O foco da corrupção


Um texto de Roberto Mangabeira Unger  -14 de junho de 2005 que sempre é bom ter em mente.

       Dois perigos rondam o Brasil. Um perigo é que a reação contra a corrupção nos desvie da tarefa mais importante: construir alternativa política e programática. Alternativa que ancore nosso desenvolvimento em democratização irreversível de oportunidades, que defina a melhora da qualidade do ensino público como primeira prioridade e que liberte a democracia brasileira do domínio do dinheiro e obrigue os capitalistas a enfrentar o capitalismo. O outro perigo é que o esforço para pôr fim ao vale-tudo fique na periferia da corrupção em vez de alcançar seu centro. A atenção da imprensa -- e portanto do país -- está ainda voltada para os pobres diabos com as malas pretas, para os negocinhos sujos e para os políticos venais.

       Primeiro, foi o tráfico de influência e de negócios, feito com cargos distribuídos a políticos como botim de pilhagem. Depois foi a compra de Congressistas, sistematizando e radicalizando prática ensaiada para facilitar a reeleição do Presidente anterior. Silêncio conivente continua a pairar sobre o terceiro e mais importante nível da corrupção: os acertos entre governantes (ou seu partido) e grandes empresários.

       Não se traz à luz da averiguação o que é voz corrente na alta classe empresarial e profissional brasileira: que todos os grandes negócios no país que dependam, direta ou indiretamente, do beneplácito do governo vem servindo como base para governante exigir dinheiro -- muito dinheiro -- de grande empresário. Dinheiro que parece destinar-se por enquanto a partido e a campanha, não a bolso individual. Corrupção mais, não menos, nociva por ser impessoal e portanto sistêmica. Ocupando lugar privilegiado nesse sistema de compra e de achacamento estariam uma grande empresa privada e um grande banco privado, muito ligados. Ao lado de outras empresas, inclusive as incansáveis empreiteiras, experientes em trocar intimidade política por vantagem econômica. Sem esquecer os fundos de pensão, dirigidos por operadores de carreira desse regime político-empresarial e célebres por seu tino para investir mal e para angariar financiamentos eleitorais bem.

       Não sou policial, promotor, ou sequer jornalista investigativo. Sei, porém, ser intolerável que se generalizem esses relatos em nossas elites econômicas e profissionais sem que sejam trazidas à luz, investigadas e por fim desmentidas ou confirmadas. O assunto vai direto ao coração da vida republicana. A quem pertence o poder no Brasil - à nação ou à plutocracia?

       Responder a essa angústia com proposta de reforma política é diversionismo. Todo o mundo sabe que precisamos mudar as regras e o regime da política no Brasil. Das mudanças contempladas, porém, a única que surtiria efeito imediato e tangível sobre a corrupção é o financiamento público das campanhas eleitorais. Pela reforma política que hoje diz querer tinha o Presidente tanto descaso, até descobrir anteontem que lhe seria conveniente propô-la, que nem sabia estar ela há tempo bloqueada na Câmara dos Deputados pela própria base de seu governo.

       O foco da corrupção é viverem amasiados o poder central e o dinheiro graúdo dos graúdos. Concubinato agravado pelo deslumbramento, pelo despudor e pela desorientação de homens que confundiram retórica com pensamento e que colocaram projeto de poder em lugar de projeto de país. Vamos ou não vamos acabar com isso agora?


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