Por que a taxa de poupança tem que ser tão alta no Brasil?

O post anterior traz a resposta: incentivo viesado aos industriais e empresários brasileiros participantes do núcleo duro e canceroso do poder. Como sabemos, por aqui, não geramos conhecimento, patentes e muito menos produtos ou serviços que prestem. Às vezes, temos a impressão de que estamos no primeiro mundo, mesmo que não saibamos exatamente o teor do primeiro mundo. A nossa pauta de importação mostra bem isso: muitas matérias-primas e muitos produtos de multinacionais que operam aqui, fruto de uma política de substituição de importação em que o cachorro morde o próprio rabo, mas quem sente dor é o povo, aquele que o cachorro brabo não gosta. Se você quiser importar um fogão italiano, esqueça, pois as tarifas são proibitivas. O engraçado é que tem economista apresentando em livro texto tabelas sobre tarifas por setor, adjetivadas como efetivas, na crença de que um dia fizemos uma abertura comercial pra valer, em que nenhum desses setores apresenta uma taxa de proteção tarifária maior do que 20% (um desvio-padrão de cerca de 15% o que, em caso extremo, nos daria uma tarifa máxima de 35%). Pergunta trivial ao economista cheio de prosa: você já importou alguma coisa na sua vida?* Se um dia o fizer, como qualquer brasileiro sem privilégios, verá que qualquer quinquilharia comprada nas estranjas simplesmente tem o preço duplicado no balcão dos correios. Isso é o que se chama testar minimamente a teoria!!!!

O que quero dizer é que as empresas “brasileiras” contam com todo tipo de regalia para gerarem produtos “novos”. Como o sucateamento é rápido, há necessidade imperiosa de se remodelar todo o quadro industrial de tempos em tempos. Não é por outra razão que a corrupção tem que campear, pois esse é um esquema completamente fora do mercado. Se colocarmos os investimentos públicos, corrompido do começo ao fim, a conta é estrambólica. Tudo isso está contabilizado na estatística do investimento. Uma taxa de 20 a 25% como fração do PIB é o que gera essa brincadeira.Nos países civilizados, a taxa é bem diferente.

Não devemos esquecer que o patrocinador desse modelo que exagera na dose do investimento foram os militares golpistas e muito corruptos, criando empresários fictícios da noite para o dia, exatamente como JK fez num ambiente democrático. A diferença é que os milicos levaram ao paroxismo o seu modelo estatizante, criando uma economia de mercado carcomida da cabeça aos pés.

Essa taxa de poupança forçada se explicita através de diversos mecanismos, como a poupança, o FGTS e demais fundos inventados pela ditadura militar e perpetuados pela democracia de araque do Sr. Ulisses, ou melhor, do seu comparsa Sarney, bolada pela dupla FHC e Jobim. Isso sem contar com os mecanismos manjados do BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Banco Central e todos os Estados que se endividam, orquestrados pelo governo federal, que, ainda, promovem isenções tributárias às grandes empresas em desenvolvimento flagelador dos municípios. Claro, tem o orçamento público, engenhoca patrocinadora de todo o tipo de desperdício e ineficiência que alimenta uma cambada de corruptos e corruptores.

Essa é a economia do desperdício como bem registram Marco Martins e Roberto Ellery.**

* Comércio Exterior: interesses do Brasil, Marcelo de Paiva Abreu, editora Campus 2007.
**Martins, Regimes Constitucionais Crescimento e estagnação e Ellery e outros The Brazilian Depression in the 1980s and the 1990s.



Comentários

  1. Parabéns Professor!!!

    Texto de enorme relevancia. Creio que a solução para os males no país seja uma ABERTURA COMERCIAL DE VERDADE!!!

    "Pergunta trivial ao economista cheio de prosa: você já importou alguma coisa na sua vida?* Se um dia o fizer, como qualquer brasileiro sem privilégios, verá que qualquer quinquilharia comprada nas estranjas simplesmente tem o preço duplicado no balcão dos correios. Isso é o que se chama testar minimamente a teoria!!!!"

    E outra: Faça uma pesquisa do que existe na casa de um industrial e verá que o índice de UTENSÍLIOS IMPORTADOS é bem alto. Ou seja, vendem as quinquilharias nacionais subsidiadas/superfaturadas e adquirem produtos de alta qualidade fora.

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