O modelo cambial do Banco Central pode funcionar?


Nesta semana, lendo o O Globo, constatei o que todos já sabiam e muitos intuíam : os diretores do Banco Central recorrem , em fundamentação de seus argumentos, à modelos econômicos que justificariam gordura no câmbio. Duas confusões imediatas: a incoerência lógica e o indicativo equivocado sobre o regime cambial.

Comecemos pela questão do regime cambial. Muitos, equivocados em seus próprios termos, têm alegado que, com a estratégia intervencionista do Bacen em procurar estabilizar o câmbio no patamar de R$ 2/US$ , o regime cambial teria se deslocado do flutuante para o fixo. Evidentemente, a característica fundamental do regime de câmbio fixo é o comprometimento crível (reservas o suficiente para atender a demanda por divisas)  e legal de que o Banco Central compraria e venderia dólares, atendendo às exigências do mercado. Neste contexto, a política monetária perderia um grau de liberdade, pela exigência de trocar dólares por reais e vice-versa, deixando o estoque de moeda local endógeno. Além disso, o mercado futuro passaria a ter um andamento sincronizado com a credibilidade que o mercado depositaria no regime cambial. De fato, as atuais intervenções cambiais do Bacen não autorizam um descolamento das metas monetárias e nem do engessamento do mercado futuro de divisas, onde, pelo contrário,  o Bacen atua de forma usual.

Voltemo-nos ao primeiro ponto: a incoerência lógica. Aceitando que o regime cambial é , em sua essência , flutuante, fica patente que é impossível garantir uma tendência definida de subida ou queda do câmbio. Para piorar  a situação de planejamento mequetrefe, é de pasmar a crença e a fé inabalável de autoridades monetárias em modelos econômicos como se depreende pela reportagem. Como vimos pelo caso presente do PIB, o erro das estimativas oficiais foram de 100%. Imaginem o percentual de erro em modelo que tem a pretensão de estimar a evolução de uma variável preço que envolve milhões de outros preços e centenas de políticas monetárias, fiscais e cambiais de outros países, além das nossas próprias políticas que bem sabemos bastante erráticas. Impossível é a resposta óbvia.

Quem tem alguma familiaridade com a literatura sobre o efetivo funcionamento do Banco Central não pode esquecer os ensinamentos de Blinder: teoria e prática do FED  a demonstrar o uso específico dos modelos econômicos na atuação objetiva dos dirigentes do FED, sendo um dentre outros tantos instrumentos empregados para o entendimento da realidade monetária. De fato, os modelos amparam os economistas em sua busca analítica de soluções a problemas específicos. Mas acreditar que modelos possam ter validade ubíqua , apresentando estimativas precisas ou até mesmo confiáveis, é assumir uma religião que a profissão não autoriza. O que é esquisito é que tal crença oficial que dá número preciso ao câmbio deve guiar investidores especulativos ao olimpo da grana fácil.


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