Paulo Guedes: Onde Friedman Errou?

O artigo de Paulo Guedes – economista com Phd por Chicago – “Vitória ... de Pirro”, publicado no O globo de 21/02/2011, fez-me lembrar, em similitude perfeita, o quão grotesca era a política econômica gerida por quem recorrentemente gostava de usar tal expressão: Mário Henrique Simonsen (Não deixe de ler o post – Simonsen: um péssimo policymaker!). Diz Guedes o seguinte: “A presidente Dilma obteve importante vitória política ...A Câmara dos Deputados aprovou o projeto que fixa o salario mínimo em R$ 545,00. Com os preços da energia, a comida e das matérias-primas disparando nos mercados internacionais, foi bloqueada a transmissão instantânea dessas pressões de custo para a folha de pagamento das empresas.”

Numa expressão só, vários disparates ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, uma política que fixe ad hoc salários nada tem que ver diretamente com inflação. O objetivo do governo foi outro e todos sabem: iria atrapalhar suas contas. Certamente iria aumentar o déficit público federal. Mas essa é uma questão, a principio, de finanças públicas. Várias poderiam ser as alternativas para a sua adequação. Em segundo lugar, o salario mínimo tem pouco que ver com a folha de pagamento das empresas que catapultam o PIB. Tem que ver é com os aposentados, as domésticas e o segmento do mercado de trabalho que está limitado por esse perfil de trabalhador que pouco sabemos quantificar, dada a infinidade de pessoas que não aceitam trabalhar por um salário mínimo. Em terceiro lugar, o item mais importante. Qualquer salário que fique no mercado interno é altamente salutar. E assim, quanto maior, melhor.

O que, de fato, essa política fez foi eleger, tal qual na ditadura militar, quem arcará com o ônus do fechamento das contas do governo e por tabela o custo inflacionário - o tal problema redistributivo inflacionário, quando se sabe que, nas ditaduras, o déficit público sempre procurou um vilão que não pudesse reagir ou fácil de se dominar. Claro, isso só pode ocorrer para quem não acredita na neutralidade da moeda que certamente existiria num esquema de mercado, amparado em boas leis. Quem foi criado naquela ditadura gerida por economistas tantãs, aceitando como boa a prática de política econômica exercida sem freios políticos por mais de vinte anos e montada no arbítrio, certamente terá dificuldades em aceitar a neutralidade monetária.

Para escamotear o desenlace óbvio dessa medida ad hoc sobre o salário mínimo, completa Guedes seu argumento destro: “A inflação .. em 2011 é uma variante muito resistente a tratamentos convencionais. Há um componente clássico de excitação da demanda... Mas há também outro componente, mais raro e bastante perverso. Trata-se do “cost-push”, uma pressão de custos que começa com a elevação dos preços das commodities e das matérias-primas básicas, transmite-se posteriormente aos salários e vai subindo ao longo de toda a cadeia produtiva, aumentando custos, derrubando as margens de lucro e forçando elevações de preços.”

Não é sem sentido lembrar que essa proposição não encontra respaldo em hostes monetaristas. Ela, entretanto, poderia estar incorporada em qualquer economista; menos naqueles que se formaram em Chicago e ostentam seu título em baluarte de ouro – exatamente o caso de Guedes. Um verdadeiro herege, poderiam os monetaristas de Chicago reivindicar.

Não entrarei no mérito da discussão sobre cost-push, fora o meu posicionamento explicito de que não considero tal argumentação adequada para o debate sobre inflação. Além disso, o problema aqui é de outra natureza, até porque nessa linha cost-push não poderiam ser esquecidos outros elementos perversos, como a indexação dos juros Selic à dívida pública que acaba afetando todas as margens de lucros de quem não se beneficia desse esquema cartorial. Fora também o perverso esquema de indexação generalizado que campeia na economia brasileira, notadamente quanto aos reajustes de tarifas como as da energia e comunicações. Enfim, quem aceita cost-push pouco valor dá às restrições orçamentárias como limite concreto para as ações consumistas supostamente transloucadas.

Quanto ao salário mínimo, diferentemente dos liberais de Chicago – meu doutoramento se deu em lugares menos hostis à heresia econômica; é tupiniquim – penso que o seu patamar deve ser estabelecido de forma ad hoc, como de fato é fixado. O limite porém não se relaciona diretamente com a restrição orçamentária do governo. Mas com o descaso geral que se tem com os mais humildes. Uma boa política governamental seria a de procurar tornar o salario mínimo não restritivo ou efetivo. Enquanto não for, torço para que chegue logo aos U$ 400. E amanhã aos U$ 500 até que chegue aos U$ 1.000 – perseguindo, em minha mistificação reles, uma numerologia fantasiosa.



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