Balanço de Pagamentos, crise ?

A mídia, como sabemos, desinforma bastante, permitindo que analistas mequetrefes imponham dogmas manjados e superados. Um desses dogmas é a crise recorrente no balanço de pagamentos. Precisamos de números para visualizar tal crise. O problema é que tal número geralmente  está solto no tempo e desconectado dos demais elementos que traduzem a essência do problema, como usualmente fazem os jornalistas de plantão.

O balanço de pagamentos está amarrado a uma contabilidade simplificadora que registra de maneira  sistemática as transações de um país com o resto do mundo. Existe uma definição mais precisa, porém irrelevante para o nosso post. Deixemos essa precisão para os contadores do balanço de pagamentos. Em linhas gerais, o balanço de pagamentos está dividido em dois grupos: transações correntes  (TC) + conta de capital (K). Como os registros observam os preceitos contábeis, TC + K = 0 ou TC=-K. Há uma ligação efetiva entre as duas contas. Uma vez que os registros do balanço de pagamentos são temporais, o que nos interessa observar é a dinâmica das contas do Balanço de Pagamentos. Para tal, os economistas geralmente empregam o conceito de saldo de capitais externos, SKE,  que nada mais é do que o acumulo dos saldos em transações correntes ao longo do tempo, necessitando de um ponto inicial (como qualquer contabilidade que pretenda considerar estoques ao longo do tempo); geralmente um chute que se apega à dívida externa inicial. No caso brasileiro, esta estatística registra um saldo negativo ao longo do tempo, indicando que o país de algum forma terá que remunerar esse capital. Um analista atento poderá utilizá-lo, em conjunto com outras informações do balanço,  para perceber algum tipo de dinâmica. Eu mesmo gosto de usar a relação SKE/exportação (usando valores positivos, para ter um gráfico mais palatável) e tenho observado que um ponto crítico estaria num patamar próximo de cinco (num regime de câmbio fixo, indicava o esgotamento da capacidade de importar pelo endividamento). Como o gráfico abaixo mostra, no presente momento, estamos distante desse número crítico.




Existe uma outra estatística interessante que decorre das transações correntes quando dividida em dois elementos: Transferência líquida de Recursos (TLR) e Renda líquida enviada/Recebida ao Exterior, RLE. O item TLR indica o esforço que o país está fazendo para “pagar” pelo SKE acumulado. Quando ele é negativo, indica que estamos usando recursos do exterior e quando positivo que estamos pagando pelo uso daqueles recursos, absorvidos em períodos anteriores. A simples análise do gráfico abaixo nos dá informações importantes. Nota-se claramente que usamos um pouquinho de recursos e pagamos bastante (sem entrar no mérito do valor no tempo). Notamos também que os pagamentos estão ocorrendo num tempo menor, provavelmente condicionado pelo regime atual de câmbio flutuante. Entretanto, para o presente momento, observa-se que estamos na fase de absorção de recursos externos, com um leve sinal de reversão. 



                                                                                          
Portanto, pelos números apresentados, a crise no balanço de pagamentos é simplesmente imaginária. Certamente, chegará o momento da reversão e pelo andar passado da carruagem ainda temos alguns anos pela frente para que a reversão se concretize plenamente. Além do mais, estamos numa era diferente: o ajuste no balanço de pagamentos está intrinsecamente relacionado ao câmbio o que pode justificar um ajuste mais rápido das contas externas.



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