Por que a renda dos servidores públicos da União, Estado e Município é maior do que a do setor produtivo?

A resposta a essa pergunta é pela sua aceitação. Para mim sua afirmação é provocativa e pretendo funcione como um mantra denunciativo do sujeito responsável pelas ações concretas contra o povo brasileiro. De fato, o modelo Casa Grande & Senzala tem como seu gestor exatamente os servidores públicos em geral. Estão localizados em todas as três esferas do poder: executivo, legislativo e judiciário. Esses gestores cumprem determinações e missões, estabelecidas pelos donos do poder que, em linhas gerais, podem ser classificados assim: ruralistas, banqueiros da Febraban, industriais da Fiesp e empreiteiros, rotulados, para referência futura, simplesmente como a elite brasileira.  Claro, para executar "brilhante"tarefa, o preço é alto.

A forma de ataque desses grupos se dá pela dominação do poder político, para que exerçam dentro da legalidade o poder econômico sem incômodos legais. Para isso foi preciso uma ditadura militar, enterrando o resto da revolução de 1930 que ainda suspirava pela Constituição de 1946. A revolução de 1930 pretendeu dar fim ao domínio da elite do café com leite e trouxe as reformas políticas necessárias para colocar o povo no contexto da política. A resistência paulista foi violenta e traduziu-se em tentativa frustrada de um golpe já em 1932. Foram vencidos, mas não inibidos para iniciar o desmonte da era Vargas. O golpe fatal veio em 1954, com o suicídio de Getúlio. JK abriu espaço para a podridão política se encastelar no legislativo, jogando no lixo o orçamento simplificado criado pela era Vargas que era conduzido com profissionalismo pelos servidores do DASP. A ditadura militar de 1964 foi o desfecho final, trazendo de volta a turma do café com leite que aos poucos conseguiram reverter a maioria das conquistas sociais acumuladas desde a década de 1930. A reversão foi rápida. Em 1970, reverteu-se completamente a trajetória de crescimento de forma definitiva, com a estagnação e pobreza dando a tônica do novo modelo, engendrado pelos tantãs de todos os naipes com o rótulo de liberais para esconder o que efetivamente eram: intervencionistas ao extremo, gerindo o mercado com a bússola da elite.

Esta ditadura militar de 1964 foi uma ditadura política e econômica que precisava usar da força para desmanchar a Constituição de 1946 e implantar políticas de proteção a esses grupos econômicos. Foi uma nova ditadura, completamente diferente da ditadura do estado novo que era essencialmente política e combatia, sobretudo, os comunistas e a elite do café com leite. Quando o desmanche da ditadura de 1964 se concretizou, o mesmo grupo de poderosos de sempre, a misturada requentada do café com leite, concebeu a democracia que temos hoje, mantendo todos os tipos de distorções criadas pela ditadura militar. Dentre essas distorções desequilibradoras, temos a de domínio do subsolo e rios por esses grupos excludentes que garantem para si a riqueza mineral e, para um grupo mais amplo de ruralistas, o domínio de uma política de coitadinhos, mesmo a custa da degradação ambiental e do emprego de milhares de brasileiros que são forçados a migrar para as grandes cidades. Temos as distorções do comércio internacional que isola os brasileiros dos produtos de boa qualidade e impõem políticas fiscais e monetárias casuísticas, com o fim único de se proteger indústrias criadas pelo artificialismo cambial, crédito barato e abundante e esquemas tributários fincado no subsidionismo, usando como mantra político a rejeição ao ALCA e o confinamento ao Mercosul – acordo entre as elites da linha branca brasileira e argentina. Temos as distorções da matriz energética que mantém até hoje a indústria retrógrada da petroquímica e outras tantas pelo subsidio do gás, energia elétrica que, de quebra, ainda mantém um bom pedaço da turma ruralista na aba dos preços controlados. Temos a distorção da privatização fajuta que mantém intactos privilégios para poucos e tarifas absurdas. Para completar o cenário caótico, temos as distorções dos orçamentos públicos, em todas as três esferas da federação, privilegiando ações privadas que aceleram o spillover e destroem os projetos públicos, notadamente o de educação, saúde e transporte. O desperdício e a corrupção são os vetores desses orçamentos públicos. Essas são as verdadeiras fontes de ineficiência que acabam por concentrar a maioria das atividades econômicas no sudeste do país, acarretando o brutal spillover que atrai o povão de todos os recantos do país que só conseguem sobreviver forçando a degradação urbana e ainda gera o espraiamento da monocultura.

Para manter essa desordem microeconômica com implicações macro, há de se contar com a burocracia oficial em todas as esferas, bem como se ter um ordenamento jurídico caótico que mantenha as distorções funcionando na magnitude e direção correta do modelo da Casa Grande & Senzala. O desiderato de tudo isso é o inchaço das cidades, a redução do salário médio do setor privado, o desmonte orçamentário público, a degradação urbana e rural e o aumento da violência.

A degeneração do serviço público é uma generalização que não pretendo ataque todos os servidores públicos indistintamente, mas apenas aqueles que, burlando deliberadamente sua consciência, tomam atitudes profissionais descasadas de qualquer código de ética ou religião. Falo daqueles servidores que, para manter seus privilégios, invocam quaisquer medidas e principalmente aquelas que empobrecem o povo brasileiro, arrancando uma fatia importante do PIB para a classe unida dos servidores públicos, em troca do serviço prestado à elite brasileira. Para os que exercem sua atividade, nos limites do seu quadrado, sob a fleuma característica das mentes brilhantes quando desalojadas de seu habitat natural, contam com a minha admiração, pois a saída é política. Como muitos imaginam e intuem, para piorar nosso dilema, é esta porta a mais difícil de transpor, em virtude das ações sindicalistas segregativas das piranhas, jacarés e toda a horda de facínoras que deveriam ser retratados na coluna policial ou nos postes das ruas brasileiras com o rótulo de procura-se.





Comentários

  1. Professor,

    Pelo que vc escreveu só enxugando a máquina pública para que algo de bom aconteça no Brasil.

    As instituições estão DOMINADAS!!!

    Tá tudo DOMINADO!

    Nesse aspecto eu concordo com os liberais, abertura comercial, privatizações e outras cositas mais.

    Marcos Paulo

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  2. Se os melhores estao no serviçco público, porque nao poderiam fazer o melhor?

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  3. Claro que fazem o melhor. Mas isso significa que fazem o melhor para o povo brasileiro ou para eles mesmos?

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