Arquitetura é povo nas ruas!

Fazem os desavisados uma distinção, pelo uso autônomo dos termos, entre arquitetura e urbanismo, remetendo-nos a idéia de prédios e edificações versus cidade. Não me encanto com essa especialização e sei bem que os arquitetos incorporam ambos os termos num único: arquitetura. Fico com eles e dou adeus a uma dicotomia que se mostra tosca e inútil.

O que mais me encanta na arquitetura é ver que conceitos e idéias expressam de forma coerente e harmônica o que queremos de nossas cidades e vilarejos – que funcionem, sejam agradáveis e belas. Tomo como um dos elementos fundamentais em arquitetura a tríade trabalho, residência e comércio. A tríade poderia ser complementada pelo elemento lazer. Mas lazer não é, de fato, essencial, segundo meu juízo, nas implicações fundamentais que essa tríade encerra, ainda que o seja na prática cotidiana, uma vez que procuramos morar sempre em lugar aprazível, perto de praias ou lagos (erro crasso que Lúcio Costa ou Niemeyer cometeram no caso de Brasília – o lago ficou distante das moradias e para piorar apenas para os ricos, em caricatura grotesca do que é ser comunista brasileiro). É interessante levar à exaustão as implicações dessa tríade, dando-nos o caráter prospectivo tão louvável às ciências, demonstrando sutilmente que os modelos em arquitetura são precisos, embora aparentemente frouxos. Antes, porém, cabe ressaltar que é mais provável a ausência do elemento trabalho do que os demais. O elemento trabalho pode ficar distante dos elementos moradia e comércio. É o caso típico do subúrbio americano. Da barra da Tijuca e de Brasília, notadamente o Plano Piloto que depende essencialmente do trabalho que se executa na Esplanada dos Ministérios.

A primeira implicação fundamental é que, na ausência de um desses elementos, uma perturbação séria se imporia à dinâmica da cidade. Se há trabalho apartado das residências e do comércio, a conseqüência típica é ausência de povo na rua. Fenômeno latente nas ruas do plano piloto ou na Barra da Tijuca. Nas quadras de Brasília, que compõem o Plano Piloto, simplesmente não existe povo na rua e a situação só melhorou um pouco com a vinda do metrô. Povo na rua é um objetivo de qualquer arquitetura planetária. É assim nas grandes cidades da Europa para onde vai a maioria dos turistas. É assim na Ásia e em muitos outros lugares. A segunda implicação dessa tríade, em comunhão capenga, é a falta de dinamismo com o que se defronta a cidade pela ausência do motor dos negócios que são os indivíduos em sua constituição múltipla e diversa perambulando pelas ruas. Enfim, a cidade se expressa pelo formigueiro móvel, cada uma buscando seus interesses em formação de uma coletividade única.

Fazendo coro ao conceito de povo na rua, outro conceito em arquitetura que descobri recentemente, por intermédio do renomado arquiteto Paulo Mendes Rocha, é do acaso. De fato, nas cidades com povo na rua, as pessoas, recorrentemente, se defrontam com situações inusitadas e de ótimo efeito colateral, como a de ir a banca de jornal ou ao botequim e encontrarmos caras conhecidas e amistosas; de passearmos na cidade e encontrarmos aglomerações espontâneas em descoberta de algo bom ou agradável. É pela integração do trabalho ao comércio que, submetidos ao acaso, podemos variar nossa caminhada cotidiana quando se lancha ou almoça nas ruas, prescindindo-se de uma das formas mais rudes de exploração: o trabalho doméstico sufocante que amarra pessoas humildes à armadilha da pobreza.

É pela integração desses três elementos que conseguimos otimizar nossas escolhas, sobrando-nos mais tempo para o lazer ou o não fazer simplesmente nada. É mais econômico: os custos de transportes são baixos, restringidos pelos custos de aglomeração. Há um padrão ótimo de cidade, em que esta tríade – trabalho, moradia e comércio - desempenha papel fundamental.

Em essência, a arquitetura reflete nossa mentalidade, nossa política e o espírito solidário que verdadeiramente emana de nossas almas. Não podemos nos desviar do que milenarmente está consagrado, como Paris, Madri, Londres e tantas outras cidades, em prova inconteste, pela sua arquitetura esplendorosa, de que o bem vence o mal. Para isso, se necessário for, coloquemos abaixo, em exemplo didático e midiático, toda a esplanada dos Ministérios em Brasília que flagrante estampa rua sem povo.







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