É do DNA ser assassino?

DA NOVELA AMOR E REVOLUÇÃO




Carlos Eugênio da Paz (clemente)
A verdade onde se acha?

Desde garoto sempre tive um pé atrás com os assim chamados revolucionários, carimbados como terroristas pela ditadura militar – outros iguais àqueles. Me perguntava, por que por em risco minha vida por uma causa que não era essencialmente minha? Eu sempre fui classe média. Não sei o que é a fome. Fora a minha ignorância, nunca soube o que é ficar sem escola. Para piorar, não sabia bem onde estava o erro da ditadura militar, exceto o erro escancarado de ser um regime que tirava sobretudo a liberdade política. Só muito tempo depois  descobri o que de fato era a ditadura militar: uma ditadura essencialmente econômica, tal qual é ainda hoje, imaginada desde 1932 e que pode encontrar sua trajetória triunfal com o suicídio de Getúlio Vargas. O seu ato heroico de por sua vida à causa do povo brasileiro retardou o mal perene apenas por 10 anos. Mesmo hoje , pelos depoimentos que já consegui sobre esse período da ditadura militar de 1964, vejo que muitos articulistas e personagens políticos importantes, a quase totalidade, não conseguiram identificar o verdadeiro inimigo. Pra variar, ainda os elegem como exemplos a serem seguidos. Fico crente e me sinto envolto em estupidez que não se evade.

Cresci no ambiente da ditadura militar e não sabia o que era ter uma participação política partidária.  Brasília, cidade onde cresci, não tinha representação política. Claro, era muito melhor do que temos hoje. De qualquer forma, aprendi, na minha adolescência liberta, o que era não poder se expressar politicamente de forma clara e transparente. Enigmas e metáforas invadiam o nosso imaginário, afastando-nos de nossa realidade verdadeira. Ter ideais simples, expressando  um desejo inibido de uma atuação verdadeira, feita simplesmente com amor, era o que me motivava.  Mas olhando os interesses pessoais a comandar de fato as atitudes das pessoas indagava: como acomodá-los? Não vi respostas. Poucos eram os parceiros para isso, até porque não sabia de mim mesmo, em essência construtivista. A minha vocação essencial era e é a de fazer política transparente, com pouca ideologia. São as questões de fato que  sempre me interessaram. Quero saber dos assuntos. A maioria dos que gostavam de política optaram pela ideologia, a capa. Os meus iguais, em inquietação intelectual latente, talvez estejam em outra dimensão, ocultos pela acidez que nos envolve ou talvez tenha eu despirocado há muito, por experiências fugazes com cogumelos do serrado.

Não reivindico nenhuma originalidade e assim tenho que confessar o óbvio: aprendi muito com meus erros. O tempo, senhor dos meus ensinamentos, foi um bom parceiro. Com uma pitada de bons amigos, minhas idéias foram se aclarando, moldando-me ao longo do tempo, como de fato me imaginara desde garoto. Hoje, vejo claro que, se tivesse intentado um voo político em adolescência perdida, teria alcançado o fracasso retumbante. O inimigo estaria ao meu lado.

É triste ver que os meus inimigos de sempre estão assumindo assento de falsos libertários, reivindicando um papel que não tiveram. Pelo contrário, a atuação desse grupo aguerrido, movido pela adrenalina excessiva que carregam em seu DNA assassino, foi nada positivo para o combate à ditadura militar. Lançaram-nos às trevas do obscurantismo, tornando mais dura e cruel a luta dos homens simples e de bom coração.

Para o bem ou para o mal, o golpe à ditadura duradoura teve apenas um alvo: o câncer político. Foram os homens de bens que, com a dimensão da tolerância, fizeram essa travessia penosa, custando-lhes caro, principalmente no tocante às suas vidas pessoais. Lutaram de peito aberto e sem armas.  Quando intentaram o projeto do poder político, com vistas às mudanças no padrão econômico, foram simplesmente eliminados e creio com a ajuda substancial desses que se desarvoraram em ser Deus (das trevas). Hoje poucos sabem quem foram esses homens verdadeiramente briosos, confundidos com oportunistas reles que aproveitaram o momento certo para mudarem a casaca, fiéis aos seus patrocinadores de sempre.

Você que me leu do início ao fim deve, certamente, me perguntar: o que me motivou gastar tanta tinta. A resposta, simples e direta: a repulsa latente aos homens programados para matar. Foi isso que Reinaldo Azevedo escreveu sobre o chefe da gang da ALN. Um simples assassino. Este tipo de gente não têm ideologia. Não têm uma causa louvável. Têm simplesmente um DNA voltado para a guerra. Aqueles que nasceram para uma luta libertária, de peito aberto e que, temendo todos os tipos de violência , mesmo assim topam o embate com animais, hoje, treinados com a decepção e a traição, não deixariam de notar o perigo que nos ronda e certamente não se calariam, em protesto educativo. Seguindo essa trilha libertária, em meus limites de angústia e medo, não posso deixar de notar o óbvio.  Aqueles malucos que ontem se travestiram de terroristas,  agora que,  por vias tortas, chegaram ao poder, querem o status de heróis.  Quem acompanhou a luta democrática de longe, observando todos os personagens em embate violento, sabe bem quem tem ou quem teve, em seu  coração,  a mensagem da mudança de rumos em que todos pudéssemos crescer, mesmo envolvidos em confusões de todos os tipos. Não terão tais insanos, com os aplausos do tempo por dedicação verdadeira e honrada, lugar merecido na história. São a escória revolucionária.

Junto-me àqueles que querem um mundo justo. Não à dimensão simplista de que todos somos iguais. Mas à dimensão de que quem quer faz acontecer, sabendo o que ganha e o que perde e, principalmente ,o que está disposto a doar aos mais desamparados.

No fim do túnel, posso estar trilhando um caminho torto ou até mesmo errado. Digo apenas que estou preparado para  uma boa lição. Que me digam qual a verdade verdadeira! Irei pensar sobre o assunto. Sempre!  Creio, ardentemente, que, em meu DNA traçado pelos meus antepassados, esteja escrito algo diferente do que consta em epítetos esquecidos de homenagens vazias. Quero , juntamente com muitos, ter a pretensão de saber o que é certo para mim e para os demais. Contudo, apenas sei o que é certo para mim e para os meus que verdadeiramente me amam. Se você se sente desamparado tanto ou mais o quanto me sinto, pode estar certo que nos encontraremos numa dimensão factível para o embate de homens de bom coração. O que isso nos custa e nos custará? Sabemos exatamente quanto.




Comentários

  1. Tribunal de exceção - eles foram juízes de si mesmos e dos outros que não puderam se defender. Esse o verdadeiro crime desse indivíduo.

    Julio M

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