SACOLEIROS, AVANTE.....

Se tem algo caótico no Brasil isso vem , certamente, da mentalidade da Casa Grande & Senzala que enevoa nossos pensamentos.  Os exemplos acontecem o tempo todo e, pra deixar as coisas como estão, têm de ser repetidos em frequência torturante. Falo, em exemplo atual, da perseguição aos brasileiros que fazem compras no exterior, os gloriosos sacoleiros. As razões, para tamanha maldade, estão ancoradas em três pilares: o desconhecimento da força do câmbio flutuante, a empulhação do modelo de substituição de importação e, subjacente a esses elementos práticos, a mentalidade tacanha da classe média a embotar ideias.

Lembro-me bem da ocasião em que o regime de bandas cambiais foi pro beleléu: as reservas esvaíram-se, em verdadeiro ataque especulativo, e não houve outra alternativa a não ser de o câmbio flutuar; ele o fez na marra – a opção por câmbio fixo decretaria o final do plano real, com recessão e inflação. Ganhamos. Os maniqueístas tiveram que perder um grau de liberdade; ganhamos vários. Está aí o câmbio flutuante a criar problemas à estratégia de juros escorchantes. Esta aí o câmbio flutuante comunicando o mercado interno com o resto do mundo. Está ai o câmbio flutuante a fechar a conta do balanço de pagamentos a todo instante. Porém, esse é o ponto nebuloso na opinião pública: os jornais registram déficites aqui e acolá nas contas externas. O que os jornais não dizem é que isso não é relevante: o ajuste nos preços, ou seja, no câmbio, é o mecanismo de superação desses problemas. Para a nossa glória, nem o Malan acredita mais que o câmbio explodirá, até mesmo em momento de crise. A ignorância e a estupidez, quando se juntam, tornam o quadro menos dramático, porque exala picardia pixotesca. Foi o Malan berrando em 1999,pelos corredores do Banco Central:  o câmbio vai explodir...! Bateu em três e pouco e depois declinou em pulsos. E o Malan é passado esquecido.

A outra mística também tem brasões da enganação: Maria da Conceição Tavares e Celso Furtado. O Brasil, para eles, teria que se industrializar a qualquer preço. Está aí, em prova material da tese tantã, ancorada em estatística mequetrefe de termos de troca desfavoráveis, uma estrutura industrial completamente alienígena, dependente de proteção ad infinitum dos governos que se sucedem em monótona visão do progresso material. Agora, com o câmbio flutuante, os flancos esquerdo e direito foram atacados. Como tudo aqui é extorsivo, é bem mais barato, para compras providenciais, pegar um buzão aeronáutico para as estranjas e , de quebra, conhecer o que é cidadania e cidade decentes. De fato, a arbitragem, mesmo em pequenas compras, tem que funcionar, apesar das saídas estarem constantemente vigiadas; basta uma pequena fresta para que a força do mercado atue. O câmbio flutuante irradia essa possibilidade. 

Infelizmente, tudo isso me faz lembrar aquela história ridícula do ioiô da época Dutra: as reservas teriam se esvaído por nada, embora as estatísticas apontem que os empresários, em substituição de importação tosca, tenham ficado com a parte do leão. É o terceiro elemento que completa o ciclo da opressão política e econômica, tão bem caracterizados por Gilberto Freire e repasteurizados alhures por Douglass North, em seu enfoque institucional-cognoscitivo da história econômica dos países. A mentalidade casa Grande & Senzala tem que funcionar mais fortemente em cima da classe média.  

Quero estar de malas prontas e bem vazias, para repor meus estoques de meias e cuecas italianas, flauteando em plagas decentes, em arbitragem coerente pelo câmbio flutuante. Você, da nova classe média, não quer?  





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