Aprendendo história com quem soube entendê-la: o botânico Auguste de Saint-Hilaire


Pouco sei da ênfase que os historiadores e pesquisadores outros da nossa história dão aos ensaios e crônicas que cientistas estrangeiros produziram, retratando suas experiências e aventuras Brasil afora em épocas memoriais. Por exemplo, a viagem do botânico Auguste de Saint-Hilaire ao Brasil tinha objetivos politicos e cientifícos, mas também revelou-se valiosa tendo em vista o belíssimo fruto literário gerado por um astuto observador da realidade local e de sua época, o Brasil de D. joão VI. Como cronistas de uma época, o Brasil não dispõe de tantos observadores devidamente habilitados a uma análise proficua e abalizada de seu tempo. Para tal mister de registrar costumes e práticas de épocas remotas, nada melhor do que um expectador estrangeiro. Será interessante, portanto,  conhecermos o Brasil e a nós mesmos, revisitando cronistas e suas crônicas sobre nossos costumes e práticas.

Vejamos, através de enxertos escolhidos,  o que nos brinda Saint-Hilaire em seu livro Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822) - http://www.brasiliana.com.br/obras/segunda-viagem-do-rio-de-janeiro-a-minas-gerais-e-a-sao-paulo-1822.

Deixarei em negrito as passagens que merecem reflexão, pela similitude fervorosa com o presente, em apego a uma mentalidade retrógada que se cristalizou e empaca o andamento de nosso progresso. Faço isso em convite à reflexão conjunta. O que vier entre parenteses e sublinhado é minha interpretação. Eis os registros:

“ A duas léguas do Rio de Janeiro cessam as chácaras e começam os engenhos. Deles já existe número bastante elevado na paróquia de Santo Antonio da Jacutinga onde se acham muitos terrenos baixos e úmidos como convêm à cultura da cana. Dá ela aqui três cortes, depois dos quais é necessário deixar a terra descansar quatro anos seguidos, a menos que não seja estercada como fazem os cultivadores que têm pouco terreno.

 (a abundância de terras e, como ver-se-á adiante, a frouxidão legal estimulam práticas predatórias, tal qual hoje.)


O Rio Aguassu, que desce da serra, é navegável desde essa paróquia até a baía do Rio de Janeiro. Oferece aos fazendeiros da vizinhança caminho cômodo para o transporte de sua produção à cidade. De Aguassu à raiz da serra, apenas há meia légua.

Para se alcançar o ponto mais elevado da Serra da Estrada Nova não se leva menos de duas horas quando se sobe com as mulas carregadas. O caminho foi aberto, em zigue-zague, com bastante arte; construíram-se pequenas pontes para a passagem dos regatos e, nos lugares onde os desabamentos são de se temer, foram as terras escoradas.



   O caminho é muito mais curto que os outros, para os habitantes da comarca de São João e, por conseguinte, de incontestável utilidade.



   Trabalhou-se ali durante muito tempo; gastaram-se somas consideráveis: mas desde que se franqueou a passagem, não só não se concluíram as partes apenas esboçadas, como não foram conservados os trechos já construídos. As águas já ali cavaram profundas covas e trarão a inutilização desta bela estrada se mais um ano decorrer sem conserva.

(as decisões de nosso destino nunca partem de nós mesmos; o que abre espaço para a submissão e fraqueza e o enriquecimento de poucos, tal qual hoje.)

É mais ou menos assim tudo o que se empreende neste país. Os brasileiros aprendem com facilidade; sabem arquitetar planos, mas entregam-se, demais, ao devaneio, não medindo obstáculos nem calculando os empreendimentos de acordo com os seus recursos.

(esta pode ser uma decisão ótima, do ponto de vista individual, já que do ponto de vista social, o povo não participa da gestão de sua própria vida, estando eu, pois, neste particular, em desacordo com a análise de Saint-Hilaire. Hoje ainda presenciamos um distanciamento do cidadão comum da política e dos políticos.As obras públicas acontecem não porque nos empenhamos, mas porque é rentável a corja que dirige o país.)

Sobre as encostas fizeram-se algumas plantações de milho, de cada lado do rio fica um rancho, e, à sua margem, vê-se uma casinhola, moradia do empregado encarregado de receber a portagem. A paisagem é animada por canoas que vão e vêm de uma margem para outra, pelas pontas de bois e varas de porcos que atravessam o rio a nado, o movimento dos homens obrigando aos animais a entrarem no rio e o atravessar, pelas tropas de mulas que se carregam e descarregam.



   Como esta estrada é a mais curta para toda a comarca de São João, por aqui passa grande parte dos bois e porcos que o distrito fornece ao Rio de Janeiro. Os homens que os conduzem tornam-se facilmente reconhecíveis pelos modos e vestimenta. Existem entre eles tantos brancos quanto mulatos.


(A pobreza se nota facilmente pelas nossas vestimentas, tal qual hoje)


   Como se acostumam cedo a longas caminhadas e ao regime o mais frugal, são em geral magros e bastante altos. Dão em geral passadas enormes; o rosto lhes é estreito e comprido; de todos os mineiros são talvez os de fisionomia menos expressiva. Andam com os pés e pernas nus e um grande bastão à mão; usam chapéu de aba estreita, copa muito alta e arredondada; vestem calção e camisa de algodão cujas fraldas passam sobre o calção, colete de pano de lã grosseira e geralmente azul claro.



  Enquanto analisava as plantas que recolhera hoje, meu telheiro encheu-se de almocreves que, seguindo o hábito dos mineiros, me examinavam com muita atenção e enchiam-me de perguntas. Esta curiosidade, proveniente talvez do desejo de se instruir, não se encontra na Capitania do Rio de Janeiro, onde o calor e a umidade do clima tornam os homens moles e desanimados, nem no Rio Grande do Sul, onde os habitantes só apreciam os exercícios físicos.

(O Brasil e suas várias pátrias, com a dos burocratas incomodando a dos demais, tal qual hoje é Brasília. Claro, os gaúchos por estarem na fronteira teriam que ser naturalmente belicosos. )

A estrada do Comércio vai dar imediatamente acima da aldeia, no antigo trecho que passava por Ubá, e que em 1819 percorri. Desde esta época as terras nos arredores da aldeia estão um pouco mais povoadas; atualmente nelas se contarão umas 60 casas; tratam ali de construir pequena igreja de pedra e sob o nome de Vila de Valença fizeram do lugarejo a sede de um distrito, que se estende entre o Paraíba e o Rio Preto. Assim mesmo o nome de cidade pouco convém a este lugarejo; é devido a sua posição um dos lugares mais tristes da Capitania do Rio de Janeiro. 



   Para satisfazer à vaidade, o último governo multiplicou as vilas e criou cidades. Seria mais proveitoso encorajar os casamentos, auxiliar estrangeiros, e repartir as terras com maior equidade.

(as reformas de base sempre estiveram presentes. Hoje, pelo cansaço, talvez, tais propostas já não se apresentam com tanto vigor, mas ainda são absolutamente necessárias).

A venda da aldeia das Cobras é propriedade de dois franceses que, há muito tempo, habitam neste distrito; muito me elogiaram sua fertilidade.

 

  Estes homens haviam feito, pelas próprias mãos, considerável plantação de café, nas terras do desembargador Loureiro, homem desmoralizado por causa dos costumes e a falta de probidade. Achando que não cumpria as cláusulas, a que se obrigara para com eles, e temendo alguma trapaça, venderam as plantações por 200 mil réis, antes que produzissem. E asseguram que neste ano o comprador ou a próprio Loureiro, que ficou em seu lugar, lucrarão dois mil cruzados.


(a instabilidade jurídica é a regra para a proliferação da bandidagem, tal qual hoje)


   Nada se equipara à injustiça e à inépcia graças às quais foi até agora feita a distribuição das terras. É evidente que, sobretudo onde não existe nobreza, é do interesse do Estado que haja nas fortunas a menor desigualdade possível. No Brasil, nada haveria mais fácil do que enriquecer certa quantidade de famílias.



   Era preciso que se distribuísse, gratuitamente, e por pequenos lotes, esta imensa extensão de terras vizinhas à capital, e que ainda estava por se conceder quando chegou o rei. Que se fez, pelo contrário? Retalhou-se o solo pelo sistema das sesmarias, concessões que só se podiam obter depois de muitas formalidades e a propósito das quais era necessário pagar o título expedido.

O rico, conhecedor do andamento dos negócios, este tinha protetores e podia fazer bons favores; pedia-as para cada membro de sua família e assim alcançava imensa extensão de terras. Alguns indivíduos faziam dos pedidos de sesmarias verdadeira especulação. Começavam um arroteamento no terreno concedido, plantavam um pouco, construíam uma casinhola, vendiam em seguida a sesmaria, e obtinham outra. O rei dava terras, sem conta nem medida, aos homens a quem imaginava dever serviços. Paulo Fernandes viu-se cheio de dons desta natureza. Manoel Jacintho, empregado do Tesouro, possui, perto daqui, 12 léguas de terra concedidas pelo Rei.


(Nada mais certo para a manutenção perene da pobreza e da miséria que a manutenção de privilégios a poucos, tal qual hoje)


   Os pobres que não podem ter títulos estabelecem-se nos terrenos que sabem não ter dono. Plantam, constroem pequenas casas, criam galinhas, e quando menos esperam, aparece-lhes um homem rico, com o título que recebeu na véspera, expulsa-os e aproveita o fruto de seu trabalho.


            (é o modelo da pilhagem e do desperdício funcionando, tal qual hoje)



   O único recurso que ao pobre cabe, é pedir, ao que possui léguas de terra, a permissão de arrotear um pedaço de chão. Raramente lhe é recusada tal licença, mas como pode ser cassada de um momento para outro, por capricho ou interesse, os que cultivam terreno alheio e chamam-se agregados, só plantam grãos cuja colheita pode ser feita em poucos meses, tais como o milho e feijão; não fazem plantações que só deem ao cabo de longo tempo, como o café.
Serve o Rio Preto de fronteira às capitanias do Rio de Janeiro e Minas. 


   À extremidade de uma ponte fica uma cidadezinha encostada à montanha, composta de uma única rua muito larga e paralela ao rio. Tem tal cidade o mesmo nome que o rio; depende do distrito de Ibitipoca e só conta uma igreja não colada, servida por um capelão.


   As casas de Rio Preto, excetuando-se uma ou duas são térreas; pequenas, mas possuem um jardinzinho plantado de bananeiras, cuja pitoresca folhagem contribui para o embelezamento da paisagem.


   Logo depois da ponte, fica à direita o rancho dos viajantes em que funciona o registro onde se pesam as mercadorias, que entram na Capitania de Minas É ali também que se examinam as malas dos viajantes a ver se não levam cartas o que poderia lesar o correio em sua receita.

(São os burocratas a inventarem estratagemas para maximizar a cobrança de tributos, tal qual hoje)

Depois de entrar no rancho, apresentei aos soldados a portaria que tenho do Príncipe, a que o Sr. José Teixeira, vice-presidente da Junta das Minas, me deu antes da minha partida do Rio, onde viera ter como membro de uma deputação.

   

Depois de lidos estes papéis, obrigaram-me os soldados a apresentá-los ao comandante do destacamento, sendo que um deles acompanhou-me até lá. Encontrei no comandante um homem extremamente polido, e de fisionomia agradável.

   

Não só não falou na revista de minhas malas, como também exigiu que fossem descarregadas em sua casa, e fez-me co-partícipe de ótima ceia. Já várias vezes tive ocasião de elogiar o regimento das Minas. O comandante de Rio Preto confirmou-me ainda a boa opinião que deste corpo fazia; este homem, que não passa de simples furriel, exprime-se bem, raciocina com justeza, e mostra pelas maneiras que foi bem educado.

Facilmente se compreende que não é a diferença de nível, e sim a do solo que influi na vegetação. Com efeito, existe, exatamente na raiz da serra, espaço bastante considerável, constituído por um quartzo pisado, semelhante ao que acima descrevi. Ali se encontra a maioria das plantas do cume da montanha. Demorei-me muito para poder analisar as numerosas plantas recolhidas. Assim precisarei passar aqui o dia de amanhã.

Passsei ainda o dia todo analisando, entretanto, como trabalhei menos que ontem estou menos cansado. As tropas incessantemente passavam pelo rancho; em França traria isto gritos, injúrias, disputas. Aqui, tudo se passa em paz; todos trabalham sem o menor barulho; o mais sujo tocador de porcos fala com doçura e polidez. Trocam-se entre desconhecidos pequenos obséquios necessários, e todos vivem na melhor harmonia.
(a mudança é difícil quanto ninguém percebe que se está pobre, dando-se a impressão de felicidade, tal qual hoje)

De tempos a tempos, o caminho torna-se extremamente agreste; nos trechos de mata apenas deixa frequentemente estreita vereda, atravancada de raízes. Pelo meio dos carrascais, passa sobre rochas escorregadiças onde às mulas custa equilibrarem-se. Em certo lugar, não tem mais que pé e meio de largo. De um lado é margeado por rochedos, do outro domina precipícios.

Já tive diversos ensejos de falar, no meu diário, da confiança que os brasileiros dispensam aos amuletos e remédios de simpatia. Um dos meios de cura que empregam, também muito frequentemente, é o benzimento de seus males. O charlatão terapeuta deve ao mesmo tempo repetir uma fórmula devocional. Uma multidão de indivíduos encarrega-se assim de benzer as pessoas e isto na maior boa fé; mas não posso conceber que um homem que se intitula cirurgião e, por conseguinte, deve ter sido diplomado, sancione com o exemplo as práticas supersticiosas.
(somos ignorantes como sempre fomos e tudo indica que sempre seremos)
O desprezo me superou ainda o espanto quando o medico veio pedir-me uma pataca. Recusei dizendo-lhe que o doente, de modo algum, era meu.

A maioria dos homens tem a necessidade de se apegar aos que os governam. É um sentimento que parece tão natural quanto a afeição do filho ou criado pelo pai de família; mas ninguém se
 apega a uma junta como a um homem; é, de certo modo, um ser metafísico como a lei. Pode-se achá-la justa ou injusta, aprová-la ou censurar, mas não se lhe tem ódio nem afeição.

   
A maior parte dos homens não gosta de ser governada por magistrados, saídos da classe a que pertence. A elevação de seus iguais continuamente lhes relembra a própria inferioridade. Consolam-se, porém, sentindo-se governados por um homem de categoria mais elevada, ao refletirem que não foi a superioridade do mérito que os colocou acima deles, mas o acaso do nascimento a que é preciso resignar-se.
"
(o mérito pouco vale, tal qual hoje)
Tem mais. Confiram!


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