Quantitative easing – importa ?


Virou moda falar em politica monetária flexível (Quantitative Easing), invocando-se o Japão como o protótipo de experiência relativamente bem sucedida. O objetivo foi o de se evitar um processo deflacionário crônico; se é que se pode por valor em política monetária flexível e muito da frouxa. Flexibilização quantitativa (Quantitative easing, QE) é uma ferramenta não convencional de política monetária,  utilizada por alguns bancos centrais para aumentar a oferta de dinheiro, aumentando as reservas excedentes do sistema bancário. Geralmente, tal operação se dá através de compra de títulos de longo prazo do governo, para estabilizar ou aumentar seus preços e, assim, reduzir as suas taxas de juros. Esta medida é frequentemente utilizada quando o controle da oferta monetária não é efetivo ou quando a taxa de juros interbancária está próxima de um teto mínimo ou mesmo perto de zero.

O fato verdadeiro é que, na presente situação, os efeitos esperados de uma política monetária frouxa ainda não aconteceram, pelo menos na intensidade imaginada. Woodford , por exemplo, acredita que, em consequência do novo pacote do FED relativo à compra em larga escala de ativos em mãos do setor privado, QE3,  nada de fundamental ocorrerá na economia. As implicações do comunicado do FED, revelando suas intenções futuras,  é que importariam. 

A explicação teórica de Woodford para o pouco efeito da compra em larga escala de ativos, patrocinada pelo FED, QE3, ancora-se na moderna teoria de finanças que vê a valoração dos ativos no novo estado da natureza, considerando os possíveis retornos que os portfólios poderiam oferecer aos agentes econômicos. Woodford acredita que a revalorização dos ativos não seria o suficiente para alterar o valor dos recursos reais da economia neste novo estado da natureza, não afetando, portanto, a trajetória de consumo da economia (sobre monetização, ver aqui). Para quem se interessa nos detalhes, basta conferir o que Woodford disse:

“But it is important to note that such “portfolio-balance effects” do not exist in a modern, general-equilibrium theory of asset prices — in which assets are assumed to be valued for their state-contingent payoffs in different states of the world, and investors are assumed to correctly anticipate the consequences of their portfolio choices for their wealth in different future states — at least to the extent that financial markets are modeled as frictionless. It is clearly inconsistent with a representative- household asset pricing theory (even though the argument sketched above, and many classic expositions of portfolio-balance theory, make no reference to any heterogeneity on the part of private investors). In the representative-household theory, the market price of any asset should be determined by the present value of the random returns to which it is a claim, where the present value is calculated using an asset pricing kernel (stochastic discount factor) derived from the representative household’s marginal utility of income in different future states of the world. Insofar as a mere re- shuffling of assets between the central bank and the private sector should not change the real quantity of resources available for consumption in each state of the world, the representative household’s marginal utility of income in different states of the world should not change. Hence the pricing kernel should not change, and the market price of one unit of a given asset should not change, either, assuming that the risky returns to which the asset represents a claim have not changed… “

São hipóteses, entretanto, que não descortinam plenamente, sob o efeito dessa política,  o impacto que a dívida pública poderia ter sobre o consumo futuro. Falo dos efeitos dessa política de “quantitative easing” sobre o andamento da dívida pública – as receitas do FED obtidas pelo carregamento da dívida pública poderiam ser anuladas pela integração dos orçamentos monetário e fiscal e o rebaixamento dos juros poderia atenuar o ônus do carregamento da dívida pública, se essa tivesse uma magnitude significativa. Um outro fator a considerar seria a maturidade da dívida pública. Todavia, a distribuição da dívida entre títulos de curto e longo prazo poderia ser irrelevante para a revalorização dos ativos, uma vez que o risco de default não se aplica ao governo federal, quando o mesmo se endivida em moeda local. 

O fato concreto, coerente com a explicação de Woodford, é que os encaixes bancários aumentaram significativamente, com os recursos monetários não fluindo, em espetacular voo,  ao mercado interno e externo. 

O interessante é notar que, agora, vem a turma do FMI bradar por aumento de juros no Brasil, além da política recessiva que pregam para o Euro. Com os esquemas nada convencionais dos swap cambiais impetrados pelo Banco Central do Brasil, fica fácil entender o que pretendem os banqueiros internacionais. Arrancarem juros extorsivos de economias fraquejadas por democracias mequetrefes ou por arranjos institucionais inflexíveis (a desordem jurídica é preservada), criando-se garantias efetivas de que a saída do capital ocorreria sem traumas.

A solução, como sempre assumida neste blog, é a de mercado. Neste item de “dólar barato” pelo mundo, a estratégia coerente seria apenas de câmbio livre. Não é sequer preciso fechar as portas da conta de capital do balanço de pagamento. Entrando os dólares soltos da gaiola do FED, há mais espaço para que o Bacen continue baixando os juros, em convergência internacional, aliviando sobretudo o custo do carregamento da dívida pública. Fazer o contrário, é dar vida a estratégia alienígena de dinheiro fácil. Dinheiro por si só não gera riqueza. Mas a esperteza, sim.


Comentários

  1. O Mantega atira no que nao ve e acerta o que nao sabe.

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  2. o que irá acontecer no Brasil?
    um abraço joao

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