Mitos e fadas: JK e a quebra estrutural.

Vejo com certa perplexidade afirmações extemporâneas sobre o crescimento brasileiro que, recorrentemente, pipocam aqui e acolá em nossa mídia tupiniquim. Muitos , embotados pela ideologia necessária, fazem cortes arbitrários, punindo uns e louvando outros personagens ou mitos da política brasileira, turvando-se a visão monolítica (simplicidade e clareza nos argumentos) sobre a dinâmica da economia. Assim, temos os que adoram FHC e os que igualmente o odeiam. Temos os que adoram Lulla e os que igualmente o odeiam. Temos até os que são amplamente odiados, como Collor e Sarney. Mas é muito óbvio que as diferenças entre esses são sutis, em apelo a similitude total.  De onde se originou a semelhança presente entre os “mitos” da política brasileira? A resposta simples: com JK, em coroamento à destruição do regime político nacionalista que se iniciou em 1930 e findou com a morte simbólica de Vargas.

A resposta não é fácil de ser digerida,  porque a  trajetória de subdesenvolvimento foi estancada, em serviço de um objetivo maior: a destruição da Constituição de 1946 pela ditadura militar de 1964, unindo o poder econômico ao poder político. Envolvidos os militares tantãs e burros no processo de desenvolvimento da pilhagem, trataram de seguir a cartilha do planejamento, já aprofundado por Celso Furtado em seu Plano Trienal. O resultado foi, além da desordem institucional e a manutenção de cartórios engendrados por JK, a construção de um capital social valioso que, com a virada do poder dos militares aos civis, foi vampirizado, em privatizações  predatórias. Foram as centenas de estatais e o processo de endividamento público os andaimes da construção predatória. Processo esse também inaugurado por JK, com a destruição do sistema previdenciário da época e a desordem orçamentária que se sucedeu, em nome da consecução do seu  plano de Metas.

Não temos ainda um estudo adequado, conectando esse padrão de gestão política e econômica da ditadura militar de 1964 ao regime vigente. Entretanto, os fundamentos iniciais da ditadura militar ainda estão presentes: a desordem jurídica e a manutenção dos cartórios estatais e privados, em conluio recíproco. Talvez, a imposição da ditadura militar tenha sido uma etapa fundamental para a perpetuação do modelo engendrado pelas elites já em 1932.

O fato é que de uma trajetória de crescimento contínua, inaugurada com a Constituição de 1946, começamos a nos defrontar com mudanças abruptas log após o governo JK. Temos, desde então,  espasmos de crescimento e por isso, talvez, se justifiquem afirmações extemporâneas sobre o crescimento. Claro, saímos claramente de um processo com características de equilíbrio de longo prazo para um de completo desequilíbrio, tendo o processo orçamentário público uma dinâmica fundamental pela possibilidade de se mascarar ad infinitum, pelo endividamento ou pelo processo inflacionário, a concentração orçamentária dos recursos públicos pelo governo federal - típico de ditaduras.

Uma análise sucinta de  minha afirmação deixaria claro que, entre nós,  são os homens ( o governo dos homens)  e não os programas e projetos que se sobressaem (o governo das leis). De fato, tudo, por aqui,  em termos de projetos políticos, vem de cima para baixo. Os mitos e fadas, encontrando campo profícuo para se perpetuarem, se firmam em nosso ideário.  A esperança não está em nossos projetos ou sonhos, mas nas pessoas que se firmam em nosso imaginário popular. Eu mesmo tenho que me valer deles para identificar o estágio presente de nossa economia e que, pelo andar da corrupção endêmica, se estenderá futuro adentro num compasso de um pra frente e três pra trás.

Mas quais os indícios de que JK representa a verdadeira quebra estrutural para a economia brasileira? A resposta está em decifrar que com JK vieram os cartórios industriais, notadamente o automobilístico,  e os empreiteiros mensaleiros que construíram tijolo a tijolo a desordem urbana e política. Há muito para se fazer em termos de comprovação analítica de minha tese de que a mais importante quebra estrutural da economia brasileira se deu com a consolidação do poder econômico e político pelas elites brasileiras, com JK. O que é fato é que desde meados da década de 50 o país vai se desconfigurando, pela destruição patente de nossas cidades e do campo e o emburrecimento geral. É um modelo predatório que prescinde da inovação. Daí a falência do sistema educacional. O modelo burro, precisa de burros de carga.


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