Deveríamos parar com as pesquisas cardíacas?


Já estou chegando à idade do lobo e ,portanto,  natural pensar na transição: daqui pro além. Sendo racional, escolho  espontaneamente a forma de morrer. Poderia ser de câncer. Poderia ser de Parkinson. Poderia ser um acidente cardiovascular ou o tal do avc. Poderia ser de infarto inesperado e injustificável. Poderia ser de morte natural e tantas outras doenças da categoria normal. Dentre todas, salvo a normal que, pela probabilidade do acaso, desconsidero, na esperança de que aconteça sem um custo elevado (deixar de fumar, de beber, de fazer amor irresponsável, enfim de viver na plenitude irresponsável), fico com a do coração que é em tudo apaixonante. Vem rápido e fulminante: pluft e plaft  zoom - fui-me. As demais são sofridas além da conta e trazem apenas desesperança e desfazem todos os laços familiares em que a partida do infeliz é escancaradamente desejada, em nome do sofrimento desnecessário e inútil, como desculpa ao desconforto que só o amor verdadeiro desconsidera. Pra que mesmo serve um inválido a não ser para apoquentar os saudáveis? Aceito a eutanásia voluntária, tendo o caráter de natural, sem a interferência do Estado e dos vizinhos, sempre indesejáveis. Depois de reflexão profunda e isenta de dores, vejo que a morte do coração é a pedida certa. Mas o que fazer para coroá-la de êxito?

A resposta imediata que me vem a mente é a da plena naturalidade. Que simplesmente ocorra em preferência as demais. Mas como torná-la efetivamente natural? Simples. Política pública de saúde. Se todos concordam que essa é uma boa forma de partir para o além, então deveremos investir seria e pesadamente na pesquisa de doenças temíveis e deixar pra lá aquela que acolhemos como natural. Que me desculpem os cardíacos naturais, vão ter que partir precocemente. O consolo é que a passagem será feita de forma quase indolor. Seria questão de segundos: uma dor insuportável e inenarrável, por questão de tempo e oportunidade.  

Como política pública, teremos a vantagem de termos escolhido a nossa forma de partida, sofrendo-se menos com doenças temíveis como o câncer e o mal de Alzheimer. Não vejo a hora de ler nos jornais que meus amigos se foram numa boa e quem sabe, lá no além ou no inferno,  agradeçam a mim e aos loucos que concordam com minha tese de que venceram a transição de forma pouco traumática. É isso que, como economista de má fama, posso oferecer aos meus dois leitores: uma partida para o outro mundo de forma rápida e consensual sem que me furte a uma oração: antes você do que eu. Mas sei que chegará meu dia que, em comunhão com os que se foram, gritarei: puta que pariu, fudeu!


Comentários

  1. Eu sou cardiaco e aí como é que fica?

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  2. Já faço reparo em meu texto. A razão é simples: a clientela e a amostra. Apareceu como comentarista o primeiro cardíaco. Além disso, saindo à rua e fazendo enquete entrevistei logo um cardíaco que já tem stent implantado em seu peito. Para piorar, lembrei que uma pessoa mui amada é cardíaca. Assim sendo, já não tenho forças para argumentar a favor de minha tese. Que me perdoem os dois leitores – provavelmente cardíacos.

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