O câmbio flutuante trabalha a favor de todos

Se há uma política que alcançou unanimidade entre os economistas é, sem dúvida, a da adoção generalizada do câmbio flutuante. Fazendo um retrospecto histórico sobre a conveniência e o acerto do câmbio flutuante, chegamos a Milton Friedman, Nobel em Economia, que o defendeu com vigor acadêmico, no final da década de 40 do século passado. Nos EUA, a sua implementação efetiva ocorreu na década de 70, contaminando rapidamente a Europa que, mesmo tateando por algum tempo na tal da serpente, percebeu em tempo próprio o óbvio: câmbio fixo é um controle de preços que é ineficiente e só traz confusão ao ambiente econômico. No Brasil, em situação de crise, em 1999, adotamos o câmbio flutuante e só lucramos com tal opção de regime cambial. A China, cedo ou tarde ou quando vier a democracia em sua plenitude, terá que ceder e entrar na onda mundial do câmbio flutuante.

Se alguém se der ao luxo de refletir detidamente sobre o câmbio fixo, notará que esse controle de preço é bastante peculiar, pois envolve milhões de preços e uma dezena ou centena de políticas monetárias e comerciais, sem falar na tentação dos burocratas de interferir por conta e risco na própria taxa de câmbio, para acertar contas entre grupos privados. O pior efeito do câmbio fixo, principalmente para nós brasileiros desamparados pela política, é um da maior gravidade: podem jogar, pela desvalorização descabelada do câmbio, a economia no chão, num processo recessivo profundo. O Delfim Neto, o Simonsen e outros igualmente "ilustres" fizeram isso em épocas sombrias, alimentando empresários ineficientes com o câmbio desvalorizado, gerando o excedente exportável na marra, à custa do emprego e renda dos demais setores e agentes da economia, de forma a recompor a burra oficial para pagamento dos juros do capital externo.Já no mundo do câmbio flutuante, tais tentativas de corrigir a rota do câmbio, em nome de desequilíbrios estranhos ou aparentemente legítimos, só gerariam resultados fugazes, pois não há como vencer a força do mercado, principalmente quando há uma integração mundial dos mercados financeiros.

Acontece que muitos analistas tratam de apregoar sem provas que o câmbio está baixo ou em desequilíbrio. O câmbio, num regime flutuante, não pode estar baixo e nem alto. Ele estará sempre em equilíbrio. O que se espera do câmbio flutuante é que efetivamente reflita os choques a que qualquer economia está sujeita. Reflita também as medidas de política econômica dos burocratas.Dessas medidas fora do mercado praticadas pela burocracia profissionalizada, a mais impactante é a de se colocar nas alturas a taxa de juros, quando o mundo ocidental trabalha com taxas zero ou quase zero, já que as economias estão se movendo com dificuldades para retornar as suas trajetórias de "crescimento" natural. O reflexo da manutenção dos juros-selic nas alturas é, naturalmente, pressão no câmbio, pela atração certa de especuladores, misturados a investidores, que vão querer usufruir dessa taxa de juros elevadíssima. Quanto à tendência do dólar de seguir sua trajetória de queda inevitável, nada se pode fazer. Não estão em nossas mãos os instrumentos para mudar esse fenômeno, se é que existem. Isso é um problema dos americanos que só eles, os americanos, poderão resolver e assim o farão se quiserem. Se queremos usufruir de um mundo globalizante, temos que entender e nos submeter às regras de mercado que nesse contexto funcionam.

Porém até aqui, não há muita novidade. O argumento dos enjeitados pelo câmbio é o de que o câmbio nessa trajetória baixista irá provocar um rombo incalculável nas contas do setor exportador. Do ponto de vista do regime de câmbio flutuante, isso simplesmente não é verdade. Há senões a considerar. Se o governo não travasse a economia com distorções graves, o câmbio flutuante mesmo em trajetória de "baixa" não iria trazer transtornos espetaculares ao setor exportador. Como? Muitos interessados no assunto perguntariam. Respondo. Câmbio flutuante, em trajetória descendente, arrastaria consigo o nível de preços internos. Então, perde-se lá e ganha-se aqui e tudo poderia ficar como dantes na terra dos Abrantes. O problema é que temos os Amarantes que contaminaram a economia brasileira com um processo de indexação descabelado que reajusta tarifas, mesmo quando o cenário é de deflação. O que isso faz? Simplesmente contamina os índices de preços e promove um reajuste de preços em cadeia, travando a redução de custos interna que, de outro modo, certamente ocorreria. Assim, o verdadeiro inimigo do setor exportador não é o câmbio. Os inimigos estão no governo. Um grupo importante deles você encontra facilmente nas agências de regulação, pois são eles, burocratas que programaram e ajustam um sistema de tarifação atrelado a uma série de fatores avulsos, de forma a atender o objetivo esquizofrênico de propiciar às empresas reguladas, em todas as épocas, um retorno real de quase 12% ao ano, os culpados pela bagunça tarifária. Você, pequeno empresário, certamente acha graça ou sisudamente perguntaria: quem garante o meu retorno?

Outro grupo, você encontra no Banco Central que fixa juros nas nuvens, num mundo preso a quase uma armadilha de liquidez, atrelando, ainda, de forma equivocada, essa taxa de juros à dívida pública. Esses mecanismos de indexação das tarifas e dos juros contaminam o índice de preços e podem contaminar verdadeiramente os custos de outros agentes, levando a um repique inflacionário efetivo. O pior de tudo é que, para combater esse repique inflacionário, o próprio Banco Central utiliza o arrocho nos juros, aumentando a cadeia das distorções.

Por fim não posso me esquecer de culpar parte dos exportadores que sempre se beneficiam do câmbio, como a agroindústria que se vampiriza com câmbio baixo, recompondo suas plantas, e se vitaminiza com o câmbio alto para compensar sua ineficiência patente. Neste mundo de vampiros a sangrar o Estado e o povo, o efeito baixista nos custos, caso o governo se comportasse com o mínimo de isenção, não seria necessário. A redução nos custos ocorreria, como de fato estamos vendo, pelo encurtamento da planta industrial, com demissões e lágrimas apenas dos trabalhadores, já que eles, os empresários "amigos", contam com benesses compensadoras.

Se o setor exportador tem inimigos, o câmbio flutuante, para cima ou para baixo, não seria de forma alguma um deles. Pelo contrário, é seu aliado já que evita que políticos inescrupulosos lancem a economia em recessões inventadas. Os inimigos do setor exportador são os juros altos, o sistema de tarifação de serviços como a energia e a telefonia e parte dos exportadores que dominam o setor público para dirigir a economia de forma a atender exclusivamente aos seus interesses privados, apregoando, em escárnio macabro, que são defensores do mercado.

O câmbio fixo, esse sim é o verdadeiro inimigo de toda a nação e só atende aos interesses de burocratas que faturam com a desordem cambial que conseguem promover com a gestão extemporânea sobre o câmbio, favorecendo um ou outro grupo. O câmbio fixo é problemático, exatamente porque é definido fora do mercado, o que pode levar toda a cadeia de rebaixamento ou aumento de preços a não se verificar.

Pior do que isso é, ainda, a possibilidade certa de se engendrar uma recessão com o fim único de se obter saldos exportáveis à custa de todo o resto da economia que não se beneficia diretamente dessa estratégia esquizofrênica de ajuste das contas externas. Posso adiantar que, compreendido o problema do câmbio, até o Serra não falaria mais essa bobagem de câmbio baixo, porque qualquer um poderia perguntar: baixo em relação a quê, cara pálida? A quem você quer ajudar? E quem paga o pato? Mas se o Serra teimar em câmbio fixo, esteja certo: ele levará o país a uma recessão para acertar contas que não existem e que nós deixará mais pobres do que estamos. Assim, tenho que admitir, embora carregado de cobranças ao cara, o Lula está certo: o câmbio flutuante quando sobe ou desce ajuda uns e prejudica outros e portanto não dá para mexer no câmbio. Ainda bem que o Lula não é da Unicamp e nem da USP, mesmo sendo de São Bernardo.



Comentários

  1. Poucos entendem que não só o câmbio fixo é controle de preços. Tem os juros. Mas estes, poucos entendem o que seja.
    Um abraço
    Luiz

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  2. Augusto Freitas04 novembro, 2009

    "Se há uma política que alcançou unanimidade entre os economistas é, sem dúvida, a da adoção generalizada do câmbio flutuante."

    Uma provocação: o Luiz Carlos Bresser-Pereira não concorda com isso, caro professor. (risos)

    http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=3491


    Ah, se estiver num dia bom... digo, num dia ruim, chute a lata que contem a Maria da Conceição Tavares também.

    http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4080080-EI6579,00-Maria+da+Conceicao+Banqueiros+nao+mudaram+com+a+crise.html

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  3. Alo Augusto, fui ler o que o Bresser Pereira disse. Resumo o essencial.
    ..... E o câmbio está novamente seguindo sua tendência estrutural à sobreapreciação.
    Essa tendência à sobreapreciação tem duas causas fundamentais: a doença holandesa moderada mas real existente no Brasil e a atração que os capitais externos têm pelas taxas de lucro e de juros mais elevadas existentes no país. Por isso não é possível deixar a taxa de câmbio por conta do mercado. Este não a torna apenas volátil, como todos os economistas reconhecem, mas essa volatilidade tem uma tendência para a sobreapreciação que resulta, no curto prazo, em diminuição das oportunidades de investimento e, no médio prazo, em crise de balanço de pagamentos. O Brasil só alcançou altas taxas de crescimento enquanto administrava sua taxa de câmbio. Só voltará a alcançá-las quando voltar a fazê-lo.

    Perguntas óbvias que têm que ser feitas:
    1) Causas da sobreapreciação cambial: doença holandesa e atração de capitais externos, dadas as taxas de lucros e juros elevadas. Por quê?
    Quanto à doença holandesa, relação entre exploração de recurso natural e declínio do setor manufatureiro, trata-se apenas de um clichê. Não há nada que garanta a relação unívoca entre exploração de recursos naturais e decadência do setor manufatureiro. Para a Inglaterra, quando da exploração do carvão, tivemos foi um crescimento espetacular do setor manufatureiro. De qualquer forma, a estultice sobre essa questão é que, se de fato existisse tal relação perversa que geraria empobrecimento, a solução seria ao mesmo tempo trivial e descabelada: simplesmente jogar fora tal oportunidade de riqueza. O que estamos vendo é uma briga de foice entre grupos que dominam a Petrobrás. Mas em economia, você tem que se acostumar com os malandros, pois malandro é malandro e Mané é Mané. Se esse Bresser tivesse o mínimo de honestidade intelectual teria montado um modelo para o Brasil em que detalharia as condições para a existência do mal holandês na situação presente, em que o pré-sal é considerado como a salvação da pátria. Temo até que o Lula já está gastando por conta disso!
    Em segundo, aponta como causa importante para a valorização do real as taxas de lucros e juros elevadas. Taxas de lucros elevadas têm relação com poder de mercado e privilégios. Juros altos com decisão de política monetária. Ambas as situações, se são as causas e provêm do próprio Governo, teriam como serem reavaliadas pelo próprio governo. Isto do ponto de vista lógico e tomando como certo que o governo está sendo dirigido por servidores idôneos. Sabemos que não é o caso. Mas isso é outra história.
    Por fim, deixo registrado que não nutro admiração por gente que não paga sequer o custo de suas burradas. Você era pequenininho quando o Bresser inventou o seu plano que , como sabemos, está coerente com os demais planos heterodoxos: vão roubar o povo. Mas o que fez o gênio dos supermercados? Tratou de pedir, em juízo, quando de sua rescisão contratual no Pão de Açúcar, os reparos pelos efeitos do Plano Bresser. Não sei se ganhou. Mas parece que a turma portuguesa dos supermercados resolveu pagar pra se livrar do cara.
    Quanto à Maria da Conceição Tavares, ela atacou os bancos, defendeu déficites temporários e apóia medidas de restrições à entrada de capitais. Quanto aos bancos, não vejo nada de mal nisso. Pelo contrário. Em relação às duas outras questões, elas são pontuais e, portanto não alteram nada de essencial. Não quero discutir a questão orçamentária num contexto de crise. Eu quero é mudar o modelo, conforme defini no post inaugural. Ficar criticando pontualmente, só reforça a idéia de que o problema é localizado e específico.

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