As crises financeiras não podem ser previstas!


Dizem que as crises financeiras não podem ser previstas. O que concordo em tese, não só sobre a financeira, como em relação a qualquer outra crise econômica. É claro, dentro de um modelo, você poderá prognosticar crises de forma consistente. Mas do que vale isso? Se valor tiver prever crise, só terá se soubermos o dia ou hora ou até mês ou semestre. Daí pra frente, o valor vai caindo até chegar a zero. Nessa linha de raciocinio, saber de uma crise tem valor econômico. Você, então, me perguntaria: Por que alguém iria revelar o que tem valor apenas se ninguém souber?


Além dessa impossibilidade estratégica de previsão da crise, poderiamos perguntar: Qual a racionalidade básica para a impossibilidade de se prever a crise? Existem algumas hipoteses. A mais relevante é a falta de informação. Mas não é esse o ponto fundamental para não se prever a crise. Muito menos, se a crise existirá de fato ou se é verdadeira a hipóstese de sua possibilidade. A razão é simples. O mundo real é gerido por forças econômicas que dominam o ambiente político. O limite dessa dominação irá variar de economia para economia. O que importa é o encaminhamento das soluções para que o desfecho da crise tenha o menor custo econômico e social possível.

Veja, como exemplo paradigmático, o caso recente da crise financeira americana. Muito se discutiu se a crise foi ou não prevista. Bobagem. Os analistas americanos já sabiam desde a década de 80 que o sistema hipotecário americano estava se fragilizando, com a política de casa para todos e criação de derivativos à deriva. De fato, a turma da burocraica americana dispersa em órgãos fiscalizadores pouco conhecidos do grande público sabia que os experts em finanças - ou malandros, sentados no ônibus 171 - estavam usando e abusando dos derivativos criados a partir dos chamados CMOS - títulos securitizados pelos financiamentos imobiliários. Para completar a zorra, um banco central que adota a regra de taylor de se puxar os juros para cima, numa relação maior do que um com as expectativas altistas de preços, o cenário para o desmanche de ativos financeiros e reais estaria pavimentado. Os que berravam e ainda berram simplesmente não foram ouvidos. Por quê? Simplesmente, porque os homens que poderiam mudar as coisas eram os que exatamente faziam as coisas erradas. Novas crises financeiras virão. Krugman e outros estáo berrando contra os banqueiros, taxando-os de bandidos. Alguém escuta? Eu escutei e daí? No ínicio do seculo XX muitos gritaram sobre a possibilidade de falência bancária, alguém se lembra disso?

Pouco importa a previsão de crise. É quando ela chega é que temos oportunidade de chutar o pau da barraca. No Brasil, muitas coisas estão fora da ordem normal e assim inúmeras crises poderiam ser previstas. Pergunto novamente: e daí? Alguém poderá mudar algo? Claro que não, tá tudo dominado! Mas mesmo assim, muitos berram, inclusive euzinho aqui. Políticos FDPs.... Se de nada importa, pelo menos lavo a alma!




Comentários

  1. Novas crises virão. Muito bem dito, caro professor! E, de novo, muitos perderão dezenas de milhões de euros, dólares, yens, etc, mas, ainda assim, permanecerão sentados sobre patrimônios fantásticos. O pior é o pobre da esquina, que não perde nada, porque nada tem, perde o emprego, se já não o perdeu. Esse pobre é um ser anônimo, desconhecido, desonrado, desesperançado. De grande, tem apenas o grupo a que pertence: bilhões no mundo inteiro, não mais um “exército de reserva”, como se queria, mas um monstruoso vespeiro de almas penadas, depenadas vivas, sofrendo de vida, sim, é a vida que as esfola, o fato de estarem vivas. Nem quando morrem inspiram remorsos — outros bilhões estão a caminho do mesmo inverno: pobreza, fome, humilhação, sofrimentos infindáveis. Viva a civilização! Viva o homem moderno! Viva os espertos! Morte aos pobres-diabos que nem sabem por que estão aqui, neste planeta azul, belo e azul, saturado de gás carbônico e injustiça. Pelo menos alguns gritam, debatem-se contra o establishment, como o Sr. bem faz! Parabéns!

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  2. talvez voce (nao) goste disto

    http://www.voxeu.org/index.php?q=node/4106

    abracos

    claudio

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  3. Fui ler o artigo que o Claudio sugeriu. Li e não gostei, exatamente porque o analista do FMI não faz o dever básico sobre o Brasil: indagar pelo combate a uma inflação baixa com juros extremamente elevados, além do processo de indexação. Em outras palavras, o professor não conhece nada sobre o Brasil e não pensa fora dos clichês, pois ele e outros irão dizer que o risco país é alto e por aí vai para justificar juros tão altos.A minha explicação é mais simples: eles mandam, eles fazem.

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  4. Augusto Freitas22 outubro, 2009

    O mais curioso dessa crise pra mim foi que eu não vi nenhum grande empresário, executivo e etc. chorando, se desesperando, se suicidando, virando alcoólatra, noiado ou algo do tipo.

    Curioso, não?

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