Taxa de juros e keynesianismo chinfrim

Existem algumas coisas interessantes na teoria econômica que, quando expressas num tiro só em análises imediatistas, soam aos meus ouvidos como paradoxos estranhos. A primeira e a mais intrigante é a idéia tosca de que economia pode ser desvendada com fórmulas matemáticas. O fundamental em economia está ancorado em conceitos e idéias simples, o que muitos chamam de o básico. O segundo fato intrigante é como o clichê econômico se estabelece amiúde como verdade absoluta. Naturalmente, quem se apoia em clichês para fundamentar seus argumentos não pode estar no exercício pleno de uma heurística básica. Das fontes inesgotáveis de clichês o keynesiano abriga os campeões, ressaltando apenas o lado da demanda agregada. Aumentam gastos, aumenta a renda. Diminuem gastos, diminui a renda. Aumentam a taxa de juros, a economia se retrai. Diminuem os juros, a economia se revitaliza. Os efeitos no mundo real dessas medidas, que a outra face da moeda exige, esqueçam, pois isso já não é keynesianismo.

Mas é esse o ponto que quero falar. O efeito de taxa de juros elevadas no lado real da economia. Para piorar o cenário, não há como negar que a taxa de juros vigente desde o início do plano real está simplesmente nas nuvens. O que dirão os economistas filhotes bem nutridos de banqueiros? O jargão keynesiano está na prateleira dos oportunistas e de miolo mole, servindo de anteparo lógico aos interesses privados. Chavões como, em resposta ao aumento dos juros, o investimento se retrairá são comuns e corriqueiros, dando a impressão de que apenas um processo de retardamento seria o ônus dessa política de aumento de juros. Ledo engano, porque é pelo lado da oferta que o efeito perverso de um aumento dos juros se impõe. Isso sem falar do efeito distributivo, fácil de se explicitar, quando se considera, em didática valiosa de simplificar o mundo, a repartição da renda entre capitalistas e trabalhadores, com o efeito óbvio de uma redução dos “salários” e um aumento da fatia “lucros”.

A macroeconomia austríaca , muito bem retratada por Hayek em seu livro Prices and productions, dá conta do lado da oferta em sua dimensão adequada. O que lá se estabelece é que o efeito dos juros elevados recai sobre o processo produtivo e sobre os salários. Quanto aos salários, estes têm que cair para abrir espaço a uma rentabilidade que se procuraria preservar com um processo produtivo mais curto. Resumindo, o efeito seria um encurtamento do processo produtivo e uma queda dos salários. O que estes fenômenos em conjunto significam? Que o mundo real se esboroa, com os produtos sendo,agora,gerados por tecnologias mais simples, ou seja, o capital fica mais vagabundo, incluindo-se aí tanto o capital físico , quanto o humano. Os produtos são vagabundos, tanto quanto os elementos que os constituem, inclusive a mão-de-obra.

Poderiam contra-argumentar que existem produtos, na nossa economia tupiniquim, de qualidade internacional. Em tese isso só seria possível se houvesse um processo de subsídio ou protecionismo em andamento o que , de fato, não se pode negar nesta economia de compadrio. Poderíamos apontar o BNDES como o abrigo dos “ineficientes” que recompõem sua estrutura produtiva moderníssima a custo irrisório. Poderíamos ainda culpar os políticos que, aprisionados confortavelmente pelo poder econômico, legislam , em sonata nacionalista, em causa de poucos. Creio eu, em contabilidade elementar, que o esquema BNDES sirva também a uma outra finalidade: pura e simples pilhagem. Quem não quer o passaporte para Shangri-la? Até o Eike Batista entrou na roda.


PS: O trabalho de Nelson Carvalheiro , Distribuição Funcional da Renda e Competitividade: Observações a Partir das Contas Nacionais, respalda, em grande parte, minha argumentação. Todavia, basta olhar as vitrines das lojas: poucos produtos à mostra e de péssima qualidade, o que reflete o que o povo veste. Quanto ao salário, mesmo quem não está no setor público federal já se sente no paraíso com uma renda mensal de R$ 2 mil.No final das contas, a dinâmica de endividamento público que alimenta juros altos exige um ajuste que recaia sobre os salários e os impostos, ancorados em industrias subsidiadas gerando produtos de baixa qualidade. Para dar um toque de Midas ao modelo, como elementos coadjuvantes, as exportações de produtos agrícolas e minerais fazem, apesar do aumento do desmatamento, sucesso na balança comercial que só não é um sucesso total, porque essa industrialização do compadrio se assenta em importações crescentes. O pior é que acusam o povo de estar importando quinquilharias.

Boas festas a todos e inté fevereiro quando retorno de minhas férias.


Comentários

  1. Professor,

    Falou tudo. Com certeza todos economistas que se preze tem isso em mente e ficam inconformados com tanta palhaçada das políticas exercidas no Brasil.

    Parabéns pelo artigo e que ele sirva de incentivo as pessoas de boa intenção para fazer algo diferente do atual.

    Infelizmente teremos que aturar mais quatro anos de Guido Mantega. O pior dos keynesianos.

    Abraço, boas festas e férias!
    Sérgio Ricardo

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