Exemplo didático de como se responde na academia à boquirrotos e abestalhados

Já faz algum tempo que li um artigo um tanto quanto interessante: A stick-price manifesto, escrito por Laurence Ball e N.Gregory Mankiw. Chamou-me atenção, em dobro, o comments on Ball and Mankiw, escrito por Robert E. Lucas, retratado no manifesto como heretic.

O ponto central do manifesto é de que os economistas poderiam ser divididos em dois grupos: os tradicionalistas e os heréticos. Os primeiros acreditam que a viscosidade dos preços joga um papel fundamental nas flutuações econômicas e que subjaz aos modelos tipo IS-LM, ensinados nos cursos de graduação. Já os heréticos argumentariam que as flutuações surgem dos choques tecnológicos para economias competitivas, enquanto outros enfatizariam fenômenos como retornos crescentes ou equilíbrios sunspot, rejeitando proposições bem assentadas pelos tradicionalistas.

Mankiw e Ball se autodeclaram tradicionalistas (incluindo nesta turma tradicionalista Milton Friedman) e, para se qualificarem como tal, apelariam para argumentos teóricos e empíricos, baseando-se em três convicções. A primeira seria a crença de que a política monetária teria frequentemente efeitos importantes no lado real da economia. A segunda crença é de que a hipótese de viscosidade nos preços seria a melhor explicação para a não-neutralidade da moeda. A terceira crença seria a de que viscosidade nos preços e não-neutralidade desempenham papéis centrais.

Os tradicionalista , para justificarem que política monetária importa, se apoiam na evidência empírica que Friedman e Schwartz produziram em seu ainda válido “A Monetary History of the United States” e pela a atuação firme de Paul Volcker que conduziu a economia americana a uma desinflação, com custos recessivos. Por isso, os tradicionalistas indagam: Se contrações monetárias são seguidas sistematicamente por contrações nas atividades reais, como os heréticos poderiam sustentar que moeda é neutra?

A evidencia apontada pelos tradicionalistas os leva a implicação de que a economia contém uma imperfeição nominal importante e preços viscosos são o melhor candidato para explicar tal imperfeição. Nas palavras de Mankiw e Ball, como uma matéria de lógica, qualquer modelo de não-neutralidade deve incluir algum tipo de imperfeição e registram que para os adeptos de preços flexíveis, em seus modelos, gerarem a não-neutralidade da moeda, devem apelar para alguma outra imperfeição nominal, citando o modelo de Lucas – Expectations and the Neutrality of Money – como uma alternativa aos modelos com preços viscosos. A imperfeição em Lucas seria a informacional: agentes não conhecem o nível de preços e assim não poderiam distinguir movimentos de preços relativos de nominais. Para Mankiw e Ball, o pressuposto de um preço não observável lhes soam improvável e assim apregoam a superioridade dos modelos com preços viscosos.

Ressaltam ainda a questão da dicotomia real e monetária que os modelos de preços flexíveis apregoam. O produto real e a taxa de juros seriam determinados pelo mercado de bens e pelo lado da oferta da economia, com o mercado monetário determinando apenas o nível de preços. Para se quebrar a dicotomia, introduzem o efeito-liquidez, um canal pelo qual moeda afetaria o dispêndio agregado: uma restrição cash-advance que fixa o consumo igual ao encaixe real. Com essa restrição, um ajustamento vagaroso nos encaixes monetários, em resposta a mudanças nos preços, implicaria numa mudança nos encaixes reais e daí numa mudança no consumo. Novamente, Mankiw e Ball consideram esse canal irrelevante do ponto de vista empírico.

Outros pontos são tratados pelos autores do manifesto, concluindo que uma teoria deve ser julgada não apenas pelo apelo intrínseco dos seus pressupostos, mas também pela sua habilidade em explicar fatos observáveis.

Vejamos com Lucas responde ao texto provocativo de Mankiw e Ball:

“Algumas vezes, redução no crescimento monetário parece ter grandes efeitos sobre a produção e o emprego. Outras vezes, grandes reduções no crescimento monetário parece ser neutro ou aproximadamente neutro. Observações como essas implicam que uma abordagem do tipo IS-LM, em que o multiplicador é aplicado a todos movimentos monetários, independentemente de suas fontes ou de suas previsibilidades, seria inadequado para objetivos práticos.

Esta conclusão não é particularmente controversa, mas é uma negativa a conclusão de que poderemos corretamente predizer as consequências reais de uma mudança na política monetária. Embora se concorde que necessitamos de uma teoria econômica que capture a não neutralidade monetária, nenhum candidato pode ser eleito sem que se defronte com graves dificuldades. Modernamente, técnicas tem sido desenvolvidas para analisar o comportamento dos preços em resposta a choques contínuos, em face de custos fixos para mudanças de preços. Mankiw e Ball estariam em excelente posição para oferecer tal coisa. Infelizmente, no paper em questão, nada fizeram nesta linha. Para Mankiw e Ball, o arcabouço IS-LM seria perfeitamente adequado para tratar desse assunto. Para eles, não seria mais conhecimento que se requereria. Mas escolha ideológica: “Um macroeconomista não lida com outra coisa senão escolher entre ser tradicionalista ou herético”.

Assim Lucas indaga: Por que teria que ler este paper? Ele não contribui em nada! Que fração da variabilidade do produto real poderia ser atribuída a instabilidade monetária? Mankiw e Ball nada oferecem para isso! Eles dizem trivialmente que eles acreditam que a resposta é um numero positivo e sugerem, falsamente e desonestamente, que outros têm declarado que é zero.
Qual a moral de tudo isso? É como Lucas diz: Para se reconhecer a existência e a possibilidade do progresso da pesquisa, temos que reconhecer nossas deficiências na abordagem de assuntos não completamente resolvidos.

É, de forma transversa, assim que vejo as questões tratadas recentemente em blogs pseudocientíficos que discutiram sobre a validade da TQM. Temos que reconhecer que o espaço dos blogs não é apropriado para debates acadêmicos, tal como não é o artigo de Mankiw e Ball, apesar da importância do assunto, adequado para o debate cientifico sério. Como diz Lucas, é um artigo para ser publicado no Economist. O triste é que muitos livros textos, pseudosofisticados, citam o artigo de Mankiw e Ball, mas nem sequer falam do Comments de Lucas.

Para piorar tudo, vejo anônimos invadindo o espaço cibernético com o intuito único de bagunçar, quer por ignorância explícita, quer por maldade reles. Torço para que os blogs fiquem nos seus limites óbvios e que os anônimos sejam tratados como merecem: nihil.





Comentários

  1. Perfeito professor!!!

    Mais um post com sua marca registrada de qualidade.

    Marcos Paulo

    ResponderExcluir
  2. Excelente artigo professor.
    Que bela contribuição o Sr. está dando ao debate que estou acompanhando.
    Pena que seu blog não é tão acessível a todos que utilizam outros, do tipo anônimo, para basear informações.
    O seu canal de debates deveria ter uma maior visualização para os economistas melhorarem o poder de argumentação e enriquecem o debate e não aceitarem mais economistas tupiniquins, do tipo anônimo ou Mantegas, a tratar a economia com uma ciência simples alavancando gastos públicos para respostas em curtos prazos, postulados por Keynes somente.

    Acrescento que este artigo é a melhor resposta dentre todas que eu já li sobre o assunto.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas