É o Banco Central uma instituição democrática?

A história do banco central já foi contada em prosa e verso pelos historiadores econômicos e pesquisadores da área monetária. Friedman é Schwartz são uma ótima referência para a história monetária dos Estados Unidos, com o seu livro A monetary History of the United States, 1867-1960. Lá vamos encontrar o surgimento de um sistema monetário ancorado na moeda estatal e na moeda bancária. Ambos estariam sob o controle legal. O primeiro com um limite legal ou regra para controle do agregado monetário de sua responsabilidade direta (a base monetária). O segundo, pelo controle indireto que o banco central poderia fazer sobre os bancos, controlando o volume de seus depósitos à vista. Outras formas de controle, nessa linha, complementando-os ou substituindo-os, podem ser listados, com destaque para as operações de open-market como o instrumento para se regular a liquidez do sistema.

O controle do agregado monetário e sua ingerência sobre os depósitos a vista dos bancos teriam que ser equilibrados pelo efeito monetário real, quer dizer, sobre o mundo concreto. Havendo perigo de recessão, a liquidez não poderia ser diminuída. Podendo até ser estimulada. Os instrumentos poderiam ser diretos – controle da base monetária – ou indiretos – controle dos depósitos à vista. Entretanto, os bancos atuariam sempre prociclamente. Quando os negócios estivem indo bem, mais créditos estariam disponíveis. Quando fosse o contrário, menos crédito. Com um sistema fracionário (banco usando, sem consentimento prévio do depositante, os seus depósitos à vista para empréstimos), tornaria a atuação do sistema bancário amplificadora de booms e recessões. Irving Fisher apresentou a solução bancária já na década de 20 do século passado: 100% Money, ou seja, nada de reservas fracionárias! Friedman manteve esta mesma posição até onde pode (os economistas que criticam Friedman sobre sua proposta de metas de crescimento de moeda nunca lembram de falar da sua posição sobre os bancos). Desnecessário dizer que a batalha foi perdida. Mas não se pode negar que esta é ainda uma ótima solução, porque evita desnecessariamente amplificações de booms e recessões.

Este esquema do Banco Central, gerindo a liquidez pelo open market, funciona sem grandes problemas quando não se procura controlar diretamente a taxa de juros. Desnecessário também dizer, outra guerra perdida de Friedman. Com a invenção de Poole de que controles de juros seriam preferíveis à controles monetários diretos quando houvesse a instabilidade na demanda por moeda, foi-se a “independência” do Banco Central. No caso do controle direto da quantidade de moeda, estaria, no final das contas, o banco central trocando moeda por títulos, interferindo apenas indiretamente na rentabilidade dos ativos financeiros e reais. Com o controle das taxas de juros, a intervenção é imediata e grandes lucros ou prejuízos podem ser engendrados artificialmente. Vamos lembrar: juros é um preço e todo e qualquer controle de preços traz ineficiência e prejuízos para algum segmento da sociedade.

Voltando a questão do post: É o banco central uma instituição democrática? Se já era questionável com metas monetárias, agora, com metas de juros, a discricionariedade pode servir como desculpa para grandes negócios privados, geridos pelo próprio banco central. Se as instituições que fazem os “checks and balances” são fracas, como é o caso presente do Brasil, a farra só encontra limites pela degradação ambiental e social.



Comentários

  1. É isso ai Marco, 100% Money!

    Parabéns pelo post.

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  2. Brasil centro cultural senzala...
    Ô é senzala, é senazala, centro cultural senzala.

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