Cidades - Feias e belas


Não há duvidas de que somos caipiras. Mais do que caipiras, somos elitistas, mesmo sendo pobres e ignorantes. A exclusão e o planejamento toscos, reforçados pela mídia igualmente elitista e pra lá de tosca, em desvio sacripanta de nossas atitudes, permeiam nossos pensamentos, deixando-os mais tortos do que já os são naturalmente. Por isso, proponho, pela palavra, uma mudança de paradigma urbanístico, numa catarse coletiva, em nome da simplicidade, falando claro a um público atento , na tentativa de convencê-lo, mesmo que seja um pequeno grupo, de que há uma boa forma pra se viver – não deixar que os bairros morram. Nada de novo em minha pregação, pois, como disse, somos caipiras.

Para isso, vou começar excluindo. Jogo fora, em primeiríssimo lugar, os políticos, em hierarquia reversa, dos vereadores ao presidente do FMI. Para fechar o círculo do rompimento, assumo a ideologia militante exclusivista do papa Bento – só me interesso por praticantes verdadeiros – os que têm fé legítima. Basta de falsos seguidores!

Comecemos (e terminemos, porque o espaço é curto) pelas idéias básicas – o bairro. Essa é a unidade micro fundamental de nossas cidades. É no bairro que encontro meu espaço cotidiano. É nele que encontro meus vizinhos e os transeuntes desconhecidos e não raro os conhecidos. Exerço minha cidadania em sua plenitude, respeitando a diversidade e aceitando as diferenças. Quando tenho a alma limpa, aceito até a pequena diversidade incômoda, como o pequeno desacato às minhas regras provincianas. Tudo isso e mais que possamos imaginar é que dá vida ao bairro. A diversidade é que gera o pequeno burburinho e é exatamente isso que nos traz o aconchego social, protetor e solidário. É fundamental, portanto, que encontremos pelos bairros os sinais de sua verdadeira existência ; tudo o que disse acima e que se completa com outras idéias próximas que outros melhor poderiam expor. Precisamos, portanto, ter, convivendo conjuntamente em nosso bairro, os bares funcionando preferencialmente 24 horas por dia. Precisamos de escolas. Precisamos da presença do Estado, quer em suas delegacias, postos de saúde ou mesmo em sua burocracia que não entendemos bem em que é útil. Se nos aceitamos felizes e ricos, queremos jardins e até museus.

Veja que, por aqui, isolados que estamos, está cada vez mais difícil encontrar tal bairro modelo. Veja que os bairros sem vidas são aqueles apartados, isolados e quase que completamente desertos. Falo, principalmente, dos bairros chiques de São Paulo que todos bem conhecemos, com o exemplo típico e campeão do isolamento: o Morumbi. É ali tudo triste e soturno. É tudo isolado, como se isso trouxesse segurança. Ledo engano. O que traz segurança é a diversidade. É o colorido das pessoas. É o ritmo frenético nas ruas a qualquer hora ou a qualquer momento. O que é bacana, nos agradáveis e verdadeiros bairros, é, ao sair de casa, termos a quem dar bom dia ou lançar um simples olhar, malicioso que seja, aos pedestres anônimos. E o mais gostoso de tudo: tomar um cafezinho no boteco da esquina, num verdadeiro cumprimento fraternal ao dia que , em sua repetição perene, se inicia.

Mas o que fazem os políticos, aproveitando-se de um desvio intelectual urbanístico que há muito deveria ter sido enterrado e chutado, em nome de uma urbanização “moderna” ? Praticam, em isolacionismo completo, tal urbanismo, segmentando a cidade. Ironicamente, alguns dizem até que se trata de planejamento. É o que querem fazer, agora, em repetição da mesma novela sem personagens vivos, com o Itaim, alienando parte considerável dos terrenos públicos, em troca de um pequeno butim. O desideratum dessa política apressada é previsível: mais espigões, menos diversidade e mais isolamento. Tudo parece um paradoxo esdrúxulo: ficarmos isolados numa mega cidade!

Junto-me, com alegria, ao casal solidário do Itaim que prega abertamente: Desapropriaçao não! Contudo, precisamos mais do que faixas. Precisamos de mais atitude. A principal é a busca da justiça, através do Ministério Público, conforme apregoa a Constituição. Não preciso repetir, mas o farei assim mesmo: precisamos de parceiros e praticantes da cidadania verdadeiros, tal qual o nosso santo papa exige para o seu rebanho. Só devemos nos unir, se verdadeiros formos, principalmente em nossos interesses. Eu quero um bairro desse jeito que falei, distante dos Corbusier e visões “modernistas” , tal qual ele ficou de si mesmo em sua pregação urbanística futurística. Cidade é sobretudo passado, em que o futuro não a degrade. Isso para mim é que é o belo. O feio está por todos os lados, neste terreiro chamado Brasil.





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