Eu quero destruir as máquinas!


Lembro-me, como se fosse hoje, na toada de que é mais do que atual, de um dos filmes clássicos de Charles Chaplin:Tempos Modernos.Existem várias interpretações e leituras dessa obra-prima.  Várias mensagens, com todo tipo de rótulos, me vieram à cabeça, mas não me lembro de uma campanha sequer emocional contra o progresso material pura e simplesmente. Falam de alienação, falam da falência do capitalismo e falam até da brutalização do homem, em sua estupidez corriqueira; talvez todos esses argumentos influenciem o meu pensamento destrutivo. Não haveria diferença, em meu projeto destrutivo, se invocassem também a turma amalucada que pensa sem grandes considerações que a máquina desemprega. Concordaria com todos, mas há consideração necessária a ser feita.


Claro, a minha argumentação pela destruição das máquinas prende-se apenas ao meu país que, em verdade, nunca soube que tivesse sido meu, ou seu, ou nosso; o dono existe, mas nunca dá as caras. Provavelmente estará passeando em Paris ou Nova Iorque. Poderia, com certeza, aplicar meus argumentos a outros países. Não o faço porque não tenho informações o suficiente para qualificá-los convenientemente.

Qual a razão básica para o meu argumento destrutivo? É simplesmente porque pagamos caro para ter as máquinas que não sabemos fazer. Esse é o processo de substituição de importação da Maria Conceição Tavares, do Celso Furtado e até do Mantega. Acharam burocratas e pseudointelectuais que a proteção à indústria nascente geraria espontaneamente a reengenharia que faz legitimamente o crescimento. Os fatos mostram que, passados mais de 60 anos, tudo anda como sempre andou: subsídios de todos os tipos, principalmente os obtidos através do sistema financeiro público, tarifas escorchantes e perseguição oficial aos contrabandistas (arbitradores naturais que por aqui são tratados de forma cruel e preconceituosa) - na consequência natural, produtos vagabundos e caros em nossas prateleiras. Do lado empírico, a constatação é trivial. Os países que efetivamente empregaram uma estratégia de crescimento com base em modelos de industrialização adotaram, fora a concepção de ambiente competitivo, um único vetor estratégico fundamental: a reengenharia. Na figura da representação do processo tecnológico feito alhures por Marco Antônio Campos Martins, ele diz o seguinte: “No fundo qualquer máquina, se destruída integralmente, não passaria de um monte de areia. A reengenharia é simplesmente a reconstrução da máquina a partir desses grãos de areia”. Naturalmente, sem a força da competição e da geração da poupança legítima tal processo de industrialização não poderia, por aqui, na selva latina, se desenvolver. Como os recursos para os empresários brasileiros muitíssimo mequetrefes caíram do céu, os “engenheiros” tupiniquins passaram a ter papel secundário.

O teste empírico do modelo latino de substituição de importação agora deveria ser facilmente invocado. É simples fazê-lo: basta comparar o emprego por indústria nesses países em progresso visível aos olhos com o emprego gerado pelas mesmas industrias em países como o Brasil ou a Argentina. A diferença é gritante. As máquinas que por aqui usamos de fato desempregam. Fiz o meu teste apenas em relação a indústria automobilística. A diferença é brutal. Por aqui geramos cerca de 120 mil empregos; lá (Coréia, Japão, etc) mais de  um milhão.

Em minha pregação destrutiva não só dessas máquinas importadas em esquemas escabrosos, bem como da mudança do status quo, com o fim da pregação nacionalista muito da vigarista, não posso deixar de antever as consequências. Qual o impacto da liberação do comércio? Em primeiro lugar, obrigaria as empresas nacionais a serem competitivas, falindo, em purgamento salvador, as ineficientes. Muitos, ancorados nessas empresas ineficientes, perderiam seus empregos. De outro lado, como estamos comprando produtos melhores e mais baratos, a economia no orçamento seria espetacular, com os recursos economizados dirigindo-se a outros setores – isso sem contar com novas oportunidades de negócios que brotariam muito naturalmente. Um desses setores receptores de recursos liberados teria que ser o exportador, porque para importar temos que exportar. Ressalte-se ainda que os juros não poderiam ficar na estratosfera. Teriam que ser livres e fundamentados na competição legítima, de forma que a conta de capital não se traduzisse no mecanismo de absorção de reservas e recursos para os rentistas. Com tal rearranjo, os empregos verdadeiros surgiriam nesses novos setores para onde se dirigiriam os recursos economizados. Na contabilidade final, o emprego poderia aumentar e muito. Quanto mais rapidamente falissem as empresas ineficientes, mais rapidamente os recursos poderiam ser transferidos desses setores ineficientes para os mais eficientes.

Isso significaria o fim da economia? Obviamente não. Pelo contrário, uma nova dinâmica surgiria e as máquinas sucateadas, adquiridas em estratégia alienígena ou financiadas quase de graça, simplesmente se esvoaçariam em busca de um novo “paraíso”  tropical.   

O papel do governo nesse novo cenário de progresso verdadeiro já se pode inferir: simplesmente educação e leis que permitam reduzir os custos de transação. Jamais subsídios e crédito barato a empresários – ingredientes do rufianismo reles.

Nunca fizemos mudanças desse calibre por aqui. O Golpe militar de 1964 tratou de enterrar definitivamente o projeto nacionalista dos Tenentes de 22 e de Getúlio Vargas, ressuscitando o golpe fracassado de 1932. A Nova República é o retrato do caos, fruto do acordo de milicos canalhas e de políticos serviçais de igual quilate que desvirtuaram perigosamente as regras democráticas que a Constituição de 1946 guardava. Em tudo pioramos. 

O recomeço só seria possível com simples medidas: fim do sistema financeiro estatal, abertura geral da economia, com tarifa única de 10% para as importações e descentralização orçamentária ubíqua. A reformulação orçamentária seria necessária para  garantir que os recursos públicos chegassem aos Estados e municípios, de forma a se efetivarem os gastos necessários com a educação e saúde. O tempo para florescer um novo país necessariamente não seria longo, muito menos de imediato.  O importante é que vislumbro conta positiva e assim certamente estaremos galgando novo status. Já os usurpadores reles, certamente perderão; o que não é meu problema.


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