A tal da reclamação protecionista baseada em produtos que agregam valores. Piada?

A ladainha da substituição de importação ecoa para todos os lados. Agora, em analise tantã do balanço de pagamentos, aproveitam os oportunistas contumazes para gritarem, em defesa dos interesses de sempre da Casa Grande,  que nossa pauta de exportação está repleta de produtos primários ou de extração mineral. Dizem esses enviados do olimpo cepalino que teríamos que exportar produtos de alto valor agregado, como se o que aí está fosse obra do acaso e um jeitinho burocrático pudesse endireitar o que já nasceu torto. Na contramão dessas exportações, estaríamos importando produtos de pouco valor para os brasileiros, principalmente dos chineses. A saída estaria em se privilegiar a produção de produtos que agregam valores e quem sabe exportá-los.

Produto que adiciona valor agregado significa que a sua atividade remunera os seus fatores de produção numa diversidade e quantidade ”corretas”. Sabemos bem que as atividades primárias , após séculos de produtividade ascendente, geram riqueza e muita comida sem contar com mão-de-obra  em larga escala. Pelo contrário. A repatriação para as grandes cidades é o que se vê em todo o mundo. Já as extrativas apresentam uma maior complexidade, dada a sua especificidade provável e podem ter algum efeito positivo e interessante sobre o emprego e a renda.  Quanto à indústria, diriam os arquitetos do protecionismo descarado, carrega o germe da diversificação enriquecedora. Será que isso é ubiquamente verdadeiro? Creio que não.

O fato óbvio, já registrado em post anterior, é que a nossa indústria não carrega o germe da inovação produzida internamente. A nossa inovação transversa, em grande parte, se dá pela introdução do parque industrial completo e produzido no estrangeiro. A complexidade deste pacote que, em quase nada é fruto de nosso esforço intelectual , vem trazendo aborrecimentos aos gestores locais. Com efeito, os nossos engenheiros estão se transformando em tradutores de manuais. O sucateamento corre solto e já está chegando a fase de se ter que importar até tradutores de manuais de montagem ou operacionais.

Restaria ainda, para completar a análise estratégica de desenvolvimentistas de gabinete, a tal da linkage pra frente e pra trás que esses setores supostamente dinâmicos poderiam efetivamente gerar, contribuindo de forma amplificada para o aumento da renda agregada.

De qualquer forma, seja a nível setorial específico ou por suas ligações encadeadas pra frente ou pra trás, só uma análise detalhada da relação entre o valor adicionado, em medida aceitável da produtividade do trabalho, e o pessoal ocupado é que nos poderia de fato revelar em que direção estaria indo a produtividade de todos os setores que possuem algum tipo de link. Poderíamos, de forma alternativa, checar o estágio do sucateamento industrial, verificando se a massa salarial em relação ao valor adicionado estaria aumentando ou diminuindo. Uma diminuição dessa participação poderia indicar um 'empobrecimento' coerente como o modelo de subdesenvolvimento que postulo. Infelizmente, os dados para tal comprovação requerem um tratamento detalhado como propõem os contadores em seus demonstrativos do valor adicionado. O problema é que nem sempre as empresas, quando não são obrigadas a fazê-los, estão dispostas a nos fornecer informações gerenciais.

Se tudo isso se desenvolve em larga escala – o que demanda uma pesquisa in loco – poderíamos afirmar que a nossa indústria gera pouco valor agregado a partir do fator trabalho local. De fato, ao verificarmos que a nossa renda líquida enviada ao exterior cresce continuamente e que a renda familiar é simplesmente ridícula, não podemos nos espantar com a nossa dinâmica industrial. Ela tem que ser pobre e vazia.

 Se o que produzimos é de pouca exigência inovativa local e tem pouco link interno, o que se dirá do link externo, salvo o link global de se importar tudo para se produzir internamente, sob a égide de uma politica protecionista que se estende ao Mercosul? Este link externo dependente tem que se revelar vazio em sua importação para os trabalhadores e quase completo para os rentistas (não posso afirmar que os nossos empresários possam ser classificados como tal. Outra terminologia mais depreciativa me ocorre recorrentemente). De fato, com renda familiar miserável e empacotamento industrial a torto e a direito, só poderíamos importar bugigangas chinesas. Para importarmos coisa sofisticada ou de alto valor agregado , teríamos que sê-lo. Quando se tenta fazê-lo, somos impedidos, quer pela burocracia secular, quer pela nossa própria ignorância que se aprofunda cada vez mais. Então para onde irão nossas importações, em arranjos coerentes que o modelo da Casa Grande & Senzala impõe? Apenas para um canal: o de manter o parque industrial alienígena funcionando. Se as bugigangas aumentam em prejuízo às importações ‘estratégicas’, as tarifas oportunas são acionadas. Com isso, vamos aumentando a nossa desigualdade social, tornando-nos todos iguais em pobreza, principalmente a de espirito, já que os que chegam hoje ao mercado de trabalho não puderam desfrutar de um mundo diferente e melhor que foi o Brasil de ontem. Se a velocidade de que tudo piora só aumenta, eterniza-se o modelo de subdesenvolvimento e feliz de quem morre hoje.   





Comentários

  1. Como voce poderia garantir que o sucateamento acontece em todos os setores?

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  2. De fato, não há uma maneira trivial de fazê-lo. O correto seria fazer uma pesquisa empresa por empresa (amostra) de cada setor, indagando o seguinte:
    a) as máquinas e equipamentos são importadas? Se não, as empresas que as fornecem são também empresas que importam seus parques industriais?
    b) há que tipo de financiamento para a aquisição de maquinas?
    c) a mao-de-obra qualificada - engenheiros e tecnicos - em seu quantitativo, aumentou ao longo do tempo? E a sua remuneraçao, em termos de salários mínimos, aumentou ao longo do tempo?
    d) existe exportação para países desenvolvidos?
    e) qual a comparação em termos de pessoal e sua remuneração com as congeneres estrangeiras?

    O que importa é que a dinâmica da industrialização teria que ser gerada internamente. Se sempre estamos importando máquinas, estaremos sempre pagando para estar no topo da linha moderna. Claro, se existem financiamentos de pai pra filho, como os do BNDES, então o modelo pode sobreviver. Mas quem paga a conta é o povão.

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  3. Vale ou não termos essa industrialização?

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  4. Respondendo ao questionamento se vale ou não termos a industrialização que sempre tivemos: tem que passar pelo teste da abertura da economia (redução das tarifas de importaçao e redução das exigências burocráticas) e fim dos subsídios.

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