Como cortar o rabo de um cachorro – artigo de Chico de Oliveira de 1975 que ressuscito.

Trata-se de um artigo raivoso que pega pra Cristo o prêmio Nobel Milton Friedman que seria agraciado com tal honraria um ano depois da publicação desse artigo apócrifo de Chico de Oliveira. Desnecessária a análise literal do texto, até porque poderia incorrer no mesmo pecado da agressividade desmedida. O que me interessa discutir são os aspectos subjacentes ao discurso de Chico de Oliveira: o ranço ideológico e a falta de rumo para a oposição legítima que se encerrava na atuação exemplar dos Autênticos do MDB.

O artigo de Chico Oliveira trata de comentar a prescrição de política econômica feita por Michel Chossudovsky , laureado economista que escrevera um artigo sobre o novo modelo econômico chileno, em substituição ao projeto socialista de Allende que afundara por conspiração e golpe do ditador Pinochet. Por ter o programa inspiração liberal, associou-se o nome de Friedman ao projeto chileno desenvolvido por economistas treinados nos EUA ou de formação neoclássica, como a minha. A proposta de Chico de Oliveira, rotulada como de esquerda, insiste que uma economia de mercado  tem que ser substituída por uma planejada e estruturada em   industrias ao invés de produtos primários. No caso do Brasil, como não temos capital físico, humano e financeiro, o Estado deve ser convocado para preencher a lacuna da ignorância e da pobreza. De fato, duas visões antagônicas. Mas onde está o problema?

Analisando o texto do ponto de vista lógico e dentro do padrão rotulado como cientifico, ele é um fiasco, até porque contém inverdades. Entretanto, diria que no campo da guerra ideológica ele poderia ter efeito prático e portanto valor para ambos os lados; para um certamente negativo. É o que  suspeito. O problema grave é que muitos foram ludibriados.

O artigo em tela foi escrito no Jornal Movimento que tinha a participação efetiva dos Autênticos do MDB, com Chico Pinto, um dos ícones do grupo autêntico, tendo papel importante na editoria do Jornal. É bem sabido que os Autênticos do MDB foram todos abatidos do sistema político, tal qual ave estranha e rara perseguida por predadores vis. Homens de bens não poderiam, de fato, participar dos partidos políticos que estavam se consolidando, porque, como hoje se demonstra, são todos covil de bandalhos assumidos. Chico Pinto e a esmagadora maioria dos autênticos e neo-autênticos preferiram a solidão do que ter que conviver com os políticos velhacos de ontem e  de hoje, morrendo na solidão do anonimato e homenageado em exéquias apenas pelos amigos autênticos, como se deu na missa de 7º dia de Chico Pinto que contou com a presença de Paes de Andrade, Margondes Gadelha e poucos outros que não posso testemunhar.

Creio que uma das razões para o desaparecimento do grupo autêntico tenha sido exatamente a falta de coerência pelo grupo na identificação do problema econômico fulcral: o distanciamento das políticas públicas que preservem o padrão competitivo. O envolvimento promiscuo do governo e empresas não poderia ser questionado. A redoma de esquerda em que envolveram a turma cepalina, em que Celso Furtado, Conceição Tavares e Chico Oliveira são a melhor expressão para o engodo intelectual e político, isolou o debate salutar. De fato, escamoteou-se o verdadeiro modelo do compadrio que ainda é dominante. O inimigo dormia na mesma cama.

Depois de mais de 35 anos chega a ser até irônico conferir o infundado vaticínio de Chico de Oliveira: o Chile se proletarizaria. Porém, mais engraçado é os Autênticos do MDB não terem identificado que o discurso de Chico de Oliveira era, no final das contas, o mesmo que o de Geisel e de sua turma de planejadores. Claro, a mácula de ditador não permitia a turma cepalina expor claramente suas ideias pró-industriais. Isso sem falar no que deu esse modelo de substituição de importação: pobreza e concentração de renda.

Não sei mais o que Chico de Oliveira pensa e nem se está vivo. Pode ser até que ele também tenha sido enganado, o que duvido. 



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