Felicidade Interna Bruta

Aos poucos as fichas vão caindo, mesmo que o buraco seja mais embaixo. Eu, como blogueiro intempestivo, boto fé que o Sarkozy vive flanando, pelas mãos doces da sua (minha e de todos que gostam do objeto da perdição) encantadora Carla Bruni, pela internet e leu meu post inaugural. Como, nos rincões brasileiros, a linha da internet recorrentemente cai, teve ele que conversar com os prêmios nobéis Stiglitz e Amartya Sen. O que eles conversaram, infelizmente, não foi bem traduzido pelos jornalistas tupiniquins que acharam que o papo de Sarkozy era uma bravata, ou melhor, uma fábula de La Fontaine.

Os tantãs daqui acham que Sarkozy, quando propõe um novo índice macroeconômico para retratar o bem-estar, quer tapear seus eleitores e está a procura de uma desculpa esfarrapada para a estagnação européia. Tolice. Para completar o dislate desnatural, falam das maravilhas americanas e que o trabalhador americano é o mais produtivo e o escambau e que os europeus, em lembrança aos vínculos ibéricos do ócio, estão felizes da vida. O problema é que a imigração para a Europa é tão intensa quanto a americana e não se vê mais europeu atravessando oceano para tentar sorte melhor alhures. Falam no desemprego europeu como uma estatística assustadora, quando comparada com a taxa de desemprego dos Estados Unidos. Mas esquecem de contabilizar a população carcerária americana que é uma vergonha nacional em contingente expressivo. Euzinho aqui só vejo beleza nesse velho mundo. Pela perspectiva de uma boa vida lá, não hesito, um segundo, em me mudar é mesmo para a Europa.

O que de fato o Zarkozy tem em mente? É que o papo ultraliberal que varreu parte da Europa há algumas décadas atrás não foi bem assentado,mas, felizmente, rapidamente corrigido. Existe algo de muito bom nos acordos sociais vigentes na Europa. Existe, de fato, uma visão de Nação em que o bem-estar é uma meta possível para os cidadãos europeus. O problema é que invejosos e estúpidos de toda ordem querem minar essa estrutura social vigorosa e, talvez, superior a americana. Mas como apurar essa realidade social? Pelo cômputo do PIB é que não pode ser. Por quê? Porque o PIB trabalhado pela burocracia oficial é uma bosta. Está completamente desgarrado do que efetivamente os economistas bolaram há muitos anos atrás. Keynes é o nome para a referência para a construção objetiva desse índice e muito se fez para depurá-lo. O problema é que, principalmente nos países subdesenvolvidos, começaram a esculhambar essa magnitude, tornando-a misteriosa para os leigos e políticos comuns, escamoteando as verdades do desperdício e da corrupção que efetivamente reduzem o bem-estar da população - obviamente o bem-estar dos bandidos, em minoria gritante, aumenta e muito, principalmente quando a punição dura é quase inexistente. Com isso, Zarkozy não pode compreender como, por exemplo, o Brasil ou a Índia crescem aceleradamente, se ele olha para as ruas das principais cidades desses países subdesenvolvidos e constata o óbvio: Paris e toda a França é que é o lugar bom pra se viver!

Vejamos o caso do Brasil. Estão falando em crescimento. Bobagem. Por que sei que é potoca do governo essa propaganda do crescimento? Porque simplesmente olho para as ruas e só vejo miséria, pobreza, favelas, violência, políticos corruptos, prostituição de crianças, desmatamento, inundações, serviços de terceira categoria e funcionários públicos milionários. Claro que a estatística do PIB brasileiro é uma piada, pois com esse cenário a estagnação e involução é que seria o lógico, ao invés de uma miragem de crescimento. O pior é que nem para trás andamos, pois, como todos nós brasileiros sabemos, viver ontem é dez vezes melhor do que viver hoje. Você não repara, pelas fotos que não desbotam, como até os pobres e pobretões da década de 50 andavam mais bem vestidos do que a classe média baixa de hoje?

Como contabilizar essa picaretagem do PIB? É fácil. Basta considerar cada um dos elementos negativos que citei. Tome por exemplo a violência. Os gastos com segurança aumentaram barbaridade. Como isso deveria ser considerado no PIB? Negativamente, pois na verdade é custo para se gerar serviços e produtos. Mas contam positivamente, como se renda gerasse. Veja a corrupção que todos sabemos existe principalmente no superfaturamento das obras públicas. Como considerar esse roubo? Como roubo e portanto parte do investimento contabilizado teria que ser retirado, pois é roubo e não irá gerar renda. Pelo contrário, vai é concentrar renda! Veja também o caso do desmatamento. Se você pega todo um estado como o Paraná e derruba mais de 95% da floresta de araucária para produzir soja, como foi o que fez o gênio da camisola vermelha e grande Delfim Neto, deitado na arbitrariedade da ditadura militar de 1964, com o mote de que é preciso exportar, naturalmente indagaria: o que seria investimento e desinvestimento? Só consideraram o efeito soja que se diga de passagem ainda concentrou renda, ajudou a minar as pequenas propriedades do Paraná e lascou algumas das bacias hidrográficas. O desflorestamento aumenta todos os dias e nada de computarem como desinvestimento essa barbaridade ecológica e econômica. As cidades se favelizam aos montes, acelerando a devastação dos recursos naturais e nada se faz e nada se vê, principalmente socialmente. Para fechar os exemplos, falo dos salários dos servidores públicos que são contabilizados pelos valores pagos e não pelo salário de mercado, já que a diferença entre eles é puro roubo e extorsão. Portanto, não é de hoje que nos enganam com essa contabilidade fajuta do PIB. Como esses burocratas espertos são pagos fora do mercado, não será fácil nenhuma inovação estatística por aqui.

Quando fizerem a contabilidade correta, como quer Sakorzy e os prêmios nobéis (e eu e mais alguns poucos aqui no Brasil muito modestamente), veremos claramente que o verdadeiro PIB brasileiro é muito do chinfrim tal qual a vida que levamos aqui. Mas como não conseguem sequer fazer a tradução das idéias básicas sobre o PIB correto, contentemo-nos com a fábula do coelho e a tartaruga, já que dificilmente sairemos do lugar acreditando que a tartaruga poderia vencer o coelho.





Comentários

  1. Considerados os corretos e justos indicadores de progresso, é evidente que o futuro será sempre pior do que o presente. Reverter esse prognóstico parece impossível aos olhos mais otimistas. Muitos países, na verdade, se entregam é à construção do inferno: cada dia cavam mais fundo o abismo a que vão despenhando. Há uma evidente inexorabilidade da desgraça. Mas, ainda assim, há os que protestam, denunciam, lutam contra — parabéns pelo blog e suas idéias e lutas!

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  2. Podes cres, sou um otimista sem par, até porque vejo graça nas milhões de pessoas que vejo pelas ruas, nos jornais e filmes. Quanto a natureza, acho graça dos que têm pena do planeta: ele descansaria bilhões de anos, até encontrar uma genética adequada para a sua reocupação. Até agora o que tenho visto são seus espirros, mas quando reagir .....

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  3. Augusto Freitas05 outubro, 2009

    Muito bom o comentário. Sobre essa história do coelho e da tartaruga, não sei se é verdade, mas ouvi dizer que um canalha do IPEA andou dizendo que a jornada dos servidores públicos deveria ser de seis horas para que zilhões de outros empregos fossem criados, melhorando a situação do país. Não vou nem comentar que servidor público nada produz, só vou dizer que apenas no Brasil acredita-se que trabalhando menos alcançaremos melhores condições

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  4. Criar um indicador mais acurado de desenvolvimento é uma idéia que provavelmente tem pouca oposição, o negócio descamba quando se deseja misturar isso com produção.

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