Gisele e a política, e os burros

Procuro nos jornais algum articulista que tope a discussão (inteligente) sobre a censura, envolta nos casos Gisele e a novela Fina Estampa versus Secretaria de Política para a Mulher, representada por uma Secretária assaz ativista. Encontro neste domingo, no Correio Braziliense, artigo nesse preciso termo. O artigo é de Marcos Coimbra, “Gisele e a Política”. A surpresa é o efeito acachapante sobre minhas esperanças de um debate didático e ilustrativo do bom jornalismo.

Diz o articulista que, para se combater a medida censurante apoiada em boas intenções, a própria mídia valeu-se de recurso maldoso, acusando a turma midiática, dominada, segundo o articulista, por veículos assumidamente liberais, de preconceito pior: em coro, aproveitaram a oportunidade para atacar seu inimigo preferencial, o “lulopetismo”.  Evidentemente, a recíproca , nos próprios termos do articulista, também se aplica : o “lulopetismo”, em voz midiática representativa, isola-se no oceano liberal da imprensa brasileira. Não é por outra razão que a turma petista clama por censura em quase tudo. Dizem os ”lulopetistas”: a mídia desinforma.

Continua ainda, no ritmo monótono, o articulista em argumentação sedutora para a defesa da interferência estatal em veículos de comunicação, trazendo à baila comparação liminarmente esdrúxula. Fala, em defesa da interferência opressora do Estado,  hipoteticamente sobre uma propaganda que pudesse trazer dano à saúde, como a do lendário cowboy de Marlboro. Baniram de fato as propagandas de bebida e de cigarro da mídia, apesar de muitos ainda beberem e fumarem. Quem combateria ações estatais de banimento às más ideias seriam aqueles que jocosamente acusam a turma repressora de estarem agindo no contexto do “politicamente correto”. Vale-se, pois,  o articulista de recursos subliminares vis ao dar igual tratamento jocoso, taxando os jornalistas contrários à medida da Secretaria de Proteção às Mulheres de prática de um “liberalismo” característico de alguns segmentos da direita brasileira. Prossegue o articulista em sua argumentação logicamente primitiva: os liberais desavisados, expressos no conservadorismo radical, não admitem o que foi feito no mundo ocidental para civilizar a economia de mercado e a sociedade capitalista, freando suas tendências mais negativas e prejudiciais em última instância à sua sobrevivência, citando como bons exemplos da discriminação positiva e ação afirmativa dessas Secretarias de proteção aos fracos e oprimidos as políticas de cotas já disseminadas no mundo afora. Clama ainda pelo exemplo didático da Suécia, campeã no emprego de políticas típicas de tolerância zero.

De fato, por aqui, a confusão ideológica é sem fim, mas, no fundo, retrata bem, em antagonismo patente, o que os adeptos de uma política de imprensa livre assumem, longe da arrogância, em sua argumentação altiva: a intolerância é a causa primeira de nossos problemas cotidianos. Repetem os jornalistas de direita, em didática talvez vazia, o que os  “liberais” das boas escolas nos ensinam. Está lá em Friedman, Hayek e tantos outros. Sendo redundante, reafirmo: o que se defende, em nome da liberdade de Imprensa, é a nossa liberdade em todos os níveis. Claro, devemos respeitar o que a lei invoca e bem sabemos que a boa constituição invoca também o direito de  insugirmo-nos contra ela mesma. A constituição brasileira  infelizmente não traz esse artigo fundamental e reparador; mas é o que Kant nos ensinou.

É a liberdade em sua plenitude que nos põe em marcha contra as pequenas medidas repressoras, mesmo que em nome de boas causas. Ao invés de apelarem para a violação à liberdade de expressão, existiriam outros remédios saneadores aos nossos problemas cotidianos, em desuso, talvez, pelo caos jurídico patente aqui no nosso terreiro. É o balanço de custos e benefícios sociais de medidas aparentemente inocentes que esses intelectuais liberais nos legaram. É a liberdade em sua plenitude o fim a nos mover em oposição às medidas toscas. Se começarmos a mutilá-la, mesmo em nome de boas causas, o desfecho certamente será o do totalitarismo.

Não cansaram eles, os liberais de sempre,  de combaterem o socialismo e não foi por outra razão qualquer distinta das boas intenções perpetradas em leis estapafúrdias ou desnecessárias. E não me venham dizer que o socialismo é a preferencia dos cidadãos comuns. A prova retumbante está no episódio histórico da queda do Muro de Berlim. A mídia registrou e muito bem: não vimos ninguém pulando do lado ocidental pro Oriental. De fato, os nossos esquerdistas que adoram Fidel não estão de malas prontas pra Cuba e o muro oceânico ainda lá existe. Quando o derrubarem, a história do cidadão comum se repetirá.

A cantilena socialista de outrora está agora travestida do politicamente correto. No fundo do poço da segregação justa ou injusta vamos encontrar o único elemento fundamental que ameaça a liberdade: a intolerância. A diversidade faz parte de nossa cidade, de nosso meio familiar. É o exercício de sua aceitação o verdadeiro exercício da liberdade plena. Não posso deixar de condenar a covardia que me parece ser, quando, em vantagem social ou econômica, alguns ou até muitos, procuram humilhar o mais fraco; em ridicularização preconceituosa, tão comum em relação aos negros, homossexuais e nordestinos. Mas se isso me causar a paralisia de minhas ações cotidianas, prefiro aceitar solitariamente o desafio de brigar com o mais forte a me confinarem definitivamente à masmorra da imobilização, pois noto bem que a razão das ações estatais castradoras é outra: a do poder político e econômico desmedidos. 


Não quero, em nome do uso e abuso da liberdade de expressão, deixar de chamar, seja lá como for, o preto de preto, o nordestino migrante de paraíba, o corrupto de corrupto e principalmente o burro de burro. Claro, podem me chamar do que quiserem. Certamente, revidarei, na crença de que em pequenas desavenças nós mesmos as resolveremos.

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