Por que mais e mais cidades pequenas estão alagando na época das chuvas?

A resposta, em parte, foi dada na questão anterior. Entretanto, o problema está mais relacionado à questão ambiental envolvendo o entorno da cidade. Nas grandes cidades, o crescimento desordenado, inclusive pela ocupação de áreas críticas pela população de baixa renda, faz com que essas grandes cidades fiquem impermeáveis e as águas da chuva não encontrem uma vazão natural como a propiciada pelas áreas verdes. As pequenas cidades infelizmente acompanham essa bagunça urbana. Mas o que a pergunta ressalta é a velocidade com que os cataclismos vêm ocorrendo e até de onde se espera uma vida pacata o caos é a realidade.

De fato, a degradação urbana, além de ser veloz, é ubíqua. Políticos patifes e canalhas estão em todas as partes e exercitam suas maldades leiloando os espaços públicos, alterando-os exclusivamente para atender projetos privados fora do padrão urbanístico consagrado. Não existe, nesse país tão Haiti quanto o próprio, nem mais uma cidadezinha com que se possa sonhar. Para piorar, o mesmo também está acontecendo com o campo. Perdeu, otário, dirão os políticos que assumiram a administração pública em todos os postos, principalmente os de planejamento. Com isso, as fazendas próximas às pequenas cidades se tornam loteamento fácil, sem a preocupação básica sobre questões elementares da geografia local; sem falar na infra-estrutura necessária para atender esses projetos criados pelo oportunismo imobiliário. Tudo pode, quando só a grana pode.

A degradação perpetrada pelos agricultores é fácil de se detectar, bastando observar a forma como eles tratam, em suas propriedades, os rios, os mananciais de água e a mata nativa . É baixíssimo o percentual de agricultores que tratam a terra como um patrimônio duradouro. Enfim, é um processo de desflorestamento e depredação escancarado. Tudo isso é agravado pela monocultura que se espalha inclusive no sudeste do país. O pais de vocação natural para a agricultura tem, pelo artificialismo de uma política voltada para a exportação, exagerado na dosagem do modelo, gerando sempre um produto chave para a exportação a danificar de forma grave o ambiente. Do açúcar, fomos para o café e agora estamos na soja. E não é só isso. Com programas praticados por uma lógica cartelizante, como o pró-álcool, ampliou-se o padrão da monocultura do álcool em estados até como São Paulo. Neste caso, o modelo casa grande & senzala opera a todo vapor, centralizando o programa do álcool e o biodiesel, limitando o seu espraiamento à população em geral e garantindo preço artificial aos grupos que gerem politicamente o programa. De fato, a centralização do programa gera, naturalmente, a falta de competição bem ao gosto desses empresários da casa grande.

O Proálcool foi uma artimanha montada pela elite agrícola paulista e a sua centralização pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) foi fundamental para prover resultados bilionários a esse grupo de empresários gestores da política do álcool e biodiesel. Com recursos fáceis, compram terras em qualquer lugar do país. Naturalmente, começaram pelo próprio interior paulista, afugentando pequenos agricultores que por sua vez empurraram outros pequenos em direção ao limite da fronteira agrícola. O resultado foi o aumento da área plantada com a devastação da floresta e prejuízos ao eco-sistema do Centro-Oeste em direção ao Norte. De fato, para o aumento da produção de biocombustíveis em 35 bilhões de litros até 2020, a área plantada com soja iria de 191 mil km2 , em 2003, para 285 mil km2 em 2020. A de cama iria de 55 mil km2 para 90 mil km2. Tudo isso seria obtido pela substituição de pastagem para gado o que demandaria cerca de 3 milhões de km2 que seria em parte subtraída do cerrado e da Amazônia (ver Indirect land-use changes can overcome carbon savings from biofuels in Brazil - David M. Lapola e outros - proceeding of the national Academic Sciences, fev 2010).

Esse modelo abarca também dinâmicas específicas, independentes de outros projetos distorcidos, como a da soja, com a mesma lógica de privilégios. Já tivemos o rei da soja – maganão que trata de aproveitar o resto de sua vida com jovens bonitas e ordinárias da paulicéia - e assim aparecerão outros empresários fictícios. Agora a história é mais complexa, porque grandes empresas multinacionais, sem que isso por si só seja um problema, dominam o cenário da soja.

Em resumo, os grandes projetos não nascem por considerações de geografia ou econômicas. Mas sim, por considerações políticas que sugam recursos de um Estado que não mais gere seu orçamento, criando incentivos viesados com alto custo social. Quanto ao orçamento público, ele está todo fatiado. Tudo tem dono. Como deveria ser. O problema é que estes são poucos. Para piorar, todos os políticos querem resolver problemas econômicos e não sociais. Eles se acham mais empresários que os próprios, abrindo-se as portas da corrupção em nome de um desenvolvimento que nunca vimos e nem veremos. Assim, as cidades são torpedeadas por projetos sem referência e o deslocamento de massa humana, atrás de sobras e migalhas, é o retrato de nossas cidades ícones que concentram a renda,como São Paulo, Rio e Brasília. Nenhuma das chamadas cidades pequenas tem mais a aparência natural ou interiorana, porque ao inchaço urbano se junta a corrupção pedestre dos políticos que alteram os planos básicos de urbanização, na ânsia empresarial do loteamento barato que é corroborado por uma política habitacional de crédito fácil aos empreiteiros e mutuários. Mas até nisso, os mais fracos pagam o pato. O sistema financeiro carrega a bomba relógio da indexação que hoje está sob controle, sem garantias de que assim fique por 10 ou 20 anos. Claro, na contabilidade da desgraça urbana de pequenas cidades temos que considerar, como é o caso óbvio do Paraná, o desflorestamento escancarado, pois ainda não vi a contabilidade ambiental dessa prática estúpida patrocinada pelos governos “desenvolvimentistas”, fora as enchentes e alagamentos.

Para fechar o cerco da depredação geral, temos o envolvimento das chamadas monoculturas em grandes faixas regionais. Enfim, tanto no campo, quanto na cidade, a regra é um crescimento sem ordem mínima, com um total desrespeito às leis básicas da natureza.

A lógica desse processo de estímulos equivocados você pode encontrar , por exemplo, em Hayek, que há mais de 70 anos vem enfatizando os efeitos maléficos de políticas artificiais. Ele destaca que o fator que desencadeará o desequilíbrio seria a adoção de políticas creditícias que se originam sem um aumento prévio da poupança voluntária, com um aumento nas inversões dos setores beneficiados por essa política folgada. A produção dessas atividades protegidas terão que se fazer cumprir com o deslocamento de recursos de outros setores ou atividades. Como não houve renúncia ao consumo, a pressão desses setores protegidos acabará por forçar um excesso de demanda de bens de consumo corrente que acabará de uma forma ou outra anulando o efeito expansivo das inversões realizadas pelo setor protegido.

Há mais a ser considerado. Nesse processo de proteção exagerada, o verdadeiro empresário desaparece, pois as restrições de custos são rompidas artificialmente. Não é preciso investir em inovação. Basta importar novas máquinas. Não é preciso investir em capital humano. Novas máquinas exigirão cada vez mais menos trabalhadores. Se a tecnologia importada demandar mão-de-obra especializada, importa-se também. É mais barato.

O resultado desse modelo pode ser avaliado também pela degradação de rios e áreas que ficarão condenadas à desertificação ou de difícil recuperação. Claro, toda essa bagunça só é possível porque o nosso ordenamento jurídico foi pro beleléu – fruto da ditadura militar de 1964 e do centrão que se perpetuou no poder, pela ocupação de todos os partidos. Assim o planejamento básico foi para as cucuias – este planejamento não tem nada que ver com o chamado planejamento econômico.

Para finalizar, como o comentário está basicamente ancorado numa inferência lógica, o respaldo dos dados para confirmar ou negá-la só poderá vir com o registro de especialistas nesta área, até porque a extensão geográfica do Brasil não é desprezível. Estejam à vontade.




Comentários

  1. Muito bom post!!!!

    Adolfo

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  2. Ótimo post.

    Parabéns!!!

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  3. José Kleber disse...

    De uns tempos para cá, um dos propósitos da elite brasileira começou a ficar mais claro. Esse é incontestavelmente herdado (geneticamente?) da aristocracia canavieira, cafeeira, algodoeira... que não há muito tempo habitou esta fértil terra, que quando chove, tudo que se planta dá. Transformar o Brasil em uma grande lavoura de cana, soja e milho. Este é o objetivo.

    Ótimo post!!!

    José kleber

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