Por que as cidades estão se deteriorando (todas)?

Essa é uma pergunta que a grande maioria dos brasileiros sabe responder. É a desordem legal que permite invasores de terra de todos os naipes dominarem o cenário urbano, degradando-o. Mas não se pense que os invasores são apenas os maltrapilhos humanos, deserdados em tudo. Eles têm parte da responsabilidade. Entretanto, a desordem que provocam é, até certo ponto, reversível. A que definitivamente desmancha o ambiente – e efetivamente me preocupa – tem outros agentes. São os empreiteiros, personagens importantes do modelo Casa Grande & Senzala, assentados estrategicamente na Casa Grande, que, elegendo os políticos de suas quitandas, conseguem alterar, na mão grande, o padrão urbano, mesmo que seja à custa da degradação da cidade. Esses políticos que irão dirigir o modelo Casa Grande & Senzala em sua dimensão regional se encarregam dos mensalões, comprando políticos de todas as legendas, alterando as leis a torto e a direito de forma a atender o apetite rentista ilimitado dessa corja poderosa da Casa Grande.

Portanto, é a invasão legal que irá, rompendo o padrão urbano elementar e básico, trazer a degradação do meio ambiente e transformará as cidades em pocilgas horripilantes, sujeitas às inundações e acho até que aos tremores tectônicos. Nada disso se vê em países desenvolvidos, onde a política cumpre razoavelmente bem o seu desideratum nobre e abrangente de atender o povo.

Não se pode negar que a força do modelo Casa Grande & Senzala, que concentra sua produção no sudeste do país, tenha sua cota de responsabilidade pela degradação urbana. Mas ela em sim mesma não é determinante desse infortúnio. Tome o contra-exemplo argentino que como sabemos tem o seu modelo Casa Grande parecido com o nosso, mas com pouca ou nenhuma senzala. A razão para que a senzala não prolifere destruindo as cidades é clara: o sistema político argentino não apodreceu a ponto de só terem políticos corruptos que se vendam a qualquer empreiteiro. O mesmo vale para o Uruguai. Nestes lugares próximos do Brasil, o povo não é bosta e nem se faz de.

Mas, no Brasil, o modelo Casa Grande & Senzala, como bem batizaram os federais (polícia), abriu a caixa de Pandora e todos os males se espalharam por todos os rincões do país. A política presente não serve para nada de útil para o povo e, tirando-se a tortura, pouco temos de diferente entre o modelo militar de 1964 e o presente modelo. Melhor dizendo, seria aquele até melhor, porque sempre andando para trás estaríamos melhor.

O grave nesse modelo é que os oportunistas aparecem em todos os cantos para dar um sopro de vida ao que agoniza mortalmente. Inventam políticas paliativas – estas, como o bolsa-família, eu defendo, porque assim a população mais carente pode retirar algo de útil para ela e não avança diretamente sobre mim – e outras requentadas na busca de um equilíbrio maléfico à população em geral. Falo de políticas como a presente política habitacional que, mesmo amarrando milhares de mutuários a correção monetária que funciona tal qual uma bomba relógio, consegue atrair mutuários e empreiteiros num projeto maroto. Poucos sabem, mas para viabilizar, fora dos requisitos de uma economia de mercado, novas áreas para acomodar essa massa populacional que se desloca como rato atrás de comida de cobaia, a degradação urbana tem que proliferar e para isso só com o apoio da prefeitura, vale dizer, da corja de políticos que irá alterar o padrão urbano secular e estável, propiciando-nos a degradação do meio ambiente e de nossa paisagem urbana acolhedora. A recompensa para o crime e bandidagem geral compensa e muito, fragilizando nossos valores sólidos no exercício de nossa cidadania que só não desmorona de vez pela falta de imunidade que só os políticos canalhas e os poderosos podem desfrutar. Se conforto posso trazer em minha análise, diria que o que restou ao abrirem a caixa de pandora foi esperança.

Identificado o mal, a resposta é simples. Primeiro, identificar, dadas as mudanças legais descabidas praticadas a torto e a direito, qual plano diretor é, de fato, o adequado para cada cidade. Conhecido os pontos críticos, atuar diretamente sobre ele. Como sempre, poderemos enfrentar problemas sociais graves, porque talvez a remoção seja a única solução. Se for, tem que remover a população com indenização justa: outro local de moradia e equacionamento do custo de transporte incorrido pela mudança de local ou até mesmo uma realocação regional. No caso rural a questão é mais complexa, pois envolve questões ambientais antigas e estratégia de governo que resulta em monoculturas para grande faixa de área não urbana. De qualquer sorte, a nível local há de se identificar cada um dos problemas específicos, transferindo para o proprietário rural parte da solução em seus próprios termos. Resumindo. Antes de tudo, precisamos estabelecer um diálogo com a natureza, identificando nossas mazelas e as fraquezas naturais que, nós, cidadãos, em ação depredatória, engendramos. Devemos conhecer, mesmo que de imediato nada possamos fazer, o problema que cada um de nós está enfrentando, tendo consciência de nosso espaço, em verdadeira aula de geografia cívica. A ignorância generalizada também contribui para a ação deletéria dessa gestão política, tolerando ações descabidas mais do que o normal ,nessa democracia requentada em panela velha, fazendo com que o avanço da depredação em nossos espaços não possa ser contabilizada de forma simples.



Comentários

  1. Muito coerente seu texto.
    JOrge Avellar

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  2. O haiti é aqui também.
    JC prates

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  3. Concordo com o prates: o haiti é aqui e sei porquê. OBrigado pelo artigo.
    Jonas

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  4. Augusto Freitas21 janeiro, 2010

    Tá cada vez mais difícil se consolar. Já foram milhares as Caixas de Pandora abertas, de regra não acontece nada. Quando acontece o sujeito apenas perde os poderes políticos e volta depois de 8 anos, isso se não renunciar pra voltar logo na próxima eleição.

    Há uma inversão de valores terrível no Brasil. Eu não aceito que um indivíduo instruído, educado e conhecedor de tantos assuntos - inclusive leis - quando preso, é tratado com regime diferenciado, cheio de regalias. Esse cara tem muito mais condições de evitar o cometimento de delitos pois conhece as leis e não tem nenhuma dificuldade financeira. Tinha que ser preso como qualquer um é preso. A economia me ensinou que as pessoas reagem a incentivos, esse tratamento diferenciado é um incentivo ao crime! Dá razões para pessoas instruídas e com dinheiro se tornarem criminosos.

    Quanto à política eu estou num pessimismo só. Pra mim a única forma de melhoria é fazer a reforma política. Mas fazer a reforma política ELEGENDO GENTE NOVA. É retirar todos os Sarneys, Collors, Arrudas, Prudentes, a bancada ruralista, o Paulinho da Força Sindical, todos! Infelizmente não consigo imaginar que isso aconteça num futuro próximo.

    Parece-me que a frase "não há nada tão ruim que não possa piorar" - que ouvi por aí mas não lembro quem disse - nunca esteve sendo tão bem aplicada.

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  5. OLÁ MARCO.

    ESSE BRASIL NÃO É UM PAÍS SÉRIO.
    ABS DO BETOCRITICA.

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