Instituições: vêm da “elite”!

Instituição é uma palavra que vagueia em busca de suas implicações econômicas e sociais, atormentando intelectuais de todos os naipes. Lembrando North, as instituições podem ser interpretadas como sendo as regras de um certo jogo, que determinam o que os jogadores podem e não podem fazer. A perspectiva crítica geralmente empregada pelos analistas institucionais, em suas análises da dinâmica do desenvolvimento econômico, atém-se aos custos de transação. Esses, comos sabemos, empurram as empresas à esfera da ineficiência. Entretanto, há algo mais que poderemos enxergar no funcionamento das instituições. Usarei uma moldura teórica bastante simples: uma economia com um quadro idêntico e ubíquo. 

Nesta economia elementar temos uma   “elite“ que faz as regras, um executor dessas regras e um grupo de consumidores. A nossa economia restringe-se a uma praia, existindo diversas praias que podem representar países ou regiões. A elite estabelece uma regra para os salva-vidas de uma praia (o executor): não deixem os banhistas se afogarem! Embora a regra seja a mesma para todos os países, elas têm que ser críveis e para isso demandam estratégias próprias que poderão diferir de país para país, ou seja,  as regras não variam de praia para praia, apenas as estratégias, implementadas pelos executores - com a anuência,  orientação e compromisso com o cumprimento da estratégia pela elite -  é que variam.

Tomemos dois países com elites diferentes. Um é a Belândia e o outro é a Buzândia. Na Belândia, a elite define a seguinte regra: nenhuma vida humana poderá ser perdida. A Buzândia também define a mesma regra. Ambos os países contratam um salva-vidas para dar conta do recado. Não existe nenhuma outra diferença entre os países. Ambos os salva-vidas são idênticos em sua dotação de capital humano, que envolve conhecimento básico e força física.

A regra, para ser crível, tem que imputar ao salva-vidas rotinas de procedimento que revelam o quanto se quer cumprir a regra maior – a política. Na Belândia, se estabelece o seguinte padrão: é função dos salva-vidas contar quantas pessoas estariam na praia (na areia e dentro d’água) e quantas dessas estariam fora da praia (na areia). A diferença tem sempre que corresponder ao número de pessoas dentro da praia (na água). Havendo diferença, inicia-se a ação de busca. Regra essa que consome energia mental o suficiente para impor um carga máxima de trabalho de apenas 3 horas por dia nos finais de semana; ocasião em que a praia fica cheia. O contrato de trabalho , então, só pode ser estabelecido para três horas.

Na Buzândia, a principio não se estabelece, fora a recomendação de que vidas são importantes, rotinas de ações específicas para os salva-vidas. Eles foram treinados apenas para tirar da praia pessoas que estariam se afogando. O contrato de trabalho para os salva-vidas tem duração de 8 horas diárias e o trabalho é menos extenuante do que os dos salva-vidas de Belândia que só trabalham 3 horas por dia.

Claro , acidentes acontecem o tempo todo. O resultado teórico é que em Belândia nunca houve acidentes fatais, porque as ações empreendidas sempre partiram dos salva-vidas que constantemente se antecipam aos reclamos dos familiares ou mesmo das vítimas.

Em Buzândia, vários acidentes fatais foram registrados nos últimos cinco anos. O socorro, em todos os casos fatais, veio com atraso e os salva-vidas sempre foram requisitados. Nunca houve uma ação pró-ativa dos salva-vidas.

A pergunta que poderíamos fazer é simples: Em qual dos países o salário dos salva-vidas é maior? A resposta intuitiva é imediata: Belândia. Qual a razão? A razão vem da regra de comprometimento efetiva definida pela elite , que, no fundo, expressa que a vida humana tem valor muito alto , beirando ao infinito. Ninguém pode morrer por causa tola. Mas para isso, há de se definir o ‘modus operandis’ tal qual fizeram os moradores de Belândia, de forma a se garantir que de fato ninguém morra e isso exige muito dos salva-vidas. Em outras palavras. A função de produção, que estabelece a produtividade marginal do trabalhador, está presa às regras básicas, definidas pela elite. É o valor efetivo  que se dá ao ser humano que determina, no final da linha, que tipo de esforço e ação têm que ser empreendidos. Em Belândia, o salva-vidas, ao final do seu turno de trabalho, fica extenuado, porque colocou o seu cérebro em funcionamento o tempo todo e assim é bem remunerado. O resultado paga o seu salario.

Como existem outras praias em Belândia, o salário de mercado tem que ser igual no país. Atividades que demandam menos esforços receberiam menos e assim uma estrutura salarial seria estabelecida em toda Belândia. No final das contas, Belândia teria preservado o seu estoque de capital humano, já que nenhuma vida se perde de forma tosca.

Mas o que acontece em Buzândia? Como houve mortes fatais, o valor da vida humana não pode ser muito alto. A elite local não deu valor suficiente a vida, tanto que não se preocupou em definir rotinas que permitissem garantir ações pró-ativas. Isso também fez com que os salva-vidas locais só se esforçassem quando demandados, o que acontece apenas ocasionalmente. Dessa forma, a turma de Buzândia, embora trabalhe 8 horas por dia, consegue sair do trabalho sem sinais de cansaço; até mesmo quando , de fato, socorrem um banhista em apuros. O mesmo vale para as demais praias de Buzândia. O fato é que teremos uma estrutura salarial parecida em toda Buzândia e de menor valor do que acontece em Belândia.

O engraçado é que mesmo que as praias de Belândia sejam artificiais ou tenham atrativos naturais desfavoráveis relativamente à Buzândia, os salários em Belândia, ainda assim, seriam maiores do que os de Buzândia. A razão é que a função social (definida pela elite) continua a valorizar de forma crível a vida humana na estratosfera. É este compromisso que define a verdadeira função de produção que , por sua vez, definirá a verdadeira produtividade do trabalho. Como sabemos, é a produtividade que tem que comandar os salários.

Nós de Buzândia bem sabemos que, indo de baixo pra cima, nossos salários são baixos;  trabalhamos de forma ineficiente e a nossa elite valoriza muito pouco nossas vidas. Basta ver quantas pessoas morrem no final de ano em nossas estradas. Muitas delas, imaginando chegar, em seus carros de pouca segurança, viajando em estradas esburacadas e sem fiscalização, às praias encantadoras do país, encontram cedo o caminho do céu. Outras tantas, de qualquer jeito, ainda morreriam afogadas com ou sem salva-vidas. Afinal, temos que reproduzir a mentalidade dominante e certamente tomamos riscos demasiados, bebendo muita cerveja e fazendo estrepulias nas praias poluídas de nossa Buzândia mui amada.

De fato, a taxa de desconto intertemporal do povo brasileiro é muito alta: queremos consumir hoje e agora e que se danem os que ainda não chegaram. É essa taxa que pondera corretamente o quanto pensamos em nosso futuro. Quanto mais alta, mais baixo o valor que damos ao futuro, valendo mais o presente aqui e agora do que o amanhã próximo. O engraçado é que, no final das contas, é ela quem comanda toda a economia. Em outras, palavras: o amor que efetivamente exercitamos dia a dia tem seu preço. Por aqui, ele é baixo! Somos criados, ao invés de cidadãos.




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