Os imbecis e seus dogmas


Em entrevista, em agosto de 2008, no blog do Adolfo Sachsida, respondi a seguinte questão:


5) Você é um grande defensor da gratuidade dos medicamentos. Isto é, você defende que o Estado pague pelos medicamentos que os indivíduos necessitam. Por quê?

R) Simplesmente porque eu quero que os impostos que pago voltem para mim. Além disso, os melhores sistemas de saúde são os europeus que estão estatizados. Como disse acima, não vejo mal nenhum em retirarmos certas questões do mercado e deixá-las a cargo do Estado. O ideal é que sejam poucas essas atividades. Ressalto sempre: o equilíbrio político é superior ao equilíbrio econômico. Assim estou preso a essa máxima. Do ponto de vista político, entendo que o sistema de saúde público é preferível ao privado. No Brasil, a bagunça nesse quesito só aumentará porque temos de fato dois sistemas funcionando: o privado e o público. O público, sabemos que é uma fonte de corrupção sem fim e um descaso geral. O Privado fica atrelado em grande parte ao setor público, já que o emprego público (uma das maiores pragas desse país – funcionando tal qual a lei das terras como entrave a maioria dos cidadãos) é de dimensão considerável. Enfim, vivemos num país de excluídos em que poucos têm um padrão de vida civilizado e muitos têm um padrão de vida dependente de esmolas. A bagunça não é específica; é geral. Não acho que isso vai acabar bem. O meu termômetro é a rua. Só vejo a violência e o saque aos recursos naturais e públicos proliferarem. Está faltando o mínimo de Estado nesse país. O que temos é o setor público loteado. Como disse o prêmio Nobel Douglas North: “O Brasil é um país cheio de promessas e possibilidades, mas que foi tomado de assalto por grupos de interesse que souberam se aproveitar do Estado para seus próprios benefícios. E ainda se aproveitam. Esses grupos se protegem da competição, numa ação que tende a fechar a economia e barrar a eficiência”

Aí me vêm o imbecil abaixo e diz o seguinte:

Nemerson Lavoura disse...

Algumas poucas boas frases misturadas com um monte de bobagem e algumas sandices.

........

Saúde tem que ser estatal? Será que o professor já leu alguma coisa sobre a crise do sistema de saúde no Canadá (país ricos)? Não vou nem falar de Cuba ou do finado bloco comunista...

Que se defenda a presença do estado na prestação de serviços de saúde, vá lá. É uma opinião plenamente defensável. Já defender saúde estatal é coisa quem perdeu o contato com a realidade, para dizer o mínimo.

Ser polêmico é uma coisa, falar besteira é outra!

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Cito esse cretino, porque no Brasil muitos se guiam por clichês e assim não conseguimos discutir nada. São os dogmáticos e seus dogmas. Para mostrar que o animal acima se alimenta do capim que planta, publico o artigo do Krugman que saiu no O Globo:

"A ameaça suíça"

Paul Krugman

Foi uma gafe ouvida em todo o mundo. Num editorial que denunciava os planos do Partido Democrata de reforma do sistema de saúde, o “Investor’s Business Daily” tentou assustar seus leitores ao declarar que no Reino Unido, onde o sistema de saúde é público, o físico Stephen Hawking, deficiente físico, “não teria qualquer chance”, porque o Serviço Nacional de Saúde (NHS) consideraria sua vida “sem valor”. O professor Hawking, que é britânico, viveu lá toda a sua vida e sempre foi bem tratado pelo NHS, não ligou. O que o “Investor’s Business Daily” quer que você acredite é que o Obamacare transformaria os EUA no Reino Unido — ou numa versão fantasiosa do Reino Unido. Nas rádios e na Fox News tentam fazer você acreditar que o plano transformará os EUA na União Soviética. Mas a verdade é que os planos em discussão, grosso modo, transformam os EUA na Suíça — que não era um inferno socialista quando a vi pela última vez.

Todos os países ricos, com a exceção dos EUA, garantem cuidados essenciais para todos os seus cidadãos. Há, porém, grandes variações, e três abordagens diferentes. No Reino Unido, o próprio governo tem hospitais e emprega médicos. Ouvimos histórias horríveis sobre isso. Elas são falsas. Como todo sistema, o NHS tem problemas, mas parece fornecer um bom serviço gastando apenas 40% por pessoa em relação ao gasto nos EUA.

A segunda corrente deixa os cuidados da saúde em mãos privadas, mas o governo paga a maior parte da conta. É assim no Canadá e, de modo mais complexo, na França. É também um sistema mais familiar para os americanos, já que mesmo quem ainda não usa o Medicare (para idosos) tem parentes que usam. Você também ouviu histórias de horror sobre estes sistemas, a maioria falsas. O serviço médico francês é excelente. Os canadenses com doenças crônicas estão mais satisfeitos com seu sistema do que os americanos nestas condições.

A terceira corrente conta com empresas de seguro particulares, combinando regulação e subsídios para assegurar que todos sejam cobertos. A Suíça é o exemplo mais claro: todos têm que comprar um seguro, as seguradoras não podem discriminar pessoas com condições pré-existentes, e os pobres recebem ajuda do governo para pagar.

Assim, o programa de Obama torna os EUA semelhantes à Suíça. Se estivéssemos começando do zero, não escolheríamos esta rota. Uma verdadeira “medicina socializada” sem dúvida custaria menos. É por isso que eu e outros acreditamos que uma opção pública competindo com seguradoras privadas é importante. Mas um sistema suíço seria um grande avanço. E já

sabemos que tal sistema funciona.

O que está no caminho de um serviço universal de saúde nos EUA são a ganância do complexo médicoindustrial, as mentiras da direita, e a credulidade dos eleitores que acreditam nestas mentiras."

PAUL KRUGMAN é colunista do New York times

O Globo

http://www.oglobodigital.com.br/flip/tools/flipPrint/printMateria.php?id_materia=8983da8... 8/19/2009


Comentários

  1. De fato precisamos discutir com seriedade os assuntos, mas sobretudo com humildade.

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  2. Esteja certo anônimo que valorizo a humildade muito mais que imagina. Contudo, se me atacam, por leve que seja a mordida, despejo toda minha ira em réplica raivosa. Com os inimigos, não vejo por que tratá-los com gentileza.De qualquer forma, estou coerente com as regras do jogo.

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  3. Augusto Freitas14 outubro, 2009

    O post demonstra que os dois sistemas (público e privado) funcionam muito bem, mas em países cujas instituições não foram "tomadas de assalto" para atender a interesses particulares.

    Ou seja, ambos funcionam. Mas, no Brasil, nenhum dará certo enquanto tivermos as instituições que temos. Serão criados apenas antros e mais antros de corrupção.

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  4. É a velha questão do conflito ideológico entre o estado x mercado que impede a discursão isenta desses temas polêmicos.

    O prof. Marco Aurelio, com a honestidade intelectual que lhe é própria, não se exima em levantar questões, que os "liberais cegos" entendem como de cunho comunista.

    É lamentável!!!

    Marcos Paulo

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  5. Ah! Parabéns atrasado professor.

    Vc está prestando um importante trabalho para o crescimento crítico dos seus alunos

    Marcos Paulo

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