A velha ladainha campineira: proteção e estimulo às indústrias nacionais – BURRICE CEPALINA!

Se tem algo fascinante em economia é o esforço que fazemos para desnudar a aparente desordem metodológica que abre espaço para alienígenas em economia nos acusarem de charlatães. Os físicos geralmente descobrem leis precisas que podem até serem encampadas por outras, como é o caso das teorias de Newton e Einstein. Em economia, a encampação teórica também é possível. Mas também é possível a convivência de duas ou mais teorias, disputando o entendimento da mesma questão. Este é precisamente o caso da teoria sobre o comércio internacional. Convivem várias teorias que procuram explicar o padrão de comércio internacional – o que importamos e o que exportamos. Temos em pleno vigor explicativo, por exemplo, a teoria das vantagens comparativas, como também temos os modelos de concorrência monopolística. O primeiro caso, explica bem o padrão diferenciado de comércio: países ricos em recursos naturais os exportam e países ricos em tecnologia e conhecimento exportam produtos que embutem consistentemente tais elementos, na crença de que ambos os países conseguem produzir tais bens a preços competitivos.  O Brasil certamente se ampara nas vantagens comparativas; já a Europa e os Estados Unidos têm seu padrão de comércio melhor explicado pela teoria do comércio internacional, amparado na concorrência monopolística. Nada impede que um país tenha um pé num modelo e corpo e alma noutro, e até mesmo em outras teorias sobre o comércio internacional. O importante desse tópico sobre comércio internacional é que ele é uma pista para desvendarmos nosso subdesenvolvimento.

De fato, a ausência total do modelo de concorrência monopolística por aqui pode nos dar pistas de quão ruins são nossas políticas de industrialização e de comércio exterior. O caso presente do Brasil em matéria de políticas que afetam nossas compras de produtos importados e no final da linha à nossa renda e emprego também serve como exemplo didático do que não se fazer em termos de políticas protecionistas. O velho modelo teórico e mal fundamentado da Cepal que nos levou a prática de subsídios escancarados a certos grupos empresarias locais ou até estrangeiros, em nome de uma indústria nacional e , quando o clichê nacionalista não pega, de garantia de emprego para o brasileiro, está novamente revivendo a prática maléfica de ajudar malandros com todo o gás; estamos na era do lulopetismo. 

Alguns passos argumentativos para derrubar tal política de substituição de importação são necessários. Em primeiro lugar, a prova de que o modelo é um fracasso. Em segundo lugar, a prova de que não gera emprego e, pelo contrário, desemprega. Em terceiro lugar, a prova de que concentra renda e nos deixa na armadilha do subdesenvolvimento.

A prova do fracasso, as estatísticas do crescimento da renda per capita ou da produtividade do trabalhador nos dão. Naturalmente, a melhor prova está nas ruas. Basta olhar nossas cidades, a violência, a corrupção, a pobreza no vestir de nossa gente, do cansaço que nos domina, e a ignorância generalizada para se ter certeza de que a prova não é abstrata. O exemplo midiático do fracasso de uma política de proteção à indústria nacional é o da indústria nacional de computadores; amparada pela famigerada lei da informática. O que vimos? Atraso geral e enriquecimento de um  pequeno grupo, com um coronel tantã a tentar nos convencer de que poderíamos, pela restrição ao comércio, desenvolver tecnologia nacional. Como se constatou, fizeram apenas a montagem de elementos e nem isso conseguiram fazer bem feito. Tanto é assim que a indústria do coronel foi pro beleléu. Hoje o Mercadante, cepalino de coração e alma petista, quer reviver política semelhante ao propor que façamos nosso tablet tupiniquim. Se conseguir seu intento, tal qual fizeram com a lei da informática na época dos ditadores imbecis, a subida dos preços dos tablets será em breve anunciada, com a roupagem de que estariam criando empregos para os brasileiros; bem sabemos que estamos é criando malandros.

Continuando nessa linha de argumentação protecionista, dizem alguns que, por exemplo, a elevação de impostos para produtos importados protege o emprego de quem produz similares aos importados. Mentira! O fato de pagarmos mais caro por produto similar, que geralmente é de melhor qualidade, nos retira poder de compra que poderíamos empregar em outros produtos, aumentando o investimento interno, a renda e o emprego. No caso das indústrias automobilísticas, a conta , já feita aqui no blog, é simples: o carro nacional custa o dobro do importado. Como produzimos mais de dois milhões de carros por ano, um milhão de carros é que pagamos a mais. Valor que seria suficiente para deixar no bolsa nacionalista toda a turma sindicalista do ABC e ainda sobraria muita grana. Vale lembrar, o emprego no setor automobilístico fica dez vezes abaixo da faixa do emprego que se obtém em países onde a proteção ao comércio exterior não existe na dimensão de que aqui se pratica. A resposta para o sucesso desses países competitivos, damos abaixo.

A terceira prova é a que toca diretamente o post: um modelo de atraso perene. Quando procuramos, pela restrição ao comércio externo, em nome da nacionalização de nossa indústria, incentivá-la com mimos estatais generosos, vários problemas colaterais aparecem. O primeiro e óbvio é a importação das máquinas que irão fazer os novos "produtos nacionais" que, certamente, ocorrerá em graça generosa – de fato, o povo paga duplamente pela máquina. Paga pelo subsídio. Paga pelo emprego que perde, porque tais máquinas são “modernas” e o emprego associado à criação dessas máquinas está lá fora do país.

Em segundo lugar, com a restrição ao comércio, um certo poder de monopólio é dado artificialmente ao pseudo-empreendedor do nada. Com esses dois mecanismos, importação subsidiadas de máquinas e proteção de mercado, ficam estabelecidos os mecanismos da indolência empresarial. Por que inovar? Por que a preocupação com o emprego? Amanhã, quando houver o sucateamento das máquinas, o remédio do modelo de substituição de importação, em dose maior, será recomendado: importação subsidiada e mais proteção ao mercado. Com máquinas mais sofisticadas, uma quantidade maior de trabalhadores pouco qualificados ficarão desempregados. Os engenheiros, sem referência e estímulos inventivos, aperfeiçoarão seu inglês, francês ou alemão e quem sabe o mandarim para melhor entendimento dos manuais. Este é o tal do processo de desenvolvimento que estamos vendo se repetir desde JK.

Em resumo da ópera, o comércio livre traz exatamente a possibilidade de nos comunicarmos com o resto do mundo; se de fato queremos nos comunicar o esforço será atenuado com mercadorias e serviços do exterior. Se o adquirimos a preços competitivos, mais fácil e menos custosa essa comunicação. Claro, tem a contrapartida da competição com empresas mais dinâmicas. Mas isso faz parte do show como bem mostrou Steve Jobs que, do fundo do quintal, conseguiu entrar na arena dos bilionários. Certamente, a facilidade com que pode comprar peças baratas, importadas ou não, e manter diálogo com pessoas qualificadas foi decisivo para que o seu computador pessoal saísse de sua oficina para as ruas. Quer dizer, o governo tem um papel essencial no processo de desenvolvimento: educação e redução de custos para todos, permitindo que saiam do porão de pequenas oficinas os verdadeiros empreendedores. O resto é conversa de economista de esquerda.

Comentários

  1. Ótimo texto. Parabéns.
    Marco Aurélio

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