Como os economistas fazem seus trabalhos: Um exemplo sobre Urbanização

Uma das características importantes na metodologia dos economistas pesquisadores é usar um modelo testável (se é que isso é possível em economia já que os próprios dados são invenções humanas e não da natureza) onde se possa endereçar uma questão por vez. O paradigma usual é o marginalista ou neoclássico, sem esquecer o que o Douglass North fala. Algumas observações são importantes. Quem domina a matemática tem vantagem comparativa e isso é válido para qualquer área. Em segundo lugar, em economia, sem um modelo você não anda. Se você não consegue enquadrá-lo matematicamente você anda com muita dificuldade, como bem sabia Friedman (que sabia matemática, mas achava que nem tanto), como bem sabia Hayek e tantos outros geniais. Mas existe um ditado que é muito válido: DEUS NÃO DÁ ASAS A COBRA. Ou seja, há espaço para todos, como demonstraram os geniais citados.

Eu vou dar um exemplo didático, já reconhecendo que não sou um bom matemático. Um dos problemas que mais me inquieta atualmente é o da depredação das cidades brasileiras, porque qualquer um, com um mínimo de observação crítica, percebe que a favelização tem que refletir o modelo político e econômico que se fundamenta na quebra recorrente de todas regras, instituições ou leis. Isso se dá, por aqui, em todos os locais e a todo instante para atender interesses privados. Para o caso que me interessa, a favelizaçao das cidades brasileiras, basta conferir que os planos diretores das grandes cidades (Rio, São Paulo, BH, etc.) foram mutilados, em festim de mutretas parlamentares. Como o modelo anda em marcha forçada, a continuação dessa desordem é certa (a desordem está encontrando seu equilíbrio estacionário) e rápida. Portanto, um padrão urbanístico, imposto pela força da lei, deveria ser interessante para evitar a dilapidação geral. O nó górdio estaria no processo de mudança legal que está dominado pela corja de políticos que criamos. Essa seria a contribuição dos economistas para a turma urbanista que tenta resistir à pressão dos empreiteiros.

A questão, neste contexto, que gostaria de endereçar seria a seguinte: existe um tamanho ótimo para os componentes da cidade? Este ótimo para a cidade tem que valer para uma dada região da cidade, para o bairro até chegarmos na menor unidade possível, no caso de Brasília, cidade onde moro, uma quadra. A idéia básica é de que, dada uma estrutura urbana e o padrão urbano definido, você não deve permitir que esse padrão seja modificado e a teoria forneceria um padrão típico. Por que devemos evitar a deturpação do espaço urbano ao bel-prazer dos espertos? Porque certamente levaria a definição de cubículos a torto e a direito e a favelização geral. Neste esquema de vampiragem da cidade muitos perderiam e poucos, os que certamente vivem em Paris com o fruto de seu trabalho de pilhagem, ganharão. Se houver a desordem ou invasões como vemos o tempo todo no Brasil, haverá prejuízos para quem tem imóvel na região invadida e nas proximidades, porque aquele proprietário local perderia em visão da cidade ou espaço público que teria que ser compartilhado com mais pessoas e para estes mais distantes da nova construção pelo custo de transporte que aumentaria em função de congestionamentos. Haveria,claro ,ainda, o beneficio natural para quem pode comprar o imóvel. Então há um limite para a mudança desse padrão. No problema endereçado temos os ingredientes econômicos básicos: custo e beneficio e, portanto, estamos aptos a prosseguir com a modelagem.

O fato importante é o seguinte: o resultado que o modelo que alguém possa desenvolver a partir desse problema não poderia contradizer o que funciona bem na prática, como o padrão das cidades européias, por exemplo. BOM SENSO É FUNDAMENTAL. Lembro ainda que o padrão americano, como NY retrata um fenômeno interessante: NY é uma ilha o que poderia justificar arranha-céus. O padrão que observamos para as boas cidades é um limite razoável para a altura dos prédios, de forma que as cidades são induzidas a crescer horizontalmente. Se o problema é bem equacionado, a sua utilidade prática é óbvia: definiríamos as dimensões de altura e largura para cada segmento da cidade modelo.Creio eu que uma relação matemática do tipo regra de ouro deve ser o resultado.

Sem matemática você dificilmente resolveria esse problema. Eu ainda não consegui resolvê-lo. Se você souber matemática, mãos à obra. Quanto ao endereçamento do problema, não sei se o enderecei bem. Se for assim, que o façam melhor. Só lhe adianto uma coisa fundamental. Não foi a matemática que me fez pensar como economista no endereçamento da questão. Pra terminar, lembro: economia urbana não é a minha especialização e nunca tive uma aula sobre o assunto. Estou apenas me enfronhando no assunto e comecei pelo interessante livro The Economy of Cities de Jane Jacobs.



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