deslocar poupança pública para o pagamento da dívida. Haveria outra saída? Claro que sim.

A proposta é chamada tecnicamente de monetização. Existem condições prévias para a sua implantação. A primeira é que o endividamento público , no âmbito do Euro, deveria ser proibido. Em segundo, todos os países membros deveriam montar seus orçamentos com base nas propostas orçamentárias pré-crise, prevendo-se um desvio de , no máximo, 10%. Em terceiro, havendo déficit, o endividamento junto ao Banco Central Europeu seria autorizado, com a monetização imediata desse endividamento. Havendo superávit, o valor recolhido ao Banco Central Europeu seria esterilizado, ou seja, os equivalentes euros seriam destruídos.

E para o montante presente de dívida pública dos países do Euro? Seria simplesmente monetizada. Um cheque do banco central europeu seria emitido aos bancos credores. Com isso, o problema do que fazer com os recursos seria passado aos bancos e aos detentores da dívida do Euro. Ponto importante: a política teria que ser previamente anunciada.

Agora, vamos as consequências. Teria inflação? Não! Poderíamos ter um aumento no nível geral de preços  - se queres chamar isso de inflação, tudo bem - e certamente o teríamos, porque todos os agentes preventivamente ajustariam seus preços. De fato, uma montanha de dinheiro estaria disponível aos bancos e portanto poderia alimentar uma série de operações financeiras com desdobramento sobre os ativos das economias do Euro. O mercado acionário e de imóveis certamente teriam aumento preventivos de preços. O câmbio? Certamente se desvalorizaria – a montanha de Euro iria procurar outras moedas. Até que ponto tal desvalorização chegaria? Impossível dizer. Todas as elasticidades e projeções prospectivas seriam lançadas no mercado. Mas se as expectativas racionais servem para algo, o efeito seria quase nulo, porque equalizações de retornos ao longo do planeta estariam atuando se fugas em massa ocorressem, com espetacular prejuízo que muitos poderiam tomar. Coisa pouco provável de acontecer. E os juros? Certamente procuraria uma trajetória descendente, dada a ânsia por remuneração ao capital encalhado. De qualquer forma, toda essa dinâmica dependeria do próprio sistema financeiro. O problema estaria com os bancos. E o banco central? Simplesmente deixaria de existir: superávits fiscais são esterilizados e déficits são monetizados. Quanto aos bancos? Eles deveriam ficar restritos, num contexto de 100% Money, ao que sabem fazer: intermediação financeira e operações tradicionais junto ao setor privado. Essa é de fato a proposta de Friedman de 1948 que ele abandonou para abraçar o monetarismo. Uma pena! Que volte 1948.