Eu conheci Maicon Jonathan

Alguém aí sabe quem é Maicon Jonathan? Já não o é. Já era. Eu o conheci. Era um menino pardo, provavelmente filho sem pai e com mãe convertida a alguma dessas religiões evangélicas surgidas do nada, que transformam o ser humano em gado. Esses pastores do acaso  importam tresloucadamente os sermões mórmons, que pregam exatamente o oposto: educam seus filhos para a vida com a proteção divina, ao invés de confiarem cegamente no destino. Maicon era um menino engraxate que, invariavelmente, tanto quanto eu ainda faço, fazia ponto no mesmo bar que há anos freqüento. Nem sempre solicitava seus serviços e sempre nos cumprimentávamos como cidadãos. Às vezes, em sua traquinice infantil, me pedia para lhe pagar um guaraná ou coca-cola, pois bem sabia que dinheiro em espécie jamais lhe daria, a não ser em paga justa ao seu trabalho de engraxate. Ele tinha um ofício: era engraxate e ele, eu e muitos, sentíamos orgulho do que fazia. Desse ofício arrumava dinheiro em quantia exata a ser entregue a sua mãe, em ritual comum nos arredores das grandes cidades brasileiras. Jamais reclamara disso. Não era uma exploração. Era sua obrigação de filho.

Quando lhe sobrava um trocado, fazia o que toda criança faz: ia gastar sua mesada em diversões eletrônicas. Acontece que ele morava no Pedregal, terra em que bandido tem mãe e escritório cativo. Acontece, ainda, que Maicon e seu colega, depois da lide e com dinheiro no bolso em quantia o suficiente não só para brincar, como também para comprar um presente para sua mãe em dia próprio de fazê-lo - véspera do dia das mães - acharam de ir a um desses bares, perto de sua casa, que tem jogos eletrônicos. Acontece que era dia de ajuste de contas entre bandidos.  Um dos lados tinha como missão executar o dono do bar; missão cumprida. Foi-se o dono do bar em tiroteio de uma única direção. O colega de Maicon conseguiu fugir. Maicon se escondeu, mas deixou  à mostra sua nuca de criança que espiara, por curiosidade fatal, o feito homicida em espanto indescritível. Acertaram-lhe mais de 6 tiros na nuca, com o intuito simples de eliminar provas.

Sua mãe recebeu o trocado que Maicon arranjara para lhe comprar o seu presente e, junto, o cadáver do filho. O povo de lá do Pedregal põe a culpa no Saídão - dia em que soltam bandidos para visitas especiais. Sua mãe, pensando em homenageá-lo, fez um santinho com seu retrato, com mensagem de que ele cumpriu sua missão na Terra e que agora está feliz em outra dimensão. Eu amanhã volto ao meu botequim e continuarei cumprimentando os novos Maicons que em dúzias passam por lá. A rotina, como vocês sabem, será a mesma. Temo apenas pela freqüência.



Comentários

  1. Augusto Freitas01 outubro, 2009

    Infelizmente essas histórias se multiplicam. A freqüência é maior a cada dia. Recentemente um conhecido meu (bem semelhante ao que era Maicon Jonathan para o prof. Marco) morreu da mesma forma sem sentido. São cada vez menores as oportunidades nos interiores do país, crescendo cada vez mais o êxodo dos moradores desses locais, aumentando cada vez mais a população das capitais, elevando o número de favelas e de moradores das grandes cidades, tornando cada vez mais exíguas as oportunidades de trabalho nas metrópoles, elevando a taxa de criminalidade, aliada à facilidade de se conseguir uma arma de fogo, fazendo com que Fábios (nome do meu amigo) e Maicons morram com tanta freqüência e cada vez mais cedo.

    Jovens que têm ínfimas chances de chegar a idade adulta, porque só têm condições de subsistência se virarem bandidos - caminho que rapidamente leva à morte ou à carceragem - ou desempenharem atividades tais como a de engraxate que apesar de não oferecer riscos jamais possibilitará a mudança de lar. Ou seja, esse jovem jamais conseguirá sair da favela onde vive, do ambiente violento que o ronda. E vai acabar morrendo com tiros na nuca, apesar de inocente.

    Solução? Mudar a política. Como se faz? Entrando para a política, fazendo política nas universidades, discutindo os assuntos de interesse público não aquela bobagem de ideologia. A situação atual é a seguinte: as pessoas morrendo e os diretórios estudantis fazendo festas, ou melhor, como dizem eles, calouradas.

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  2. Marcos Morais...

    Absolutamente, a implementação de políticas que deliberam a notoriedade da informação são colocadas de lado no que tange ao funcionalismo do país. Explícito mesmo é o descaramento de grandes autoridades brasileiras que fazem campanhas em detrimento do "Maior desenvolvimento do Brasil, através da realização das Olipíadas", visto que inúmeros Maicons assolam as estatísticas fomentando argumentos vazios, cada vez mais distantes, em que são apresentados números da violência descabida.

    A falta de uma aplicação adequada dos recursos e sem a devida fiscalização dos órgãos competentes, gera esse descaso. Mães choram mais e mais...

    O dia em que esses fomentadores de fanfarras e oba-oba pararem de se promover (o que é praticamente impossível) às custas da população menos favorecida do Brasil e, de fato, administrarem os recursos aplicados, fiscalizando-os eficazmente, a situação pode pelo menos ficar menos caótica, sem a dicotomia clássica do caramba. A tendência é que o pobre sempre vai perder, seja em qualquer área. Parece que o 'jeitinho' de mudar tal situação, é juntar-se aos altos usufrutos do poder.

    Augusto dissera à pouco: "... As pessoas morrendo e os diretórios estudantis fazendo festas, ou melhor, como dizem eles, calouradas."

    Essas desculpas esfarrapadas para promover calouradas refletem a realidade brasileira, que cada vez menos se preocupa com a solução, ou melhor, pouco se importa com as discrepâncias, tão somente com os casos iguais ao do Maicon, visto que o objetivo é a liberdade. Faça-me o favor!

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  3. Homo homini lupus!

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  4. É lamentável que episódios como estes so tem aumentando... Concordo com o comentário do Augusto:

    "Solução? Mudar a política. Como se faz?Entrando para a política, fazendo política nas universidades, discutindo os assuntos de interesse público não aquela bobagem de ideologia."

    É por aí mesmo, fazendo política séria!!! Sem demagogia, clientelismo, cujo as consequencias são estas tão bem apresentadas pelo relato do prof. Marco.

    Marcos Paulo

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