Três vezes grau de investimento

O título do post foi retirado de uma reportagem de O Globo de 23/9/09. Não comento o título, porque, tal qual o assunto, é bastante confuso. Vamos ao que interessa: não há, para o cidadão comum ou para o burocrata de plantão, jogando o jogo do poder, sem grandes reflexões intelectuais, nada de útil nessas avaliações perpetradas por instituições privadas que produzem indicadores de risco de ativos. A rigor, isso só interessaria aos bancos. Mesmo assim, aos bancos de quinta categoria, que nem um bom cadastro ou bons analistas possuem para avaliar os seus potenciais ativos para compra. A única forma adequada de fazer tal avaliação de risco seria pela análise financeira e patrimonial das empresas, ou seja, seria pela análise de seus balanços. Como vimos, pela crise recente, é aí que reside o perigo. Os balanços são fajutos. Ainda tem maluco que diz que o sistema financeiro não deve ser regulado! Hoje, os governantes europeus exigem o fim da especulação financeira às custas do seu povo. Recado que o americano parece não ter entendido.

Mas por que tanta onda com esse assunto de agência de rating? Pela crise passada, vimos que essas agências, geridas e administradas por "especialistas", não conseguiram fazer nenhuma previsão útil. Então, para o que elas servem? A resposta pedestre que posso encontrar reside na rede de influência que existe no sistema financeiro. Essas agências de avaliação de riscos de ativos geram nichos de negócios específicos para os bancos e principalmente para os gestores formados nos MBAs de luxo. Até aí tudo bem. Mas eles, os "especialistas", querem extrapolar o seu raio de ação. Como sempre, o cliente com o qual todo vagabundo sonha não pode ser outro que não os governos de países de reputação duvidosa. Um casa perfeitamente com outro, respaldando políticas de governo de republiquetas manjadas, como é o caso presente da Argentina, Brasil e por aí vai. Da avaliação positiva dos ativos de emissão governamental ou privada com garantia da União até se chegar às políticas macroeconômicas, respaldando-as, é só questão de aritmética - já que esse é um país repleto de analfabetos funcionais!

Uma avaliação de ativos públicos de países como o Brasil é um tanto quanto engraçada. Deixando de lado a discussão da necessidade da União e os Estados se endividarem em moeda estrangeira, vamos aos pontos. Primeiro, porque ativos do governo brasileiro com posibilidade de gerar alguma suspeita de default seriam apenas os ativos em moeda estrangeira, como o dólar. Mesmo esses ativos em dólar só poderiam de fato representar um problema efetivo, se o país emissor estivesse operando sob um regime de câmbio fixo que sabemos tem uma duração média de 5 a 6 anos. Ele sempre sucumbe! Por isso os economistas acham esse regime uma porcaria, além do fato simplório de se tratar de simples controle de preços. Nesse caso faltariam reservas e o governo efetivamente não teria de onde buscar dólares. Não era à toa que, na vigência desses regimes, os bancos privados com ativos sob esse risco mantinham, na algibeira, regras práticas reveladoras dos limites de endividamento e prenúncio de crise no balanço de pagamentos (no caso do Brasil, uma regra de bolso apreciada era observar os limites ou faixas em que a relação saldo de capitais externos e exportações deveria ficar - numa faixa de 2 a 5. A hora de cair fora, bem ... eles nunca revelaram). Segundo, num regime de câmbio flutuante, por definição, os ajustes seriam nos preços o que signfica que seria de zero a chance de cano da União. (Você sabe por quê?) Pior ainda foi quando o Brasil emitiu títulos em Reais (pelo que sabemos seriam em Reais, já que os contratos no sistema financeiro só vêm à tona, quando bóiam). As agências de rating não se furtaram em dar nota a esse tipo de ativo, quando a sua possibilidade de default tecnicamente seria idêntica à possibilidade de default do papel-moeda que é outra dívida do governo do mesmo teor que, como poucos sabem, é de zero. A diferença é que um paga juros e a moeda não. Agora, é só aguardar a volta de outro besteirol: o risco-país.


Comentários

  1. Por que a turma dessas agências não qualifica os titulos americanos, já que a divida publica americana está nas nuvens?

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  2. "Efeitos do nada sobre o coisa nenhuma". Como diria Arnaldo Jabor (não gosto dele, mas a frase é boa).

    Augusto Freitas

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