Colômbia: uma agradável surpresa.

Talvez o estigma da violência nos faça ver as cidades da América - latina mais violentas do que realmente são. Para piorar, achamos, nós cidadãos brasileiros, colombianos ou venezuelanos que um ou outro desses países têm cidades até mais violentas do que as nossas. Basta consultar as estatísticas e logo veremos quem de fato são os campeões da violência. Deixo isso como dever de casa, facilmente sanável com uma rápida consulta à internet. Hoje tenho claro que a Colômbia é muito diferente do que estigmatizava. Fiquei simplesmente encantado, sobretudo com a simpatia e a alegria daquele povo: têm a medida correta da auto-estima valorosa.

Visitei duas cidades: Bogotá e Cartagena de Índias. Falarei agora de Bogotá. Antes de tudo uma cidade limpíssima, apesar dos poucos recipientes de lixo pelas suas ruas. Em segundo, um povo ordeiro e disciplinado, muito embora alguns serviços pareçam funcionar de forma precária, notadamente os do aeroporto. Não pude colocar a lupa de um turista inquisidor, porque minha estadia foi curta: oito dias. De forma que a minha psicologia não pode alcançar mais do que a breve descrição que fiz e a resumo assim: uma gente cordial e alegre, apesar da força expressiva indígena um tanto taciturna.

Quanto à cidade, fiquei simplesmente impressionado. Uma mega cidade e parece que funciona a contento. Não há o caos no transito, como em São Paulo. As ruas e avenidas parecem bem planejadas. O sistema urbano parece atender perfeitamente bem à população. Os táxis funcionam e cobram-nos uma tarifa adequada. Gostei da coerência urbanística e principalmente dos parques e jardins, mesmo apreciando-os à distância. Achei interessante o padrão dos edifícios: seis andares e quase todos de tijolinho em contraste com as nossas grandes cidades: prédios demasiadamente altos e concreto e cimento a rodo. O clima nas cidades brasileiras é drasticamente afetado pela engenharia e arquitetura destrutivas que por aqui empreendemos. Na Colômbia, intuindo que haja persistência climática agradável, os técnicos e engenheiros parecem manter o ponto de vista verdadeiro para a dinâmica da cidade, em que pese a especulação imobiliária atuando alhures e algures. Acredito que os colombianos irão rapidamente restringir essa mania, que tanto agrada aos especuladores reles, certamente esnobe e muito da tupiniquim de se admirar prédios gigantes. Como a corrupção está em trajetória descendente na Colômbia, acho pouco provável que os políticos que decidem pela urbanização da cidade possam ser cooptados pelos empreiteiros do cimento. A ordem urbanística clama por um padrão máximo de 6 a 7 andares e tudo indica que Bogotá permanecerá dentro desses parâmetros. Oxalá esteja certo.

No traçado da cidade, reparei um fatiamento adequado: com ruas transversais e paralelas às grandes avenidas. O problema é que a mobilidade popular fica um pouco complicada; o que parece justificar imensas áreas com pouca densidade de transeuntes. A solução me parece simples: manter a trilogia urbana que se resume em trabalho, residência e comércio convivendo contiguamente. Não é uma boa idéia manter-se áreas de trabalho confinadas em uma região. O governo central poderia, se for o caso, redistribuir seus órgãos, sem que se mexa na localização atual do Congresso e da casa do presidente – estão ao alcance, para o bem ou para o mal, da população que pode tanto aplaudir como apupar os políticos de todos os vernizes.

Quanto às favelas, elas são muito diferentes das que proliferam no Brasil. Não são tão desagradáveis às nossas vistas como as que temos no Rio, São Paulo ou Recife. A solução, tanto lá , quanto cá, me parece ser a mesma: a regularização do direito de propriedade em prol dos atuais moradores dessas comunidades carentes, sob a batuta de um plano urbanístico. Em outras palavras, o Estado deveria conceder gratuitamente o direito de propriedade aos favelados, restringindo as construções às diretrizes urbanísticas pré-definidas. Todos ganhariam. Os pobres com a espetacular valorização patrimonial. Os demais pela possibilidade futura de se adquirir terrenos efetivamente adequados à cidade, em boa política de investimento privado. Claro, o combate a novas invasões teria que ser efetivo e punitivo.

Espero voltar a Bogotá e me inteirar mais sobre a cultura colombiana. Viajar em janeiro para esse fim específico não é uma boa idéia: a turma cultural de lá está, neste período, sempre de férias.



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