A pior ditadura: a do parlamento!

Começaram a comemorar os 25 anos da democracia tupiniquim. Não farei parte da festa. Recuso-me, em meu pandectismo sincrético, a exaltar eventos festivos em homenagem ao que não é certo e muito menos desejado. Lembrando-me das eleições que guindaram a turba corrompida à Legislatura que forjou a Constituição de 1988, faço minha purgativa análise. O poder econômico, depois do uso abusivo e profilático da milicada de Quintino, procedeu, então, ao marafoanismo ubíquo, de Norte a Sul, na política e nos negócios públicos. Tinham cartilha e listas. Eram os patifes de hoje que dominam a política a constar das listas explícitas, com nomes em caixa alta, distribuídas pelos coronéis dos partidos aos seus cabos e sargentos eleitorais que as impunham ao povo ignóbil, como sói acontecer e ser em republiquetas latinas, como opção única para as eleições parlamentares federais que precederam à Constituinte. Eles, vitoriosos em eleição forjada nas barbas da justiça, dominaram a Constituinte. Formaram o Centrão. Conseguiram enterrar os últimos políticos sérios e os que hoje restam penam, qual zumbi, nos corredores do Congresso Nacional.

A farsa começou com o pluripartidarismo que afogou as lideranças construídas na legalidade e ao sol da luz do dia. Foram-se Lysaneas Maciel, Alencar Furtado, Chico Pinto, Oswaldo Lima Filho, João Cunha, Márcio Santilli e tantos outros que até colocaram seu prestígio a serviço da conciliação, como Fernando Lyra, Marcondes Gadelha e Paes de Andrade. Estavam no covil da anistia os messiânicos e líderes sepultados pelo tempo, desabrochando em flor-cancro. Brizola e Arraes são os ícones dessa diáspora confiada ao acaso e ressuscitada num compadrio excludente. A herança desses ícones soturnos: o PDT e o PSB, com coronéis de velhos tempos em seu comando, criados cuidadosamente à margem da política sadia. Veio também o engodo sindicalista: lulla. Veio o engodo da esquerda: Fernando Henrique. Para piorar, continuam culpando a direita, como se Jânio, Lacerda e toda a UDN não fossem a representação dessa falsa direita manjada. Como se Delfim Neto não fosse igual às Conceições Tavares ou aos Furtados.

A desordem se consolidou na Constituição, sob a denúncia escancarada e inócua de que o Centrão venceu. Criaram uma constituição cambiante e sarabulhenta e por isso mesmo mutilada em sua essência. Ao invés da simplicidade, a complexidade. Ao invés da clareza, a complexidade. Ao invés da moralidade, a imoralidade. A medida provisória foi o mecanismo da maldade criado pela turma golpista, em manutenção do arbítrio, em uso cotidiano e abusivo e recursivo de sua força abusiva. Existem mecanismos mais intricados, como o colégio de líderes que silencia o Congresso da algazarra do contraditório. As frentes parlamentares não podem frutificar, dado o controle total dos partidos pelo poder econômico. Os mecanismos mais sutis, como o regimento interno, estão se desconfigurando aos poucos. Os homens de bens que, pelo acaso ou sonho solitário, vestem a toga parlamentar não encontram espaço para a conspiração e vivem perambulando pelo congresso à cata da porta de saída. É tudo tão às claras que bandidos se travestem do que for para por o povo em corner.

Vivemos na ditadura do parlamento. Querendo o teste da minha hipótese, perguntem aos políticos que sobreviveram à corrupção generalizada, como Alencar Furtado, se gostariam de voltar ao Parlamento. A resposta, adianto. Não! A razão é simples. Não querem voltar ao outrora templo da resistência, porque agora sequer sabem identificar os Judas da política rasa; quando uma moeda rola as escadas, ela some mesmo antes de chegar ao chão. Por isso, não querem macular sua história parlamentar. Não vivemos numa democracia. Vivemos a ditadura do parlamento. Ela é pior do que a ditadura militar. Naquela, a militar, sabíamos onde morava e residia o perigo. Nesta, dos políticos, o inimigo dorme em nossa cama.



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