Um homem bom

Falo sobre um homem bom. O que será isto? Teremos mil exemplos? Teremos poucos? Com certeza, temos muitos como comprova a evolução do homem (a da espécie, tenho dúvidas!!!). Acabei de ver o filme “A vida dos outros”. Uma história que retrata a parte cruel e violenta do socialismo: a falta de liberdade e como isso, não poucas vezes, deixa homens bons amargos. Hoje, tentam ressuscitar o socialismo, aglutinando a palavra liberdade ao termo socialismo. Coisa de brasileiro pequeno, talvez. Com certeza, coisa de sindicalista pelego. A falta de liberdade vem pelo espraiamento do que chamam de planejamento; inclusive mote político que os espertos do partido socialista estão empregando nos horários nobres – às 20:00 horas e de madrugada. Exige o socialismo uma disciplina rígida na marra, porque senão o planejamento falha. Pior ainda. É invariavelmente gerido por gente de baixo nível moral, intelectual e mesquinha que acha que o homem tem que ser igual em tudo. Eles a nos julgar é que seriam diferentes; os verdadeiros donos de tudo, inclusive de nossos destinos. Infelizmente, é isso que estamos vendo acontecer, agora, na Venezuela.

O que se opõe a esse planejamento ou socialismo? O chamado capitalismo que, como todos sabemos, gera riqueza, mesmo que, por vezes, só para alguns. Como deixar as coisas mundanas equilibradas nesse mundo capitalista de má fama, indagariam as pessoas de boa-fé. Só pela política que inclusive pode definir a gestão simples de um orçamento público,escolhido verdadeiramente pela população. É a política que decide o que a sociedade como um todo, travestida de governo e mumificada em Estado, poderá fazer algo de bom ou necessário em nome de todos. Diferentemente do Kennedy assassinado, pergunto: o que o seu país poderá fazer por você se não for aquilo que você quis? Falo então da boa política. É de conhecimento generalizado, inclusive nas piores ou melhores favelas, de que a nossa política é muito ruim. Que rumo fundamental deveremos tomar? O socialismo ou o capitalismo? Eu defendo o capitalismo, só por uma razão fundamental: se sustenta apenas pela liberdade; que é o bem mais valioso que temos. Não uma liberdade de palavras. Mas uma de fato em que a expressão mercado competitivo coroa todo o ideário dessa visão de mundo, gerando oportunidades de negócio e trabalho para uma quantidade sem fim de pessoas. Como milhões e toda a turma do blog, a não ter QI abaixo do Enade, sabemos que o nosso problema político é a falta de um mercado competitivo e vice-versa. Poucos querem e ficam com tudo e muitos não sabem para onde ir, mesmo fazendo tudo certo e desejando apenas o básico.

Nesse mundo capitalista idealizado de cada um por si e Deus é outro assunto, não se idolatram os homens bons. Melhor ainda (valendo, também, o pior ainda), prescinde-se deles, pois, como sabem bem os filósofos de outrora (dos atuais pouco sei) , quando se conta com os bons para tudo, só aparecem coisas ruins. Qual será, então, a grande âncora do sistema capitalista? Não é o homem bom ou a solidariedade cobrada em vão. Um bom sistema só poderá frutificar e impor um mercado competitivo se tivermos boas instituições a confirmar a liberdade em tudo, isentando-nos de privilégios.

Instituição, palavrinha mágica que precisa ser bem detalhada. Uma boa instituição podemos encontrá-la, por exemplo, nas religiões. A católica é um bom modelo. A espírita é outra tão boa ou melhor que, segundo meu termômetro eclesiástico, registra poucos políticos espíritas; desses poucos, pouquíssimos seriam corruptos, e não tenho notícia de espírita pedófilo. Completo o exemplo kardecista com a seguinte máxima: nunca vi um ex-espírita, tal qual ex-padre, que sai da Igreja e fica na política. A dos evangélicos está em teste no Brasil e para nossa felicidade eles estão presos à bíblia e mantêm seu rebanho, alienado ou não, igualmente preso aos bons costumes. Temo apenas pela alienação sem volta que lhes retira a liberdade suprema de pensar, levando-os a aceitar tudo como se fosse a vontade do supremo todo poderoso. Outra instituição excelente é o casamento, embora eu esteja no segundo e a bem da verdade é porque a minha primeira mulher era muito chata e foi ela mesmo quem me despachou. Casar cedo ou tarde faz diferença. Ter filhos casados morando na casa dos pais, mais diferença ainda, com reflexos sociais e econômicos. Cada cultura terá o seu padrão matrimonial; o nosso só deteriora e decerto não será o casamento homossexual que o piorará ainda mais e caso o piore, temos que acatá-lo em nome do que mais importa. Existem outras instituições importantes que dão a garantia de que qualquer cidadão infeliz terá um raio de oportunidade negocial. Falo da propriedade do subsolo pelo povo e não pelo Estado (no Brasil o subsolo é da União e está nas mãos de poucas famílias). Falo da distribuição da terra para quem efetivamente se esforçou para tê-la (olhem a história americana, australiana, a francesa e esqueçam a nossa, exceto a do Sul do país). Falo da educação básica para todos. Falo do Estatuto da criança. (do idoso não falo, porque o capital está sempre nas mãos dos velhos). Falo das boas leis que rejeitariam de imediato a correção monetária, pelo simples fato de que jogou na rua milhares de famílias que não tiveram a possibilidade de recompor sua renda no compasso de um índice de preços imposto no seu contrato imobiliário, ou seja, contrato, quando é ruim, se quebra. Falo também da instituição do salário-mínimo que se justifica plenamente quando faltam boas instituições que garantam o respeito e a sobrevivência dos humildes e põe limites à exploração. Registro e falo mal da instituição quarto de empregada, deixando claro que nem todas as instituições nos levam a um mundo competitivo e, como essa, muitas outras também retroagem ao tempo da senzala.

É fácil perceber que Instituições são regras, formais ou informais, que colocam restrições e incentivos a guiar a conduta das pessoas. São as boas regras definidas pela intelectualidade básica de velhos, reacionários e conservadores e que, por vezes, podem ferir direitos consagrados, mas deturpadores em sua raiz da ordem social. Bem vimos o que aconteceu quando os novos fizeram a revolução beatnik, precursora da dos hippies. Trataram logo de curtir a vida, deixando o trabalho árduo para os caretas. Deu no que deu. Portanto, são as nossas instituições consagradas que trilham o nosso caminho do sucesso ou do fracasso. Quando o pai alemão se esforça para colocar o filho fora de casa já aos dezessete anos, isto tem reflexos na vida social e econômica do país. Quando as mães protegem seus filhos de QI de berimbau ou marcados pelas cartomantes da vida e os deixam em casa mesmo que sejam quarentões, isto também tem implicações importantes para nossas vidas. Quando achamos o máximo e muito bacana que os nossos filhos se tornem palhaços, artistas ou jogadores de futebol por vocação natural e legítima e ainda fazemos ideologia do talento artístico, definimos o ideal de homens e de fãs que ocuparão a seara do trabalho duro e meritório. Enfim, existem outras tantas instituições importantes a determinar o que somos e o que deixamos de ser. Falo, pois, do nosso ordenamento jurídico e dos nossos valores culturais, mesmo sabendo que o amor ao berimbau é coisa de gente de QI baixo, a compor nosso caráter e definir o padrão Brasil. Mas nada que não possa ser mudado, quando sob a batuta de uma boa educação. Com tristeza, contudo, reconheço: o nosso ordenamento jurídico foi para o beleléu. Quanto a nossa cultura, é ela mesma a que está nas ruas.

Agora, ainda reflexo de um grande infortúnio não distante no tempo, todos falamos, com toda razão e propriedade, mal das nossas Instituições. A razão é simples: estão completamente deturpadas. Como sei? Pela simples falta de um ambiente competitivo e não pela simples falta de planejamento. (paradoxalmente, melhor um planejamento ruim do que um planejamento exemplar, embora aquele contenha a semente da desgraça e o exemplar seja a própria). E sei fundamentalmente de que estamos em épocas ruins, simplesmente porque olho as ruas e vejo as pessoas. Por isso teço comentários apaixonados sobre o ambiente competitivo.

Destaco que o mais encantador nesse mundo competitivo, quando funciona de verdade, é a falta aparente de homens bons. Cada um está cuidando de si e de sua prole na sua bondade natural, já que os verdadeiros e essenciais homens bons teriam deixado, nas leis e costumes, o maior legado para os seus e a humanidade, tal qual a palavra de Deus, confortando-os e dando rumo em suas vidas, mesmo sabendo que a vida é dura. Nesse mundo competitivo, não pode o forte dominar o fraco, simplesmente porque a maioria é de fracos, economicamente falando. Se fortes existirem e existirão, estarão sob o julgamento do Estado, cortando-lhes a força exagerada. O fraco fracote terá a proteção mínima. O indivíduo competitivo, nesse mundo definido e deliberado pelas forças do bem, se dará melhor, sem que isso se traduza em golpes reles sobre os homens simples ou mesmo infelizes por qualquer razão. O mais competitivo terá melhores recompensas financeiras e nem por isso seria o mais feliz ou infeliz. Estamos na simplicidade de uma análise econômica, deixando para a sociologia científica e outras áreas do pensamento o esclarecimento sobre o caráter social dos indivíduos em outras dimensões da vida, sem deixar de registrar que a atenção com os infelizes se dará numa dimensão política distante dos preceitos liberais econômicos tradicionais. Dependem os desafortunados irremediavelmente de nossa solidariedade e bondade, como registram os liberais, socialistas e todos que querem a boa vida, num padrão ético coerente, e não serem incomodados pelos desastres sociais e naturais. Se assim queremos, devemos pagar, pois, por isso.

Somos diferentes. Existem pessoas de QIs diferentes. Uns são afoitos e outros medrosos e assim vamos e somos numa aparente dialética contraditória. Só a liberdade preserva a diversidade natural. E é justamente esta diversidade que o planejamento nega e repudia, achando que todos são bons de nascença ou pela socialização e que a solidariedade terá que ser obtida, nem que compulsoriamente. Não vivemos no paraíso. Vivemos na terra, deformando-a e na nossa pequenez seremos desprezados pela natureza, se a ignorância do baixo QI prosperar em nome da bondade, embusteadas em cotas ou segregações artificiais, germinadas em planejamento fora do eixo básico das leis e instituições. Não clamo pelo que não existe, como uma cooperação à revelia. Contento-me com o mínimo de amor, embora sonhe com o paraíso, fixando-me na Eva e na maçã. Sei que esse mundo de diversidade só pode brotar onde houver liberdade e isso o capitalismo nos dá e o socialismo nos retira. Mas não um capitalismo desprendido ao deus-dará. Pelo contrário, preso a sua gente pela cultura e tudo aquilo que falei que eram as instituições a por em prova a capacidade de sobrevivência de todos, refletindo a máxima de que não existe lanche grátis. Temos todos que trabalhar para termos o pão nosso de cada dia.

Se as nossas Instituições são ruins é porque derrubaram as boas ou nunca tivemos gente que prestasse nessa terrinha, ficando eu com a primeira possibilidade e daí a clamar por mudanças nos limites de minhas forças e bondade presumida. Já descobri há muito que uma boa forma de melhorar a minha civilidade é pelas nossas novelas. Existem outras formas igualmente válidas e esperançosas. Civilidade é o que podemos exigir uns dos outros. A bondade será reflexo de nossa cultura e acredito que todas as culturas fincam o bem, podendo, ocasionalmente, pelo viés da vida, tornar amargo o que era doce. Isso faz parte do nosso destino. Mas há a bondade essencial, que só poucos a exercem. Sei também que o homem bom nunca é bobo e nem sofre da pudicícia dos covardes. Sem essa mudança essencial de regime não poderei encontrar os homens bons que almejo encontrar aos montes em nosso cotidiano, identificando-os pela cara e pela falta de documento, já que os confundirei com aqueles outros essenciais. Clamo aqui pela bondade alheia em nome da nossa presente falta de bondade essencial e de antemão louvo aqueles que, pela sua bondade essencial, nos chamarão à razão. Em síntese: se a história é dos poderosos, que seja pelo poder da maioria em acerto tácito de que os privilégios se extinguirão. Não são apenas os comunas que querem a `ditadura` do proletariado. A queremos também; só que com liberdade e sem ditador, até mesmo porque o ditador benevolente é de probabilidade zero de existência. Temo apenas que havemos de endurecer e perder a ternura.


Comentários

  1. Augusto Freitas28 outubro, 2009

    Excelente texto, professor. À exceção de um ponto: de que maneira as novelas podem melhorar a civilidade de alguém? Trabalho durante o dia e vou à universidade à noite, portanto não assisto novela. Porém, em tempos idos eu o fazia. Então, a não ser que as novelas tenham mudado bastante (o que eu não acredito), o que há nelas é intriga, mentira, armação, violência, sexo.

    Desse modo, no meu ponto de vista, as novelas são um manual perfeito do que não deve ser feito. Caso o telespectador as entenda assim, tudo bem. Entretanto, a esmagadora maioria tenderá a agir da mesma maneira dos personagens ali representados.

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  2. Prezado Augusto, o que eu quis ressaltar é que tudo o que compõe o mosaico da nossa cultura afeta nosso comportamento. Os economistas estão preocupados com o comportamento humano sob o ponto de vista da escolha e veja que esse objetivo pode alcançar várias questões interessantes, como a escolha da parceira, das opções de emprego, etc. Assim, muitos aspectos de nossas vidas estão sendo retratadas pelas novelas. Eu assisto e gosto de novelas. Agora mesmo estou acompanhando a novela das oito: viver a vida. O que ela tem de importante? Os diálogos femininos que retratam a essência da mulher brasileira. Claro, as novelas contam uma história e portanto tem a sua dinâmica própria. Um bom autor saberá retratar o povo brasileiro, através de suas histórias. Com isso, você pode acompanhar o quão próximo de nossa realidade estão as novelas, além de aprofundar seu conhecimento sobre o universo do homem e da mulher brasileira. Pode também notar o quão alienados possam estar os personagens. Enfim, tem que gostar de novela em primeiro lugar, para poder saborear outros elementos que ajudam a entender a realidade brasileira.

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  3. Augusto Freitas29 outubro, 2009

    Caro Marco, um assunto amplamente abordado em seus comentários é o das instituições. No caso brasileiro, com o militarismo é que elas foram tomadas de assalto e jamais recuperadas.

    Gostaria da sua opinião sobre este texto: http://www.ordemlivre.org/textos/749

    No caso da Argentina, a queda realmente começou e/ou se intensificou com a "era K"?

    Seria muito interessante também, dentro da sua especialidade que é a economia brasileira, um post sobre as diferenças (positivas e negativas) do governo FHC para o governo Lula (se é que existiram de fato diferenças).

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  4. Prezado Augusto, sinceramente não gostei. Primeiro, porque não sendo especialista em Argentina pouco poderia falar e não conheço a articulista para identificá-la como uma especialista em Argentina. Pelo que li, parece que não, pois o casal K é representante dessa elite argentina que levou o povo argentino a regredir a passos largos, segundo vejo pelas estatísticas. Em segundo lugar, não usa o Brasil como anteparo lógico. Em que somos diferentes dos argentinos?

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  5. Um ótimo texto para que aqueles que acreditam que a solidariedade voluntária poderia resolver tudo.

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  6. Valeu Marcão, um artigo para irmos nos deliciando aos poucos.
    um abraço
    Luiz

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