A Desindustrialização – o que foi sem nunca ter sido.

Nada como fazer uma pergunta errada, pois dificulta o que já é difícil. Muitos andam a afirmar que o câmbio contribuiu para a desindustrialização brasileira. Para completar a distonia cerebral, dizem alguns que o objetivo de política econômica está em se buscar alternativas, com subsídios ou créditos baratos, para quem não consegue se inserir no mundo competitivo, quer no contexto global ou local. Isso tudo já induz pena e consideração de ajuda, tanto mais quando, em suposição trespassada, empregos em borbotões poderiam estar em jogo. O que posso dizer do que acima se pinta? Simplesmente que tudo está errado.

Em primeiro lugar, mesmo que houvesse uma desindustrialização à vista, nada me estimularia para que metessem a mão no meu bolso para arrancar mais impostos que é, no final de tudo, a fonte providencial para caridades. Tanto mais penso assim, porque sei que estou muito envolvido diretamente: se o projeto industrial natimorto logo sucumbir, muitos outros poderão ocorrer em substituição ou em melhoria ajustada, fazendo estourar com mais intensidade o bueiro sobre minha renda. Por isso mesmo digo: não topo o pacto da indolência em que ganho pouco e ainda fico preso a um processo de extorsão sem fim. A minha liberdade só poderia vir com o sacrifício dessa classe indolente que se alimenta das benesses constantes do Estado – já que os governos que se sucedem há décadas se enroscam sempre nessa mesma prática de extorquir o povo.

Em segundo lugar, a desindustrialização poderia vir, se fosse o caso, de diversas fontes. Por que o câmbio seria o vilão? Poucos sabem ou querem saber que, num sistema de câmbio flutuante, se o mesmo se valoriza, há de se ter efeitos colaterais importantes: a queda  generalizada dos preços internos. O quanto isso seria efetivo, dependeria de uma série de considerações. Além disso, o câmbio poderia valorizar e o preço para os exportadores poderiam ainda estar subindo. Em resumo, o câmbio teria uma série de seqüência de eventos que poderiam atenuar sensivelmente subidas ou descidas no valor da moeda interna vis-à-vis moeda externa. No caso brasileiro, existem mecanismos que dificultam os ajustes às mudanças cambiais, notadamente a indexação que impede quedas maiores nos preços internos.

Em terceiro lugar e mais importante: quem disse que no Brasil existe um processo de industrialização? O que temos é um processo cartorial de montagem de produtos sofisticados e reserva de mercado para produtos de baixa exigência inovativa. Claro, os dados, o senhor das afirmações especulativas, deveriam aqui estar presente. Então como sei disso, se não os apresento de imediato? Simplesmente usando os modelos que tenho em mãos e buscando variáveis mais palatáveis ou simples de se identificar. Então vamos ao modelo: É o de Hayek e o dos austríacos.

O conceito importante para desvendar nossa industrialização de meia pataca está no esquema hayekiano do processo produtivo, em que se associa o período de produção ao investimento. O que esse esquema prevê é que o processo de produção tornar-se-ia de maior duração quanto maior a complexidade produtiva. As inovações deslocariam continuamente esse período de produção, com aumento dos lucros e salários. Do ponto de vista estático, o processo se repetiria e esses deslocamentos já teriam engendrado os efeitos dinâmicos. Neste contexto estático, um período de produção estaria associado com a taxa de juros. Quanto maior a taxa de juros, menor seria o período de produção e de menor intensidade inventiva seria o processo produtivo, ou seja, estar-se-ia produzindo coisas simples ou até mesmo vagabundas. Além disso, quanto maior os juros, menores os salários. Em resumo, poderíamos ter um círculo vicioso: taxa de juros elevadas, períodos de produção curtos, produtos baratos e salários em queda. Aparentemente teríamos uma taxa de investimento baixa, mas contabilmente ela poderia se apresentar elevada. Como?

É o caso da política de pilhagem que se aplica recorrentemente ao povo brasileiro. Usam de todos os artifícios para facilitar a vida dos empresários: "câmbio barato", crédito fácil, subsídios ou proteção tarifária. Agora deram pra inventar um esquema cartorial de compras envolvendo empresas públicas. O exemplo do envolvimento esdrúxulo da Petrobrás com os estaleiros reinventados pelo BNDES é a caricatura perfeita desse processo regressivo de industrialização de meia tigela. De fato, essa indústria estava, no Brasil, há alguns anos atrás,completamente sucateada. Nos últimos anos, os fundos públicos (fundo da marinha mercante) e o BNDES injetaram recursos o bastante para se importar toda a fábrica, inclusive sua montagem. Agora, os políticos empresários dizem que temos indústria naval competitiva. Fora as multinacionais que têm estratégias que não se pode alcançá-las com uniformidade, a maioria das grandes empresas andam no mesmo compasso da nossa indústria naval. Este empacotamento de indústrias não gera aumento do processo produtivo, porque a parte complexa não nos concerne. Assim, o emprego não melhora em termos de qualidade. Pode até crescer; mas extensivamente, sem complexidade e alongamento efetivo no processo produtivo.

São esquemas de sucção de recursos da sociedade que acaba por deixar o governo em contabilidade agonizante: precariedade dos serviços públicos e déficits nominais impagáveis. Tudo isso, de uma forma ou outra, acaba por determinar uma taxa de juros sistêmica elevada. Quando se faz por uma política monetária deliberada, as pontas da colcha de retalhos conseguem se unir: câmbio, moeda, crédito e dívida andam juntos.

Então, temos um apoio incessante a uma deslavada acumulação primitiva às avessas. Cria-se um empresário agiota, em proteção definitiva a sua riqueza. O que isso pode contribuir para a inovação? Simplesmente nada, porque estes empresários são, por sua natureza predadora, gigolôs. Quando suas máquinas se depreciam, quer por desgaste físico, quer por obsolescência tecnológica , algum esquema de favorecimento é acionado. Politicamente seria mais palatável se aparecesse um culpado sem cara ou rosto, tal qual o câmbio. Do ponto de vista tecnológico o que acontece? Simplesmente nada. Tudo é feito no exterior. O engraçado é que nunca demos conta de que o investimento direto dos estrangeiros sempre se deu pela absoluta incapacidade de gerarmos indústrias complexas. Com Juscelino, em sua trajetória retrógada montada pelo Plano de Metas, abriu-se definitivamente as portas para as multinacionais descompromissadas com a inovação tecnológica local e o compadrio paulista, em cartórios predatórios de oportunidades restritas. O fato é que não conseguimos gerar nossas marcas nos setores industriais típicos (automóveis, eletrônicos e outros).

Quais as implicações desse processo aloprado? Alarmantes. Em primeiro lugar, há uma supressão de etapas produtivas sem fim, já que o processo produtivo está amparado em compras de máquinas fora do sistema. O grau dessa compressão de produção interna de máquinas depende de uma série de fatores e pode ser contornada por uma outra série de eventos. O fato concreto é que uma seqüência de importações de máquinas terá que se efetivar, dando o formato de simples montadores aos nossos pseudo-industriais, ao invés de inventores e construtores. Em segundo, não existe um processo de criação interna, porque a essência do processo inovativo só pode vingar mediante um cenário de competição e esforço legítimo de poupança. Nenhum e nem outro elemento estão presentes na economia brasileira. Isso não quer dizer que o cidadão comum não poupe ou trabalhe em demasia. Pelo contrário. Trabalho e esforço há em excesso. Infelizmente em vão, porque os tentáculos da pilhagem estão em todos os contratos sociais ou instituições. Veja o FGTS. É uma sucção de recursos dos trabalhadores que pára sempre nas mesmas mãos privilegiadas, com um descompasso na taxa de remuneração e aplicação dos fundos pertencentes a esse programa que se expressa de diversas formas, como a indexação das prestações dos mutuários que invariavelmente o faz pagar em dobro por sua moradia. Veja ainda um outro exemplo de poupança individual exagerada: a contribuição para aposentadoria. Uns pagam muito e recebem pouco; outros pagam pouco e recebem muito. Os que pagam muito e recebem pouco são muitos. Os que pagam pouco e recebem muito são poucos.

Mas o pior não está nesses tentáculos constitucionais ou legais que levam à exaustão o pobre do poupador. O pior está na essência dessa industrialização vazia, ancorada em favores fiscais ou monetários que representam uma pilhagem sem fim. De fato, quando não se inova e não se participa do processo produtivo em etapas complexas, pouco de valor agregado é gerado internamente. Isso tem que resvalar para o tipo de trabalhador que essa indústria importada demandará. Serão trabalhadores em que a qualificação complexa restringer-se-á , quando muito, à manutenção e a leitura de manuais. Os trabalhos de menor qualificação envolveriam treinamento de apertadores de botão. Teremos máquinas sofisticadas que dispensarão trabalhos sofisticados. A conseqüência natural desse processo invertido de industrialização não poderia ser outro: redução salarial em todos os segmentos. Esse achatamento macro dos salários vai numa dinâmica viesada: dos qualificados aos não qualificados. Os que saírem da pobreza, se encontrarão com os que descenderão em escala social. Jamais, dentro dessa lógica de industrialização importada, teremos um crescimento da classe média e uma brecha para a saída da pobreza. Haverá apenas uma inversão no bolo da classe média: pobres e classe média ficarão iguais. Muitos poderão melhorar e uma parcela menor poderá perder em renda e todos perderão em horizonte melhor.

Qual seria o retrato dessa sociedade? A simplicidade em meio a ostentação e produtos complexos que poderiam ser objeto de consumo em escala significativa, mas com a marca do barato e sem qualidade. O moderno e o complexo estarão sempre distantes das vitrines dos pedestres consumidores brasileiros. Quando estiverem disponíveis em vitrines, por importação privilegiada, os consumidores é que estarão distantes.

Assim, apesar de muitos não entenderem, encerro essa introdução temática: é a falta de mercado que nos cria problemas. Aqui, neste país perdido, que tanto se fala em neoliberalismo, pouco se sabe o que é realmente um mercado competitivo. O Estado não precisa ser pequeno para nos desenredar dessa armadilha herdada. Basta enxotar os morcegos diurnos para que avistemos os ratos ao sol do dia e, então, se verdadeiramente quisermos, poderemos enfrentar à luz do dia nossos problemas.


Comentários

  1. Excelente artigo, professor. Realmente vivemos em uma republiqueta que importa os insumos e aprende a ler manuais. Se pegar por exemplo o mercado de TI veremos que os estudantes de engenharia, ciência e sistema da computação aprendem linguagens produzidas nos países desenvolvidos. As ferramentas utilizadas são de empresas americanas, holandesas, etc. Realmente não descobriremos o progresso se achatamos mais ainda a riqueza da classe média valorizando a pobreza de uma população pobre.

    ResponderExcluir
  2. ELEIÇÕES 2010
    PSDB

    E ninguém cala esse chororo
    Chora o Serrinha,
    Chora o Rede Globo,
    Chora os tucanos...

    E ninguém cala esse chororo
    Chora o Serrinha,
    Chora o Rede Globo,
    Chora os tucanos...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas