Proteção a quem mesmo?

Gostei do debate suscitado a partir do discurso incongruente do ministro da fazenda, quando anunciou medidas de política econômica protecionistas. Do seu púlpito da rapinagem oficial, pregou aos quatro cantos, tendo inclusive defecção inusitada, que os importados estão prejudicando a indústria nacional, roubando-nos emprego. Conversa fiada que os blogs denunciaram. O objetivo óbvio é a manutenção do lucro cartorial.

 Acho que os blogs estão contribuindo e muito para a mudança da mentalidade retrógada, principalmente no quesito nacionalista – mantra pra abrigar espertalhões. Não há dúvidas, pelo menos pra mim, que o modelo brasileiro é tipicamente o da pilhagem. Prática que pode parecer sofisticada em alguns casos como essa do protecionismo às indústrias nacionais. Contudo, encontramos exemplos banais a torto e a direito. BNDES é um desses exemplos triviais de se pegar grana fácil. O Banco do Brasil em sua prática de financiar grandes agricultores e grandes projetos, com subsídios escancarados, também é outro exemplo de pilhagem reles. Com o modelo presente, não vejo nenhuma razão para termos banco do brasil, caixa econômica, BNDES nas mãos dos burocratas. O pior é que se privatizarem, levarão de graça. Evidentemente, não admito a tese de que mesmo de graça é melhor. Corrupto tem que ir pra cadeia e quem alimenta corrupção também. Enfim,  a lista da pilhagem é grande.

Torço para que os blogs tragam mais argumentos e sugestões nessa linha que se encontra tardiamente com o livre comércio. Aproveito para indagar sobre o que está acontecendo com os países produtores de automóveis numa escala parecida ou até mesmo maior com a do Brasil, citando a Alemanha, a França, a Espanha, Japão, Coréia e a China. Como referencia isolada, poderíamos nos valer dos Estados Unidos. Informações comparativas entre o montante de emprego, o montante de investimento, o montante de empréstimos e o valor médio dos carros dariam uma boa pista para comparações didáticas. O resultado que espero encontrar é simples. No tocante ao emprego, os países sem práticas protecionistas e com ambiente de negócios minimamente competitivo devem ficar neste quesito oito a dez vezes a nossa frente, coisas na casa de um milhão de empregos, quando a nossa cifra está na casa dos cem mil. O montante de investimento pra mim seria uma incógnita, porque diversas considerações faria. A estrutura de financiamento aos automóveis outra incógnita, mas por simples desconhecimento dos dados. No caso brasileiro, a mão do governo é visível em financiamentos populares. Preço médio dos carros, isso é simples de verificar. O nosso sai, no mínimo,  pelo dobro; o que me leva a fazer uma conta trivial: se produzimos mais de dois milhões de automóveis por ano, mais de um milhão de automóveis é que estaríamos jogando no lixo do desperdício - impostos amalucados, royalties, juros, remessa de lucros, salários de sindicato, ineficiência a rodo, etc.  Naturalmente, esta grana jogada no lixo dá pra sustentar com folga toda a turma metalúrgica sindicalizada e muito envolvida com automóveis. Em política de seguro desemprego tupiniquim, a grana perdida daria para essa turma sindicalista de carteirinha fazer, com folga de tempo e de dinheiro, o que eles, no exemplo didático do Lulla, mais gostam: tomar cachaça e jogar conversa fora.

Se no final de tudo, alguém ainda achar que a política de se apoiar empresas que apenas usam nossos recursos para simples montagem de produtos, com o emprego de boa qualidade, numa dimensão muitíssimo maior do que o nosso de baixíssima qualidade, ficando lá nas estranjas, é benéfica ao trabalhador brasileiro, diria mesmo que o nosso trabalhador é completamente desqualificado. A estratégia alienígena poderia assim ser resumida: o primeiro mundo estaria exportando serviços típicos de latinos e os latinos sendo o que sempre foram. No fundo, justificaria a mentalidade coronelista que por aqui predomina, montando cartórios para extração de renda fácil, com o empobrecimento geral dos que estão fora das  “cloacas”.

Não tenho dúvidas que uma abertura comercial jogaria esta turma   na berlinda. A minha esperança é de que poucas montadoras restariam por aqui e teriam que optar por trabalho de qualidade ou máquinas de qualidade. Se, neste contexto hipotético de abertura comercial, nada fizermos em termos de melhoria educacional e ambientação competitiva, ficaríamos fazendo o que sempre fizemos: plantando café, cuidando de boi, extraindo minerais e produzindo coisas de pouco valor. Mas certamente estaríamos todos melhor neste mundo mais liberal do que jogando no lixo mais de um milhão de carros a cada ano.



Comentários

  1. Excelentes observações.

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  2. De fato, quando você ouve as palestras dos especialistas em mercado automobolístico proferidas nas escolas de comércia dos países desenvolvidos, e o que eles falam sobre o caso do Brasil, o que eles tendem a dizer é exatamente que o caso brasileiro é acima de tudo uma questão de fazer aquilo que o governo brasileiro lhe permite fazer e tentar tirar uma mordida do negócio. O mercado brasileiro é deprimido por definição dada a alta carga tributária em todos os sentidos e o "custo país" elevadíssimo.
    Estória bem diferente você ouve quando falam sobre a China e alguns outros similares...

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