Minha visão sobre as saídas para o Euro: não é preciso ter recessão!


O debate sobre a crise por que passa o Euro me deixa perplexo. É a tal da unanimidade acadêmica. Em uníssono , os economistas, na linha chamada de liberal, apontam o mesmo receituário do FMI que, como sabemos, não tem nada de liberal. Pelo contrário. FMI sempre foi, em todos os cantos e em todas as épocas, sinônimo de recessão e aprofundamento das desigualdades sociais. Nós brasileiros bem sabemos o quanto essa turma de burocratas trabalhou para a promoção de políticas que objetivavam única e exclusivamente o pagamento da dívida externa. Pouco lhes importava o custo do ajustamento e qual a lógica do endividamento. No coroamento de nossas tentativas para debelar a inflação, o  “Real” só contou com o apoio do FMI depois que o sucesso foi certo e inquestionável. Para finalizar FMI, lembro que Milton Friedman recomendava sua extinção;  recomendação que ainda acato.

Fazendo um resumo rápido sobre o Euro, diria simplesmente o que de fato se passa presentemente na União europeia. Como se sabe, a política monetária não está disponível para os países membros do Euro individualmente. O que os países membros poderiam fazer para atenuar choques seria o emprego de política fiscal. Política sobre juros e câmbios não estão disponíveis àqueles países.  Como a crise está a demonstrar, a dificuldade para o funcionamento de uma política monetária única está na impossibilidade do país monetizar sua dívida pública. Os países envolvidos com o Euro abriram mão da emissão monetária, comprometendo-se a um déficit de no máximo 3%, tendo em vista o caráter estabilizador da política monetária no âmbito do conjunto dos países envolvidos com a União Europeia.  Para piorar a situação, os países envolvidos com a União europeia  se endividaram em moeda que não podem emitir.

Portanto, quando se fala em União Europeia tem-se claro que os países não têm opção de politica monetária ou cambial. As políticas compensatórias que os países membros poderiam fazer são efetivamente fiscais. Mas o uso abusivo das políticas fiscais redundaram em endividamento exagerado que já encontrou seu limite de sustentabilidade da dívida pública. E agora?

O que o FMI quer todos sabemos: políticas recessivas, de forma a se deslocar poupança pública para o pagamento da dívida. Haveria outra saída? Claro que sim.

A proposta é chamada tecnicamente de monetização. Existem condições prévias para a sua implantação. A primeira é que o endividamento público , no âmbito do Euro, deveria ser proibido. Em segundo, todos os países membros deveriam montar seus orçamentos com base nas propostas orçamentárias pré-crise, prevendo-se um desvio de , no máximo, 10%. Em terceiro, havendo déficit, o endividamento junto ao Banco Central Europeu seria autorizado, com a monetização imediata desse endividamento. Havendo superávit, o valor recolhido ao Banco Central Europeu seria esterilizado, ou seja, os equivalentes euros seriam destruídos.

E para o montante presente de dívida pública dos países do Euro? Seria simplesmente monetizada. Um cheque do banco central europeu seria emitido aos bancos credores. Com isso, o problema do que fazer com os recursos seria passado aos bancos e aos detentores da dívida do Euro. Ponto importante: a política teria que ser previamente anunciada.

Agora, vamos as consequências. Teria inflação? Não! Poderíamos ter um aumento no nível geral de preços  - se queres chamar isso de inflação, tudo bem - e certamente o teríamos, porque todos os agentes preventivamente ajustariam seus preços. De fato, uma montanha de dinheiro estaria disponível aos bancos e portanto poderia alimentar uma série de operações financeiras com desdobramento sobre os ativos das economias do Euro. O mercado acionário e de imóveis certamente teriam aumento preventivos de preços. O câmbio? Certamente se desvalorizaria – a montanha de Euro iria procurar outras moedas. Até que ponto tal desvalorização chegaria? Impossível dizer. Todas as elasticidades e projeções prospectivas seriam lançadas no mercado. Mas se as expectativas racionais servem para algo, o efeito seria quase nulo, porque equalizações de retornos ao longo do planeta estariam atuando se fugas em massa ocorressem, com espetacular prejuízo que muitos poderiam tomar. Coisa pouco provável de acontecer. E os juros? Certamente procuraria uma trajetória descendente, dada a ânsia por remuneração ao capital encalhado. De qualquer forma, toda essa dinâmica dependeria do próprio sistema financeiro. O problema estaria com os bancos. E o banco central? Simplesmente deixaria de existir: superávits fiscais são esterilizados e déficits são monetizados. Quanto aos bancos? Eles deveriam ficar restritos, num contexto de 100% Money, ao que sabem fazer: intermediação financeira e operações tradicionais junto ao setor privado. Essa é de fato a proposta de Friedman de 1948 que ele abandonou para abraçar o monetarismo. Uma pena! Que volte 1948.


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