JANE JACOBS: UMA LEGENDA (tradução de Mauro Almada) - registrando o que é muito bom

JANE JACOBS: UMA LEGENDA - Autor: Warren Gerard-Data: 25/05/2006
Publicado originalmente no Toronto Star, edição de 25 de abril de 2006, sob o título "Jane Jacobs, 89: urban legend" - Tradução: Mauro Almada

Jane Jacobs era uma intelectual, escritora, analista social [analyst], ativista, economista autodidata, livre-pensadora da Ética e da Moral [ethicist and moral thinker], e uma corajosa crítica, de inflexível autoridade. Lady Jacobs faleceu na manhã de 25 de abril, na cidade de Toronto, após completar 89 anos.

Jacobs era uma norte-americana que optou por se tornar canadense, uma líder das lutas pela preservação das comunidades urbanas [neighbourhoods] e pela eliminação [kill] das vias expressas, primeiro em Nova Iorque e depois em Toronto.Seu empenho em barrar a via expressa projetada para ligar a Manhattan Bridge, em East Manhattan, ao túnel Holland, na extremidade oeste, contribuiu para a salvação do Soho, de Chinatown, e da parte oeste de Greenwich Village. Em Toronto, sua liderança galvanizou o movimento que impediu a implantação da Spadina Expressway. Esta via teria ceifado uma faixa de tecido urbano do movimentado [lively] bairro de Annex, assim como partes do Centro da cidade.

Seu primeiro livro, The Death and Life of Great American Cities, publicado em 1961, tornou-se um catecismo [bible] para as lideranças comunitárias [neighbourhood organizers] e para o que ela chamou de cidadãos comuns ["foot people"]. Com ele, se inaugurou a luta [It made the case] contra a cultura utópica do 'planejamento' [utopian planning culture], hegemônica à época, e expressa através dos grandes empreendimentos residenciais em altura, das vias expressas cortando o Centro das cidades, do arrasamento de áreas deterioradas [slum clearances] e do abandono dos Centros tradicionais das cidades [desolate downtowns].

Jane Jacobs acreditava que as atividades residenciais e comerciais deveriam compartilhar os mesmos espaços; que os bairros mais seguros eram aqueles em que a vida urbana fervilhava [teem with life]; que as ruas curtas e sinuosas eram preferíveis às longas e retas; que a habitação de baixa altura era melhor que as torres impessoais; e que uma 'vizinhança' [neighborhood] nada mais era que um bairro ou setor urbano onde as pessoas conversavam entre si. Ela gostava da pequena escala. Mas nem todo mundo concordava com essas teses. Lewis Mumford, seu arqui-crítico [arch-critic] – no duplo sentido do prefixo 'arqui': 'super-crítico' e 'crítico arquitetônico' –, apelidou suas proposições de "acidentalidades não planejadas e de pernas para o ar" [higgledy-piggledy unplanned casualness].

Jane Jacobs era vista, por muitos de seus partidários [supporters] – equivocadamente – como uma 'esquerdista' [left-wing]. Mas não era bem assim. Suas posições aceitavam a existência do mercado [embraced the marketplace], apoiavam a privatização dos serviços públicos de infra-estrutura [utilities], desaprovavam os subsídios, e abominavam a intromissão dos governos, fosse ela pequena ou grande. Mas Jacobs também não era de 'direita' [right-wing]. Na verdade, ela não ligava para ideologias. "Acho que as ideologias, não importa quais, são uma grande aflição [one of the greatest affliction], porque elas nos cegam e não nos permitem enxergar o que está ocorrendo e o que está sendo feito por aí", declarou. E esclarece: "sou meio atéia [I'm kind of an atheist], já que ser de esquerda ou de direita é o tipo de coisa que não faz sentido para mim". Acho que as ideologias nos cegam [ideologies are blinders]".

Jacobs desdenhava [scorned] do nacionalismo e se perguntava [argued], em seu livro The Question of Separatism, de 1980, se não seria melhor que a província de Quebec se separasse do Canadá. Mais tarde, defendeu a idéia de que algumas cidades deveriam se tornar unidades independentes, econômica e politicamente.

Sua 'visão' [view] das cidades abalava algumas percepções [perceptions] tradicionais [long-held]. Em seu livro The Economy of Cities, de 1969, desafiou o dogma da primazia da Agricultura e criou um debate que correlacionava crescimento econômico com estagnação das cidades. "A teoria corrente em muitas disciplinas – Economia, História, Antropologia – sustenta que as cidades são construídas sobre uma base econômica rural ou agrária", escreveu. "Se minhas observações e raciocínio estão corretos, o inverso é que é o verdadeiro: ou seja, a economia rural, inclusive a Agricultura, é que se sustentam sobre [are directly built upon] a economia urbana e o trabalho desenvolvido nas cidades."

"Para mim" – observa John Sewell, um ex-Prefeito de Toronto – "a influência mais significativa de Jane Jacobs se deu com a noção de que as cidades é que dirigem [drive] a economia, e não os governos, estaduais ou federal. Ela foi a pensadora que propagou esta idéia, e acho que estava certa". Também Robert Lucas, da Universidade de Chicago – Prêmio Nobel de Economia em 1995 – apreciava as teorias de Mrs. Jacobs. "Gosto do estilo dela", afirmou. "Aquela atitude de, diante dos fatos, dar um passo atrás e se perguntar que tipo de mecanismo econômico produziu certa idéia, é muito natural entre os economistas. E penso que todos nós consideramos seu trabalho bastante 'apropriado' [congenial], exatamente por esta razão''.

Jane Jacobs não era uma especialista em qualquer disciplina, nem dispunha de muitas 'credenciais' estabelecidas [established credentials]. Sua educação formal e acadêmica era limitada. No entanto, pertencia àquela maravilhosa escola de 'amadores', formada por muitos escritores americanos que eram observadores, críticos e pensadores originais, tais como Paul Goodman, William H. Whyte, Rachel Carson, Betty Friedan and Ralph Nader.

Jacobs nasceu em 4 de maio de 1916 e cresceu em Scranton, uma comunidade situada no centro dos campos carboníferos da Pennsylvania. É bem possível que tenha sido Scranton a responsável pelo interesse que Jacobs desenvolveu, ao longo de toda a vida, para com as cidades e o modo como funcionam. Scranton lhe forneceu "uma amostra de como uma cidade se torna estagnada [stagnates] e decadente [declines], e em parte explica o porquê desse assunto tanto me interessar: afinal, cresci numa comunidade onde isto de fato aconteceu", observa.

"Acho que tive muita sorte em ter contado com alguns professores maravilhosos, na 1ª e na 2ª série do curso primário. Eles me ensinaram quase tudo que aprendi na escola. No entanto, a partir da 3ª série – desculpem-me dizer –, tive professores agradáveis, mas nitidamente tolos [dopes]. Fui criada numa família aonde as mulheres, a várias gerações, vinham trabalhando, em sua maioria, como professoras. Tive até uma tia-avó que se mandou para o Alasca para dar aulas para os índios. Minha mãe trabalhou como professora e, mais tarde, como enfermeira, tornando-se a supervisora do turno da noite de um importante hospital de Filadélfia", nos conta Jacobs. "Eram ocupações tradicionalmente reservadas às mulheres, com certeza. Mas cresci acreditando que as mulheres podiam realizar coisas. Na minha família, fui criada de um modo muito parecido ao aplicado com meus irmãos".

Ao terminar o curso secundário, Jacobs fez um curso de Estenografia, mas só conseguiu um emprego, não remunerado, como repórter do jornalzinho da cidade. Mudou-se então para Nova Iorque, nos anos da Grande Depressão econômica, onde assinou alguns artigos para a revista Vogue. Aos 22 anos, foi estudar na Universidade de Columbia, mas ali não permaneceu muito tempo e, depois de dois anos, voltou a escrever.

Jacobs nunca se filiou a qualquer instituição. David Crombie, um ex-Prefeito de Toronto, a descreve como uma "rejeitada por Harvard [Harvard refusenik]". Na verdade, segundo Crombie, lhe foram oferecidos mais de 30 títulos honorários [honourary degrees] mas ela recusou-os todos. "Não era do seu estilo", observa Crombie. "Ela não enxergava isso como sua 'praia' [she didn't see that as what she was about]".

J. J. casou-se com Robert Jacobs em 1944. Ele era arquiteto e foi seu trabalho que lhe despertou a atenção para a Architectural Forum, uma revista mensal onde, após um curto período, se tornou editora senior. A relação entre eles foi intensa e o casamento feliz. Durou 52 anos, até a morte de Robert – vitimado por um câncer de pulmão –, no Hospital Princess Margaret, que ele próprio projetara.

Em 1958, após escrever sobre os Centros das cidades para a revista Fortune, Jacobs recebeu uma bolsa da Fundação Rockefeller para escrever sobre temas urbanos. Paralelamente, e à mesma época, criava casos [havoc] com empreendedores, planejadores e políticos que queriam implantar uma via expressa cortando a cidade de Nova Iorque. Jason Epstein, por longos anos seu editor na Random House, e co-fundador do New York Review of Books, relembra que a via expressa proposta nada tinha a ver com o movimento do tráfego [moving traffic]. "Ela seria devastadora para a cidade", afirma. "O que motivava sua construção era que poderia receber verbas federais destinadas às vias expressas [it was eligible for federal highway funds], já que conectaria New Jersey a Nova Iorque. Implicaria, ainda, na geração de empregos para a indústria da construção, e um caminhão de dinheiro [lots of money] para os políticos e arquitetos que se beneficiariam com a intervenção, e também, provavelmente, para os incorporadores imobiliários que colheriam frutos indiretamente [pick up on the fringes]. E até que Jane finalmente conseguisse impedir essa operação, passaram-se 12 anos", relembra Epstein. "Num determinado momento, ela foi presa e encarcerada com dois companheiros, passando por sérios problemas. Foi , literalmente, mandada pra cadeia".

Em 1968, Jacobs e sua família se mudaram para Toronto. Não queriam que seus dois filhos adolescentes [draft-age sons], Jim and Ned, fossem convocados para servir na Guerra do Vietnam. "Nunca me ocorrera que jamais me torna-se outra coisa senão uma americana", observou. Mas isso mudou quando participava de uma passeata no Pentágono, em 1967, e se viu frente a frente com uma coluna de soldados usando máscaras contra gás. "Pareciam uns horrorosos insetos gigantes, agrupados em bando, nunca seres humanos de verdade. (...) Após um certo intervalo de tempo, decidi que não havia jeito (...) Perdi o amor à pátria. Pode parecer ridículo, mas não me sentia mais americana".

Toronto significou um amadurecimento [was ripe] para Jane Jacobs. Se mudara a pouco tempo, quando foram anunciados os planos para a construção da Spadina Expressway, que cortaria uma faixa do tecido urbano, facilitando o acesso dos moradores dos suburbs ao Centro da cidade. Jacobs escreveu um artigo de jornal criticando duramente os planejadores urbanos por sua tentativa de 'los angelizar' a cidade, que considerava a mais promissora e sadia [hopeful and healthy] da América do Norte, ainda não desfigurada [unmangled], e ainda com muitas oportunidades a aproveitar [options]".

Deixando de lado qualquer sentimento vingativo [in an unrequited sentiment], ainda que isto possa parecer estranho, os urbanistas em geral adoravam Jacobs... apesar da maneira como ela os definia: "antes de tudo, nossos órgãos oficiais de planejamento nos parecem descerebrados [brain-dead], no sentido de que deles não podemos depender, em nenhuma hipótese, na forma ou no conteúdo, esperando que assumam a liderança intelectual necessária para que se possa lidar com as urgentes questões relacionadas ao futuro físico das cidades [physical future of the city]".

Jane Jacobs mobilizou os cidadãos, contra os urbanistas e contra os políticos, naquele movimento social que ficou conhecido como Stop Spadina. "Ela, na realidade, adorava esse seu lado 'ativista' ", relembra Crombie, "a formulação da estratégia, as manifestações de rua, as assembléias. Ela gostava de se encontrar com as pessoas, adorava o vigor do ativismo". Esta era uma faceta de sua personalidade. Outra, como Crombie observa, era seu espírito ético [Jane, the ethicist]. "Ela tinha um tremendo senso de 'ordem moral' [terrific sense of the moral order]'', ele afirma. "Possuía a autoridade moral de um profeta do Velho Testamento e a ascendência natural [easy authority] de uma madre superior".

Na maioria das vezes, cada um de seus livros representava um avanço intelectual [intellectual progression], elevando sua reflexão sobre as cidades e a Economia a um passo adiante. Jacobs se movia para além do 'planejamento', enxergando a cidade como um gerador de economias [economic generator]", observou Christopher Hume, um colunista de assuntos urbanos do periódico The Star. "Dispensando os jargões e o saber consolidado [received wisdom], Jane Jacobs possuía uma extraordinária clareza de raciocínio [clarity of mind] que a tornava capaz de revelar verdades tão óbvias, que permaneciam ocultas para quase todo mundo". Epstein, o editor nova-iorquino que descobriu o talento de Jacobs para escrever livros a definiu como uma mulher perspicaz ['shrewd' woman]. "Ela possuía aquela maravilhosa visão balanceada das coisas [double view], não acreditando a priori em nenhum dos lados [trusting no one side], e não suspeitando a priori do outro [and suspicious of the other], que tinha fundadas razões para sustentar. Isto tornava seu raciocínio por demais complexo, extremamente claro, firme e vigoroso".

Além de The Death and Life of Great American Cities [Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas], The Economy of Cities [A Economia das Cidades], e The Question of Separatism, Jane Jacobs escreveu outros livros, entre os quais: Cities and the Wealth of Nations [As Cidades e a Saúde das Nações]; The Girl on the Hat, Systems of Survival: a dialogue; A Schoolteacher in Old Alaska; The Hannah Breece Story; The Nature of Economies; e Dark Age Ahead [Dias Piores Virão].

Jane Jacobs ficou surpresa por seu livro The Question of Separatism não ter sido bem recebido por alguns canadenses. Nele, ela afirmou que a província de Quebec desenvolveria uma economia mais bem sucedida e com maior vitalidade caso se separasse do Canadá. "Não desprezo [turn up my nose] as pessoas que se comportam emocionalmente diante dos problemas", afirmou. "A emoção é válida. O que me surpreende é a maneira como as pessoas sensíveis reagem com relação à questão de Quebec".

A estória de A Schoolteacher in Old Alaska é a de sua tia-avó, que foi viver no Alasca da virada do século XIX-XX. The Girl on the Hat, escrito para sua neta, Caitlin, é a estória de uma engenhosa menina [resourceful girl], chamada Tina, e que mede apenas 5 cm de altura.

A premissa central de seu livro The Nature of Economies, é que 'economia' é uma rede de forças inter-relacionadas, submetidas a leis abrangentes e comuns, como as que afetam todos os demais seres vivos na Natureza. À época, em março de 2000, J. J. declarou a Judy Stoffman, do periódico The Star: "Esse conceito será considerado muito radical por todos aqueles que concebem os seres humanos como algo externo à Natureza. Os Homens não são nem adversários, nem tampouco 'senhores' inevitáveis [inevitable masters] da Natureza. Vivem e sobrevivem submetidos aos mesmos processos que regem 'toda' a Natureza".

Após a morte de seu marido, a senhora Jacobs continuou a viver em sua casa de tijolinhos, com três andares, situada na Avenida Albany, uma rua arborizada do bairro Annex, que ela queria preservar. Trabalhava em seu escritório, no andar de cima da residência, utilizando uma máquina de escrever e se recusando a adotar o computador. Seu filho Jim, um inventor, morava próximo a ela; e o outro filho, Ned, trabalhava no Vancouver Parks Board e é músico. Sua filha, Burgin, é artista e reside em New Denver, British Columbia. As estantes de seu estúdio não estavam preenchidas com livros de Economia ou Urbanismo, mas com escritos sobre a Teoria do Caos e ensaios científicos, temas que estimulavam suas reflexões. Logo após escrever The Nature of Economies, declarou: "acho que estou vivendo numa época maravilhosa, em que grandes mudanças estão acontecendo. Agora, por exemplo, sabemos que não há relações lineares de causa e efeito [straight-line cause and effect]; tudo está conectado em rede. Esse entendimento deriva dos avanços obtidos nas Ciências Biológicas [life-sciences], e abre a possibilidade de compreendermos toda aquela série de coisas que até então não compreendíamos. E acho isso tudo muito excitante".

Sobre sua própria vida, declarou: "Na realidade, tive uma vida muito fácil [very easy life]. Por 'fácil', não quero dizer apenas uma vida 'descansada' [lying around], mas na realidade não fui muito exigida [I haven't been put upon]. E tive sorte, sobretudo. Ter vivido numa época em que as mulheres não foram anuladas [put down], é ter tido sorte. Ter nascido numa família onde eu própria não fui anulada, é ter tido sorte. Ter encontrado o homem certo para casar, é ter tido a maior das sortes ! Ter tido filhos bonitos e sadios, é sorte demais. Enfim, tudo isso é ter tido sorte".

Sorte, tivemos nós !



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