O teste para identificar o economista ruim: adequabilidade de suas hipóteses à realidade

Hoje , em minha detecção da bagunça coerente pela leitura matinal dos jornais (Folha de São Paulo 03/08/2011), me surpreendo com artigo semanal de um economista renomado, que, paradoxalmente, inicia seu texto com o metro do que não é ser um bom analista. Diz ele: “Analistas que se pensam portadores da “verdadeira “ teoria econômica fizeram duras críticas às medidas... anunciadas pelo Ministro da Fazenda”.  Dando continuidade a sua análise um tanto confusa, registro o que acrescenta: “As críticas mais ferozes, entretanto, foram fundadas numa proposição absolutamente infundada: que a liberdade de movimento de capitais está implícita na natureza das coisas, como as “vantagens competitivas”. Depois emenda seu ponto dizendo que “ ... com relação ao comércio de bens, a teoria das vantagens comparativas é pouco mais do uma relação aritmética.... em segundo, porque a sua extensão ao movimento de capitais é ...despropositada.” 

Vamos aos pontos. Na análise de qualquer texto devemos fazer considerações éticas e lógicas. Em relação a primeira, dada a prescrição provável , não há sentido prático em fazê-la. Fico apenas com a segunda que tem em Robert Lucas o caminho para a trilha de se fazer um bom trabalho em economia. Ele nos ensina, pelos diversos trabalhos publicados , que não existe uma teoria econômica “correta”. O critério final é a adequação à realidade do modelo proposto. Várias seriam as possibilidades; o que descarta de cara a tese de que alguém poderia ser portador da verdade. A bem da verdade, é tudo tão precário em economia que a prudência, caldo de galinha e humildade ubíqua é a regra dos bambambãs. De fato, não há verdade em teoria econômica. Tudo pode ser fugaz.

O autor do texto acusa outros de prática econômica miserável, em estratégia no mínimo esperta,  sem que possamos saber quem são, porque não dá nome aos bois (eu não dou aqui, porque ele está implícito para aqueles a quem me dirijo e não quero dar cartaz a quem é responsável pelas piores práticas de política econômica que o Brasil já teve em todos os tempos) . Se o uso da economia é amalucada, façam o que fiz: chame o maluco de maluco.

Para completar, lança o Autor sua teoria conspiratória, ao responder , didaticamente, sua indagação: “O que revela a ampla, geral e irrestrita liberdade de movimento dos capitais? Apenas que ela, devido à flutuação do comportamento dos intermediários financeiros internacionais e da sua tendência à imitação e ao comportamento de  “manada” , cria movimentos destrutivos de “euforia” e “depressão” que perturbam as economias que, por motivos reais ou imaginários, escolhe como “bolas da vez”.

Esse emaranhado de palavras do Autor “sub judice”  é porcaria econômica do início ao fim. Mas ele tem um condão ideológico que reproduzo nas palavras do mago “Compromete a sua política monetária e retira da taxa de câmbio o papel decisivo de “preço relativo” que mantém em equilíbrio o balanço em conta-corrente.”

 Os erros em aritmética econômica são óbvios. Como qualquer estudante de graduação de economia sabe, um regime de câmbio flutuante faz exatamente o contrário do que foi dito: dá liberdade de política monetária ao Banco Central, na crença de que apenas podemos ,se é que podemos, resolver os nossos problemas. O dos outros, só retaliando que certamente terá volta, em soma zero ou negativa. Quanto à ideia de que a movimentação de capitais livres inviabiliza o papel decisivo do câmbio em retratar “preço relativo” é algo simplesmente descabido. A flutuação do câmbio , em trajetórias descendentes ou ascendentes firmes, de fato pode mudar a situação para certos grupos e os que perdem chiam. As perdas ou ganhos não são certos,  porque os preços internos deveriam se alinhar, em benefício de todos, aos movimentos do câmbio. O que um economista se perguntaria é : a) temos alguma parcela de responsabilidade em termos de prática de política econômica interna ?  b) os movimentos nos preços internos estão coerentes? c) se, pela falta de adaptação dos preços internos pela rigidez específica da economia,  a oscilação é inevitável e duradoura? d) se a soma das oscilações cambiais para o país, ao invés de neutra como se espera,  é positiva ou negativa? e) sendo negativa, há algo para ser feito, principalmente para que se retire a rigidez da economia ou a revogação ou revisão de medidas de política econômica? f) se houver algo para ser feito, quem arcará com o ônus ou g) é possível ou aceitável  compensar quem perdeu ? 

Finalmente, há o erro trivial de achar que o balanço de pagamentos num mundo de regime de câmbio flutuante não está em equilíbrio o tempo todo, com os preços ( o próprio câmbio)  fazendo os ajustes, havendo alguma distorção. Não nos esqueçamos , o Autor em questão foi responsável por uma das piores medidas de política econômica que a nossa história de política econômica mequetrefe registra: a famigerada maxidesvalorização cambial, quando ainda tocávamos a banda sob a batuta do FMI e da ditadura militar. Medida que certamente enriqueceu poucos e valeu a demissão, em órgãos públicos, de quem denunciou a trapaça governamental.

Outro quesito importante é que não podemos julgar um trabalho fora do seu contexto próprio e limitado pelas suas hipóteses. Querer empregar uma teoria para dar conta de resultados onipresentes, não apenas em todos os lugares, mas também em todas as épocas é abusar da falta de bom senso.  No caso específico do comércio internacional, bem sabemos que existem diversas teorias que procuram determinar não só o padrão do comércio de bens entre os países, bem como sobre as movimentações de capitais financeiros entre eles. Querer fazer valer uma teoria para todos os tempos e todas as situações é exercer quiromancia, em nome de uma religião que não pode esconder seu verdadeiro culto: o do lobby travestido em ciência. De outro lado, para tudo piorar, como fez o Autor do artigo que condeno, temos ainda o mau hábito de se inventar teorias não testáveis. Que não se iniba a especulação ou a opinião! O que não se pode, quando opções testáveis existem por todos os lados,  é vestir o manto sagrado da ciência nestes termos precários de argumentação.

Já no mesmo Jornal, noutro caderno, encontro outro economista a tratar do mesmo tema. A diferença é que neste outro artigo ele apresenta seus testes empíricos e quem quiser que os refaça. Encontro lá , em suas hipóteses para tratar da questão cambial, a que me parece a mais provável: o diferencial dos juros. Só não sei o peso que ele dá para o componente juros, porque não especificou em seu artigo. Certamente não me darei o trabalho de conferir, porque, como sei das precariedades em economia, tenho que quase invariavelmente me valer de minha intuição para me posicionar no plano político. O que sei é que um merece o título de economista e o outro de fanfarrão.




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