Ministra francesa, para vender caças, oferece transferência total de tecnologia ao Brasil – somos uns caipiras ?

Como economista desenvolvimentista, sempre refutei as teorias malandras sobre crescimento econômico. Chutei a teoria da dependência , por se tratar de desculpa para nossa indolência crônica. Chutei o modelo de substituição de importações, porque só vi as importações de fábricas e até de insumos subirem e a dos chamados supérfluos diminuírem gravitacionalmente em direção a zero. Chutei as fórmulas de política industrial, porque se trata de subvenção a vagabundos que se enriquecem às custas do povo em geral. Vacinado contra a usurpação reles, fiquei imune a certos enigmas que rondam nosso noticiário econômico. Para decifrá-los, valho-me até de fotos singelas, como as que reproduzem rotineiramente nossos jornais, de simples encontros entre autoridades. Numa recente, vejo a ministra francesa conversando com a nossa presidenta, em formalidade respeitosa, tentando nos vender seus aviões franceses, empacotando junto a tecnologia sofisticada dos caça de guerra. Porém, em tudo me lembra uma caipira sendo enrolada – redundância cultural. Naturalmente, se tirarmos uma foto da nossa presidenta conversando com os líderes da África pobre, os personagens se inverteriam: nós é que estaríamos conversando com os ingênuos e bobos. Entretanto, dada a corrupção crônica do Brasil, pouco ou quase nada ganhamos com nossa esperteza relativa. Vejo que não é à-toa que a turma das cotas não quer a sua cidadania africana e pra lá ninguém daqui vai (e creio do mundo inteiro).

A conversa sobre transferência de tecnologia é uma estultice sem fim e se enquadra perfeitamente bem no quadro da picaretagem recorrente e temos assim mais um golpe sofrido pelo caipira –o simples cidadão que pagará a conta. Quando se usa o mantra transferência de tecnologia, logo nos vem a mente a possibilidade de reproduzirmos aqui o mesmo produto que antes importávamos. É fácil ver que isso é impossível. Basta se questionar sobre a estrutura tecnológica e cultural que se assenta a indústria em questão. Quantos engenheiros, lá na França, estariam envolvidos na construção desse avião? Quantas universidades não estariam envolvidas com projetos dessa natureza? Quantos técnicos não estariam sendo mobilizados para tarefas relativamente simples, mas de tecnologia sofisticada? Quantos anos não levou essa turma francesa até se chegar ao produto final e acabado? É fácil ver que não temos essa estrutura, como demonstram os “enens” da vida que nos colocam no rabo da fila do conhecimento.

Todavia, a estória é ainda mais simples. Suponha que até conseguíssemos tal feito , com esforço sério e muita sorte. De que nos serviria aprender a fazer o avião com tecnologia X? Será que poderíamos chegar a tecnologia Y que certamente comandará o mercado da aviação em futuro próximo? Evidentemente que não. Pode ser ainda que se trate de uma estratégia de negociação e os caipiras não seríamos nós. Uaí, quem acreditaria?



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