Banco Central prevê inflação - Sempre a mesma ladainha

É sempre a mesma ladainha. Banco Central, com sua pressaga visão vaticinadora de inflação por todos os lados, ameaça com mais juros e prega arrocho no mercado. O problema é que, fora as contradições latentes e recorrentes nas declarações dos diretores do banco central, nunca falam do essencial: quanto custará sua política específica de se combater a projetada inflação futura? O Banco Central não é uma entidade livre de restrição orçamentária. Tão pouco livre para atuar segundo acordos de gabinete, vetados à população, em que é esta população a maior prejudicada por tal política, com desemprego ou ameaça de desemprego - isso, obviamente, só não se aplica aos servidores públicos.

A questão do custo é muitíssimo importante, porque o banco central brasileiro não atua segundo os cânones macroeconômicos. Não estou criticando a política de metas inflacionárias em sua filosofia geral. O problema é que o Brasil, segundo sei, é o único país do mundo que pratica uma estratégia de combate à inflação, no contexto de metas inflacionárias, com juros como instrumento de ação, mas com boa parte de sua divida interna indexada a esse mesmo juro idiossincrático, fixado ad hoc, pelo banco central. Assim, quando o nosso banco central sobe os juros selic, automaticamente, sem nenhum evento fiscal gastador, a dívida interna sobe. A implicação imediata disso é uma tungada de quase 1 bilhão de reais por mês para cada aumento de 1% nesses juros selic. Quem paga a conta? Você seu trouxa! Eu também, mas tô berrando.

A outra fatura é mais cruel: recessão ou freio na economia. O que isso significa? Que o banco central pune todos os agentes privados (os que estão sob a tutela pública, a história é outra), quando todos nós sabemos que o próprio vilão é o banco central. Veja, não estou falando que o efeito de uma política tradicional sob o contexto de metas inflacionárias não teria esse efeito recessivo. O problema está, além da indexação, na magnitude dos juros - nada justifica que os juros sejam tão altos quanto o praticado pelo banco central há mais de quinze anos (esquecendo o Brasil antes do Plano Real). Essa prática de juros exorbitantes tem efeitos perversos no lado real da economia. O mais importante é o encolhimento no processo produtivo, em que produtos baratos e vagabundos são a tônica o que, no final das contas, acaba por justificar os salários igualmente vagabundos, praticados pelo setor privado - o salário dos servidores públicos é outra história.

Quem é do ramo sabe que a única causa causadora da inflação é a excessiva emissão monetária, promovida pelo banco central. Por que o Banco Central brasileiro faz o que faz ? Porque, tal qual o tesouro, a Receita Federal, o Congresso, o TCU, o Supremo e toda essa canalha de políticos espalhados por todo o Brasil, têm apenas uma lógica de ação: atender os interesses de grupos econômicos consolidados, onde a população é um detalhe. O problema é que esses interesses imperiais não estão alinhados linearmente (torço para que as contradições se aprofundem e daí a solução correta surja). Por essa razão, o discurso do Banco Central é contraditório. Ele fala em combater a inflação e ao mesmo tempo fala, por exemplo, que irá comprar dólares no mercado financeiro. Não vou nem falar dos esquemas que esses caras do banco central usam para ajustar essa estratégia de compras de dólares no mercado, porque aí sim o bicho ou a bicha pega.

Para terminar, faço um aviso: que não me apareça nenhum engraçadinho me perguntando qual seria a solução, porque ela é trivial e logicamente dedutível do próprio texto. Tendo dúvidas, não deixe de consultar meu post inaugural. Se continuar com dúvida e não quiser me questionar, mude de blog! Não nos merecemos! Para piorar, se a solução for diferente da minha, berre ao seu jeito e o espaço está aberto para proposições mais interessantes. Mas se você é dessa turma de "campeões" do banco central, esqueça. Vá plantar batatas.

Obs: Para espantar os paladinos da ética, registro, com fé pública, o seguinte: respeito e admiro todo cidadão que se atirou no serviço público como opção para ganhar sua grana. Respeito mais ainda aqueles que fazem o seu trabalho, em qualquer lugar, em qualquer canto e em qualquer época, num esforço cotidiano de cumprir suas tarefas. Digo mais. Só não faço um concurso público, porque demora três anos, em média, para que as boas cabeças consigam sucesso nessa empreitada (é o modelo Casa Grande & Senzala funcionando). Como sabem os concurseiros, é uma decoreba sem nenhuma utilidade, até porque não tem muito o que se fazer no serviço público. Como a minha cuca falha aqui e acolá, acho que não dá mais tempo para cumprir tal requisito e tenho que me contentar com a mixaria da minha renda. Fazer o quê?



Comentários

  1. Não conheço um estudante do curso de Economia da Católica que goste da atuação do Banco Central. Porém, é difícil encontrar um que não queira trabalhar lá. Parece contraditório, mas esse é um desejo óbvio. Para que se matar de trabalhar na iniciativa privada pra ganhar R$ 2.500 ou 3.000, se no BACEN dá pra ganhar 12.000 coçando?

    Como bem disse o MB, não é fácil ser aprovado em um concurso, ainda mais nesse nível, leva tempo, dinheiro, estudo, mas a recompensa é muito grande. Um amigo meu do curso desenvolve um estudo sobre a qualificação dos trabalhadores na iniciativa privada e pública. Para ele, o setor público tem funcionários mais qualificados do que na iniciativa privada. Eu acredito que as melhores cabeças realmente estão migrando para o serviço público, principalmente no DF, pela razão exposta acima.

    Entretanto, de que adianta? De que adianta ter pessoas extremamente qualificadas, jovens, cheias de disposição e prontas pra mudar o país, se as instituições não funcionam? Se lá em cima tem o Henrique Meirelles, o Guido Mantega, o Sarney, o Collor, o Mão Santa?

    Nada. Não adianta nada! O Brasil necessita de uma reforma política urgente. Mas não uma reforma política feita pelos políticos, isso é só blá blá blá. A reforma tem que ser feita por esses que hoje se candidatam ao BACEN, ao Ministério da Fazenda, ao Tesouro Nacional e tantos mais. Sim, os estudantes. Mas não a partir de diretórios estudantis comunas como os que se proliferam lá na Católica e só promovem calouradas e cachaçadas mil. O problema é que a maior parte dos brasileiros não se interessa por política, não faz política. Assim, passam a ser dominados pela minoria que se interessa, pela elite que toma conta da política, desde as câmaras municipais até a Presidência da República. Os brasileiros têm o país pífio que merecem.

    Augusto Freitas - Economia UCB

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