A poupança está baixa?


Não é de hoje que tentam impor um planejamento mequetrefe aos brasileiros. Esse tipo de mentalidade planejadora teve seu início  com JK que sustentava a idéia de que o planejamento seria a solução de nossos problemas. O “primor” de planejamento veio com Celso Furtado, através do seu Plano Trienal, logo incorporado pela ditadura militar em seu famigerado PAEG. Tudo com aparência técnica para se tentar dar consistência macroeconômica ao projeto redentor da ditadura militar: desviar recursos da população  para certos grupos empresariais. Para deixar a coisa bem cretina, davam ainda ênfase que tal arranjo traria desenvolvimento econômico. Todos esses planos extrapolavam uma taxa de poupança, procurando dar alguma aparência técnica ao chute “científico”; o que por si só poderia ser louvável. Agora, o chute se repete.; talvez num contexto mais sofisticado como fizeram os economistas Edmar Bacha e Régis Bonelli, em uma contabilidade de crescimento mais apurada. O que dessa proposta resulta é fácil de adivinhar: os brasileiros poupam pouco.

A contabilidade do crescimento  parte de uma função de produção agregada, destacando-se o papel da produtividade total dos fatores, do estoque de capital e da quantidade de trabalho usada na produção.  Essa é abordagem, por exemplo, de Roberto Ellery em seu artigo Produtividade Total dos Fatores e Acumulação de Capital no Brasil. Bacha e Bonelli fizeram uma contabilidade um pouco diferente, destacando as fontes de financiamento e o preço relativo do investimento.

O trabalho de Ellery (analisando o período de 1950 a 2005)  deixa claro a estagnação da produtividade total dos fatores, PTF, contrastando com o comportamento da relação capital/produto que apresenta um crescimento praticamente ininterrupto. O desenlace dessa contabilidade só poderia nos levar a uma trajetória do PIB per capita complicada, registrando que algo de muito ruim ocorreu com a gestão da economia pela ditadura militar e pela que a sucedeu. A chave do crescimento, segundo o modelo de Solow, estaria condicionada pela PTF.  Em outras palavras, o progresso tecnológico tem que afetar a qualidade do capital e do trabalho.

O trabalho de Bacha e Bonelli destaca os efeitos perversos do processo de substituição: encarecimento do custo do capital no Brasil, em contraste com a maioria dos países desenvolvidos que apresentam uma trajetória constante para o preço relativo do investimento. Destacam também a baixa produtividade do setor da construção civil, completando o círculo da dinâmica pífia que a nossa economia sustenta. Por fim destacam, que, frente a nova realidade econômica em que a urbanização é um fenômeno a consumir grande quantidade de capital, a poupança estaria em patamares baixos.

Só pela constatação de que a relação capital/produto se mostra excessiva, já desconfiamos que o esforço de poupança não é trivial. Mas ele também nos dá uma pista sobre o que aconteceu na trajetória do PIB desde o período JK: desperdício. Com a cultura da corrupção que se intensificou desde JK (o verdadeiro criador do mensalão, ao integrar empreiteiros à política e o primeiro a esculhambar o orçamento público e a matar o sistema previdenciário vigente à época da construção de Brasília, usando-o para financiar a sua construção), o desperdício e óbvio. O projeto estatizante da ditadura faliu, como disse Geisel em 1975, com obras abandonadas por toda parte e empresas estatais em processo de desconfiguração destrutiva. O da nova república foi o de estabelecer a corrupção em níveis estratosféricos, em que o poder econômico assume sem máscaras o poder político, usando-o para atingir seus objetivos. O sistema político funciona exatamente para gerir as entidades reguladoras, o sistema monetário e a política industrial, em benefício desse grupo privilegiado. Para manter vivo o organismo anômalo que se criou, há de se deixar a economia trancada a um esquema de cartelização e competição restrita ao mercosul, levando a uma situação crônica de desperdício, porque o auxilio às chamadas empresas nacionais nunca acabam. O BNDES é hoje o exemplo crítico de dinheiro em borbotões a alimentar um grupo privilegiado e protegido da concorrência. O desperdício e a ineficiência  dão as tintas para o desfecho desse modelo econômico empobrecedor, respaldando a baixíssima produtividade da economia brasileira.

A implicação desse fenômeno do desperdício há de se refletir numa contabilidade ruim do PIB que não ajusta esse fenômeno do desperdício aos elementos do investimento público e privado. Daí minha perspectiva de que a situação seja pior do que os dados revelam, mas que a realidade das ruas nos confirma.

O trabalho de Bacha e Bonelli não ataca esse ponto do desperdício. Até pelo contrário, encontram uma razão para o fato de o estoque de capital vir subindo: o pib deslocou-se do campo para a cidade e como se sabe a cidade usa uma quantidade maior de capital. Argumento que precisa ser confrontado com os fatos, em comparação internacional necessária, para se ter idéia precisa da implicação desse fenômeno da urbanizacão. Especialmente, precisa levar em conta a favelização das cidades brasileiras que , naturalmente,  demandam muito pouco capital, gerando mais sujeira do que riqueza.

Em resumo, querer manter o status quo vigente só poderá manter prescrições que nada mudarão a situação presente de baixíssima produtividade da economia brasileira.  De fato, a produtividade do trabalho continua com a cara do salário mínimo e do bolsa-família. A do capital com a do desperdício e ineficiência. Adotando-se estratégias de crescimento, tal qual o PAEG implementou em épocas obscuras, a recomendação do aumento da taxa de poupança não seria de se estranhar – tudo mudar , para nada mudar. Claro, isso em nada poderá contribuir para o aumento da PTF que exige qualidade antes de quantidade. O problema central do Brasil é político! Os leopardos não nos deixam discutir o assunto nestes termos.


Comentários

  1. Quer dizer que o povo brasileiro poupa muito?

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