Países que cresceram foram os que se urbanizaram. Mais um clichê?


Certamente, vivemos rodeados de clichês e me adianto definindo o que entendo por clichê: (sigo o dicionário) : um chavão ou uma ideia solta que se repete à exaustão, principalmente em saraus antiquados, mas que não o fundamentam e nem o discutem minimamente; simplesmente o aceitam. Pois é, há um risco sério de estarmos diante de mais um chavão: os países que crescem são os que se urbanizam (poupo a lógica, por comodidade didática). Evidentemente, temos que discutir o que seria uma cidade ou região urbanizada. Logo perguntaria: São Paulo seria urbanizada? Para isso, poderíamos encaixar as cidades/regiões em números e estatísticas e, com boa dosagem de bom senso, poderíamos, ainda, espremê-las o bastante para termos um número, confuso, onde certamente São Paulo se encaixaria. Evidentemente, para o equilíbrio matemático, teria que indagar se Crateús também se urbanizou e qual a sua pontuação relativa no rol das cidades. Como bem sabemos, as escalas seriam logarítmicas e uma diferença relativa de 10 seria absurdamente grande. O melhor, portanto, é uma boa fotografia que apontaria  a desordem urbana óbvia sob qualquer ângulo que você observe a cidade e os seus cidadãos. Usando este método do olhar, não sobra uma cidade brasileira no critério de urbanização minimamente aceitável. Vai chegar a hora em que São Paulo simplesmente irá parar; para a sorte, talvez, do Rio ou BH. Você não vê isso?

Este debate de urbanização e crescimento nos leva, com certeza, a ideia de mercado competitivo. Uma cidade traz a ideia simples de milhares de oportunidades, já que milhares de pessoas estão a conviver num espaço contíguo. Claro, uma cidade/região urbanizada tem que ser conduzida por boas regras, que traduzirão o crescimento agradável da cidade, onde os prédios sigam uma ordem urbana, fincada na tradição, no cuidado e no zelo com as propriedades individuais e coletiva. Naturalmente, o mais importante para se ressaltar: as pessoas que habitam a cidade e o seu padrão de vida, percebido (e percevejo, como diz o poeta) pelos trajes dos cidadãos comuns. Uma ordem política mínima, para equilibrar interesses díspares, faz-se necessária. Já neste quesito político, estamos, o Brasil inteiro, reprovados. Além disso, se a cidade cresce apenas pelo impulso aventureiro do governo, então certamente mais empregos estarão sendo destruídos do que preservados, com efeitos embriagantes que deixam o rastro da pobreza perene, quando a droga subsidiada se desvanece. Uma nova classe de privilegiados irá se impor. De novo, neste quesito de malfeitos públicos, somos também campeões, com Brasília carregando o exemplo (a)típico – já sendo acompanhado por várias capitais. A classe de funcionários públicos (principalmente os federais) é que dita a dinâmica do crescimento no planalto. Para piorar, como o serviço público em todas as instâncias são de péssima qualidade, o povo é lesado duas vezes. Em prova factual, basta olhar a desordem urbana generalizada para concluirmos: urbanização precária, crescimento precário.

Certamente, esse clichê da urbanização e crescimento se espraiará rapidamente em terras tupiniquins, esquecendo muitos que a população de Londres não mudou muito nestes últimos 40 anos. São Paulo será o exemplo típico dessa estultice midiática. Em verdade, tivemos uma urbanização que só degradou a cidade de São Paulo, refletindo que, de fato, andamos para trás, em reflexo de todas as políticas públicas anacrônicas implementadas há tempos, inclusive as oriundas do governo federal a  fundamentarem o compadrio e a cisão. O incrível, em paradoxo perturbador, o melhor seria estabelecermos a desordem plena do estado mínimo, rasgando-se contratos cartoriais e privilegiando interesses particulares, sob o escudo de um padrão urbano tradicional como nos ensinam as velhas cidades europeias; agradáveis em tudo. As eleições para prefeitos estão aí, teríamos chances para mudança ?  


Comentários

Postagens mais visitadas