1 por 1027

Quanto vale a vida de um simples cidadão? Quanto vale a vida dos outros? Quanto vale a vida do nosso irmão? Quanto vale a vida dos filhos dos filhos dos filhos de todos nós? É o que que quero saber. Essa é uma conta que não é difícil de se formular. A todo tempo encontramos exemplos didáticos da dimensão do verdadeiro amor. Hoje, tardiamente, descobri quanto vale a vida de um cidadão israelense para o seu próprio povo israelense: 1027 palestinos. Na contabilidade reversa, é fácil saber quanto vale a vida de um palestino.

Temos que ir mais longe para encontrarmos o sentido da vida. Talvez em Lutero, ou naquele que não aceita o inferno e o purgatório e muito menos o paraíso. O trabalho tem que ter um sentido visceral. Uma direção para nossas vidas, que pode ser acometida pelo medo e como pode. O sentido da vida certamente não estará no céu. Mas sim em Marte, Júpiter ou quem sabe, envolto em nossa ignorância abissal, mais distante ainda. A vida tem que ser concebida não para o paraíso ou o éden. Temos que ter firme um horizonte que nos ilumine em marcha forçada para o além; sem que nos inebriem com canções e poesias estéreis. Por vezes, a caminhada é fúnebre. Por vezes, alegre. Não é ,pois, a felicidade o fim último. É o trabalho insano que nos move ao infinito, em incerteza restritiva da recompensa fácil. Se lá no fim dos tempos e do mundo Deus estiver, saberá, em sua sabedoria celestial, nos aguardar pacientemente. Haveremos de fazer, nesta caminhada sem fim, um mundo diferente, na presunção de que é o melhor a se fazer.


Mas isso não é tarefa para qualquer um; há um elemento diferencial: o amor que só pode ser eterno se for possível estendê-lo ao infinito, através dos filhos dos nossos filhos e assim por diante. Para isso, temos que valorizar ao infinito a vida de cada um, sem exceção. Os religiosos fanáticos, em recompensa rápida, entregarão facilmente suas vidas, tanto quanto sacrificarão a dos outros em justiça divina. A vida nada valerá. Mantra que será percebido pelos que tudo querem a qualquer preço, enroscando o pobre e o perverso.


É a vida o que mais vale a pena. Temos que valorizá-la de forma infinita. É assim que vejo a civilização, refletida integralmente no Ocidente. É a física e não a religião que nos encanta; a nós ocidentais. Na impossibilidade de a tudo se explicar, a religião tem seu espaço no mundo ocidental. Mas jamais em fanatismo sacrificador. Há uma marca divisória, separando uns de outros, como, lá no início dos tempos civilizados, se deu com os que, apressados em tudo, seguiram as renas, indo chegar nas Américas dos índios adocicados. Os que resistiram a tentação, arquitetando um mundo melhor, em busca de uma definitiva saída à fome, pendendo para o que lhes pareceu mais verossímil, preferiram ficar na Europa; deu no que deu. Os europeus e os outros.


Resta saber o que, nós brasileiros, de fato, somos. Os americanos quando se defrontam com um louco que pouco respeita a vida, logo se unem, em multidão organizada, em defesa de suas vidas. Não hesitariam, para poupar suas vidas, em sacrificar seu algoz lunático. Lembro-me com tristeza de um depoimento de um general americano que, referindo-se a atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, disse: "jamais sacrificaria tantos soldados para conquistar um morro de pouca importância como aquele morro italiano tão reverenciado por vocês brasileiros"; o que me fez indagar, em oportunidade ímpar, a um general brasileiro de quatro estrelas, se não teríamos sacrificado em vão as vidas de nossos pracinhas que sucumbiram ingenuamente na segunda guerra mundial. A resposta: um silêncio e um olhar perdido no horizonte da vida. Hoje, sei; nós brasileiros valorizamos pouco nossas vidas. Morremos aos montes nas estradas, nas ruas, nas delegacias, nos hospitais e até mesmo nos presídios. E somos incapazes de lutar por uma vida infinita.


Como defensor do estado palestino, jamais me imaginei acordar com um pé israelita. Vendo nos jornais de todos os lugares do mundo a conta de quanto vale a vida para o israelense, digo, em minha leitura silenciosa da bíblia, simplesmente: SHALOM.


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas