Coordenação de política ou descoordenação proposital?


Tem certas inovações que aparecem e ficam como se não existissem alternativas. Uma delas é a ideia mequetrefe de coordenação da politica fiscal e monetária. Os ingredientes dessa receita perversa vieram aos poucos. Primeiro, veio a necessidade inventada de um banco central. A razão dessa Instituição? Evitar o tal do risco sistêmico de uma falência generalizada que um banqueiro mais esperto que os demais poderia exacerbar ao emprestar o que não seria deles a tomadores infiéis. Com isso, abriu-se espaço para assunção de riscos maiores, com empréstimos a rodo. Então, a liquidez real passou a ser o critério de estabilidade. Quem poderia garanti-la? Só um banco central; justificou-se assim, no meio da patuleia, em cadeia lógica invertida, sua existência.



Logo surgiram as críticas dos pensadores americanos. A mais engenhosa foi a de restringir as atividades dos bancos, notadamente o canal de empréstimos com recursos de terceiros, usados sem a permissão desses terceiros. Foi a proposta, lá pelos anos 20 do século passado, de Irving Fisher chamada de 100% money. Traduzindo: banco só poderia emprestar os recursos que tivessem sido apartados pelos clientes para essa finalidade. Para isso, ganhariam juros. Naturalmente, os bancos poderiam cobrar uma taxa pela guarda do dinheiro do público. Os bancos venceram a disputa acadêmica e o sistema bancário fracionário está ai até hoje, com muitos , além de pagar taxas, tendo seus recursos empregados em operações de riscos que não sabem estimar. Os bancos ficam com os lucros fáceis. Se houver prejuízo, o BACEN poderá mitigá-lo.
Nessa avalanche de oportunismo veio a contrarreação oficial: sistema fiduciário. Se os bancos não querem manter lastro, então o papel-moeda seria privilégio apenas do Estado, repartindo-se a criação comburente da liquidez; parte dessa criação fica, através do sistema fracionário, com os bancos e a outra com o banco central. Claro, os abusos de ambos devem ser controláveis. A dos bancos privados, com sistema de compulsórios e outros mecanismos. A do Estado pelo limite ao próprio banco central de se endividar sem contrapartida real. A outra esfinge do estado, o Tesouro, poderia endividar-se no mercado privado, para complementar sua conta de capital e jamais a de custeio, fornecendo novo mecanismo de gestão da liquidez pelo banco central. Os bancos, obviamente concordam e apoiam entusiasticamente tais inovações. A transparência do sistema financeiro, aos poucos, vai se esfumaçando.
Os bancos, na onda da modernidade das finanças, vão alastrando os derivativos que criam, afundando de vez a transparência necessária para o controle efetivo do sistema financeiro. O banco central, em seus mecanismos de controle da liquidez, vai ajudando a azeitar a gosto e a sabor dos bancos a própria liquidez dos bancos comerciais. O tesouro vai encampando gastos de todos os tipos, porque a dívida lhe parece ser o anteparo sem luz no final do túnel. O resultado macroeconômico pode encantar no curtíssimo prazo, até mesmo com a queda do nível geral de preços, ao se trocar moeda por dívida pública. Mas os efeitos de longo prazo são cruéis: redução na taxa de crescimento da renda per capita. É isso o que o trabalho do Pavel (Trabalho que esta no SSRN – The Ricardian Equivalence Proposition in OECD Countries: Does Government Debt Weigh Down Growth?Pavel Carrijo Rodrigues - http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1955318) nos mostra: uma “belíssima” relação entre taxa de crescimento e endividamento público.
Claro, a solução desse problema inventado é simples. Veremos no próximo post!
                                         

Comentários

  1. Muito bom o post. Parabéns!

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  2. Ótimo post, muito esclarecedor. Mas fico com algumas dúvidas. Seria mesmo simples acabar com o Banco Central do Brasil ou de alhures? Pelo que eu entendi, os bancos deveriam emitir suas próprias moedas. Mas, nesse caso, com várias moedas na economia as simples compras e vendas do dia-a-dia não seriam mais difíceis? Por fim, a quem caberia a elaboração da regulação do mercado financeiro e de que maneira se daria sua fiscalização e controle?

    Muito obrigado, parabéns pelo post.

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  3. Seria simples acabar com o banco central? Sim. Quando falamos em acabar com o banco central é enquanto gestor de politica monetaria de forma discricionária. Basta uma regra de politica monetaria como a de se expandir a moeda em uma determinada taxa ou mante-la constante. Existem outras regras - irei falar sobre isso no proximo post. Quanto ao controle dos bancos, também é uma tarefa simples. Regra de não se permitir o sistema fracionario, ou seja, banco só empresta o seu dinheiro com a sua permissão. Derivativos, simplesmente ficariam restritos ao que se pode facilmente ser controlável pelos agentes e restrito às instituicoes que não sejam bancos. A regulacao poderia ser feita por uma agência específica.

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