Dica do Selva Brasilis: "O PT já nasceu corrompido"

Em entrevista concedida ao Jornal de Brasília, Olavo de Carvalho comenta a derrocada intelectual e moral do Brasil nas últimas décadas, resgata fatos da história recente do país, e destaca aspectos do modus operandi do PT: Eles também apelam à violência. Veja as mortes dos prefeitos de Santo André e de Campinas.


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O PT durante anos brandiu a causa da ética. Ao chegar ao poder foi desgastado pelo escândalo do mensalão. O DEM passou a levantar a mesma bandeira, mas foi tragado com o caso de Brasília. A defesa da ética tem alguma maldição?

Em primeiro lugar, o prestígio do PT cresceu pelo discurso de combate à corrupção, mas a máquina de corrupção do partido já estava sendo montada enquanto isso acontecia. Tanto que foi organizado um serviço de inteligência privado do PT, que ficou conhecido como PTPol. A coisa foi denunciada pelo governador Esperidião Amin (Santa Catarina), mas nada se investigou depois. Em 1993, quando houve aquela famosa CPI da Corrupção, a máquina já estava montada, já fazia três anos que o PT fundara o Foro de São Paulo, associando-se a organizações de traficantes e seqüestradores como as Farc (Força Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Mir chileno ao mesmo tempo em que, em público, pregava a moral e os bons costumes. Todo aquele combate aparentemente moralista era para encobrir o esquema. O PT foi o partido que mais enganou a população, pois ele já nasceu corrompido. Em segundo lugar, a decadência moral dos partidos acompanha a decadência geral do Brasil, que se aprofundou muito nos últimos 20 anos.

Para o senhor a desmoralização partidária é então resultado de um processo mais amplo?

A decadência não se dá apenas no aspecto moral, ela aconteceu intelectualmente. Nossos estudantes invariavelmente tiram os últimos lugares nos testes internacionais, abaixo de gente que vem de países muito mais pobres. Note que a produção de trabalhos científicos no Brasil aumentou bastante nos últimos anos. Mas as citações de pesquisas internacionalmente diminuíram muito, mostrando que a produção nacional tem cada vez menos valor para o progresso da ciência no mundo. A produção de trabalhos científicos tornou-se mera empulhação quantitativa para facilitar a caça às verbas. Compare o Brasil dos anos 50 a 70 com o atual. Tínhamos então uma infinidade de escritores e pensadores de nível mundial. Hoje, "intelectual" é o Jô Soares, é o Luís Fernando Veríssimo, é o Emir Sader. É comparar Atenas com a Baixada Fluminense. No campo moral, até se você usar como referência líderes de esquerda do passado como Carlos Marighella e Luiz Carlos Prestes, não há qualquer menção de que eles tivessem se envolvido com negociatas, com corrupção. Tanto que recentemente houve o episódio de a filha do Prestes negar-se a receber qualquer indenização do Estado, porque para ela isso mancharia a imagem do pai. Até os esquerdistas eram mais decentes naquele tempo. Agora, esse pessoal que está aí, descaradamente, assalta os cofres do Estado. Eles também apelam à violência. Veja as mortes dos prefeitos de Santo André e de Campinas.

Há luz no fim do túnel em outras legendas partidárias?

Os outros partidos são cúmplices. Hoje não se pode falar de esquerda e de direita, o que se tem é um sistema único. Destruíram o quadro partidário do Brasil.

O senhor defende que a polarização entre direita e esquerda ficou no passado?

O Brasil não tem uma direita há muito tempo. Nas últimas eleições presidenciais, os discursos de todos os candidatos eram semelhantes. O Partido Democratas foi inspirado na esquerda americana. Portanto, não pode ser considerado exemplo de partido conservador.

Como o senhor classifica o eleitor brasileiro? Desinformado e provinciano ou consciente, engajado, universalista?

O povo brasileiro é profundamente conservador. Sobretudo no aspecto social. É maciçamente contra o aborto, o feminismo radical, as quotas raciais, o gayzismo organizado. No entanto, não há político que fale em nome do povo: estão todos comprometidos com os lobbies bilionários que protegem esses movimentos.

Então a seu ver, falta hoje no quadro partidário quem traduza ou represente politicamente o pensamento da sociedade?

Não há candidato que defenda os valores em que o povo acredita. Aí fica esse vácuo. E a nossa suposta direita está mais interessada em comer dinheiro do governo. Se só há candidatos de esquerda, então o eleitor vai votar em quem? Durante as eleições, os candidatos camuflam o seu radicalismo, mas depois de eleitos, quando se sentem firmes no poder, tiram a máscara. Na eleição seguinte, o contingente de eleitores novos não sabe o que se passou e confia de novo em candidatos que já enganaram a geração anterior.

Por que os brasileiros votam em pessoas, em lugar de partidos?

O discurso dos partidos não é nítido. Numa eleição na Inglaterra, por exemplo, você tem uma direita e uma esquerda bem definidas. Você sabe quem é quem. Aqui nos Estados Unidos ninguém ignora que a Hillary Clinton é de esquerda, que o Glenn Beck é de direita, tal como todo mundo sabia que Ronald Reagan era de direita e Jimmy Carter era de esquerda. Apesar disso, nas últimas eleições, os americanos parecem que copiaram o Brasil: a postura dos democratas e dos republicanos foi igual, os candidatos ficaram jogando confete um no outro.

Há algum otimismo de sua parte quanto ao futuro do quadro político brasileiro, o senhor acredita em melhoras?

Poder melhorar sempre pode. Mas depende da ação humana. O nível de coragem política diminuiu assustadoramente no Brasil. As novas gerações são muito covardes. Se o Brasil ficar assim mais cinco anos, ele não se levantará mais. Veja o caso do filme que foi lançado sobre a biografia do Lula. Se aqui o governo financiasse um filme sobre a vida do Obama, isso daria em impeachment. No Brasil, a realização do filme do Lula não gerou nenhum protesto organizado. A reação está vindo do povo, que não vai ver o filme no cinema.

No seu modo de ver, como se dará à disputa entre a ministra Dilma Rousseff (PT) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), nessas eleições presidenciais?

Os dois candidatos vão promover um campeonato de esquerdismo. Como o Serra tem alguns aliados conservadores, talvez ele venha com um discurso mais moderado, e sua eleição dê uma folga para que a direita possa se reconstruir, se ainda houver nela alguém interessado mais nisso do que em bajular a esquerda e participar do banquete de verbas públicas.

Para o senhor a ausência de discursos e de programas de direita empobrece a política brasileira?

O que o Brasil tem é um unipartidarismo disfarçado. Fui contra a exclusão da esquerda, durante o regime militar, como hoje sou contra a exclusão da direita. A normalidade do sistema deve estar acima das preferências partidárias, mas a esquerda se colocou acima do sistema, engoliu o Estado e o transformou em instrumento do partido. Note que nem mesmo os militares fizeram isso: no Parlamento, na mídia e nas cátedras universitárias havia mais esquerdistas naquele tempo do que direitistas hoje. Os milicos foram autoritários, mas não totalitários. Hoje estamos caminhando para o totalitarismo perfeito e indolor.

Publicado no Jornal do Brasília, no dia 31 de janeiro de 2010.






Comentários

  1. Augusto Freitas10 fevereiro, 2010

    Solução: inundar um partido político de gente nova, ou fundar um novo partido com gente nova.

    Solução coisa nenhuma! Quem vai liderar esse movimento? Se houver um líder, quantos vão segui-lo? Será o bastante para subjulgar essa vasta patota que compõe os partidos políticos existentes, que de fato formam um único partido? Se isso acontecer, serão revolucionários o bastante para não se corromperem quando elegerem seus membros, tomarem o poder?

    Se, se, se...

    A verdade é que a esmagadora maioria da população ou está feliz com tudo isso, ou simplesmente não quer reagir. Vejo isso muito claramente na Universidade Católica de Brasília. Lá não se discute política, lá não se debatem idéias, lá os grêmios organizam festas e festas, jamais palestras, seminários, congressos.

    Toda vez que se inicia uma conversa sobre política, dão de ombros, ou no máximo dizem: "são todos ladrões mesmo, tudo safado" e ponto final. Aí muda-se de assunto, começa a se falar do próximo concurso público, do próximo edital que será aberto e das benesses do serviço público. Na verdade o interesse dos estudantes é que tudo permaneça exatamente como está, porque logo vão passar naquele concurso que paga um ótimo salário, acima da realidade de mercado, que receberão mensalmente sem produzir NADA! Adimito que por vezes penso em seguir esse caminho, mas tenho um temor enorme de viver infeliz por desempenhar um trabalho que não deveria sequer existir, num órgão que não deveria sequer existir, pelo resto da minha vida - apesar do ótimo salário.

    A situação piora a cada dia e sinceramente não vejo sequer uma faísca que possa acender o fogo da mudança.

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  2. Caríssimos irmãos e irmãs,
    não se desesperem, não se amotinem! Vocês não conhecem a história deste país. Sabem, por exemplo, o que Samuel Wainer concluiu sobre a situação financeira de Juscelino, ao visitá-lo em Paris, quando o ex-presidente lá se encontrava exilado? Se não sabem, não podem falar das "últimas décadas". Sabem, por exemplo, como foi organizada a logística para as obras da Bela-Cap? Se não sabem, é melhor não saberem! Já ouviram falar de um livro chamado "Brasil, colônia de banqueiros? Se não ouviram, deixem esse árduo tema de lado, vão à praia, ao cinema, ao teatro, a vida é boa, desentubem-se, desfundamentalizem-se, desenfanatizem-se, desmessianizem-se! Salvadores da pátria ou Complexo de Édipo? Invistam num pasicanalista! Não há dinheiro mais bem gasto do que com a própria cuca! Vocês estão mal da cuca, porque quem se mete num vespeiro só pode querer se humilhar, desesperar, incucar, atormentar-se, etc. E oh! que lhes falo sem profligações, deviam me pagar por lhes dizer essas amargas palavras!

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  3. Resposta ao anônimo gente boa. Me deixe errar, aprender e quem sabe fazer. Não há como parar essa roda da vida. Eu a escolhi. Mas venha ao debate com informações se as tiver, com as idéias se as tiver, com dados se os tiver, com argumentação se a tiver. Venha sobretudo desarmado e até mesmo do jeito que lhe der na telha e até desprovido de informações e tudo mais que citei. Será muito bem vindo se for simplesmente especulativo, como sou em muitas ocasiões. Quanto ao Samuel Wainer sei pouco sobre ele e menos ainda o que pensava de JK. Eu especulo que o JK foi o principio do golpe encarnado em um presidente nada bossa nova. Trouxe o mensalão para a política. Trouxe a desordem orçamentária. Abriu as portas para interesses paulistas e mineiros assentados na industria automobilistica que apenas concentrou renda e poder e ajudou a empobrecer o resto do país, sobretudo o nordeste. Isso sem falar em Brasilia - equivoco geral. Enfim, gostaria de saber mais e de ser convencido de que minhas especulações são apenas especulações. solte o verbo.

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  4. Há a necessidade de algo novo, um partido novo, que não faça parte nem de A ou de B. Precisamos de possoas com caráter forte, que não queira fazer parte de nenhuma esquerda ou direita, que queira mudar fazendo a coisa certa, que lute por amor ao BRASIL, não ao seu amor própio. Mas pessoas assim é muito raro, ou mesmo não tem!

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  5. Augusto Freitas25 fevereiro, 2010

    Pois é, Diego, quem começa?

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