As políticas inócuas dos herdeiros de Simonsen e seus iguais.


Entra ano e sai burocrata e vem outros iguaizinhos e as medidas de política econômica são sempre as mesmas; paliativas e incongruentes. Tudo isso se dá pela aceitação de um modelo econômico parido há tempos: o da pilhagem. Naturalmente, os modelos DSGE,  quer sejam do Kanczuk, do Bacen ou até mesmo dos seus criadores , não trazem, seja até implicitamente, tal hipótese. Não por simplificação, mas porque seriam simplesmente explosivos! Conclusão óbvia: tudo por aqui, por não “calibrarem” os modelos corretamente, é um  desastre em suas previsões (até a Miriam Leitão já descobriu isso, conforme seu artigo no O Globo). De fato,  as mudanças institucionais são,  em tudo, caras! Mas vejamos as medidas incongruentes.

Desoneração fiscal - No ano passado os cofres públicos perderam com a desoneração do IPI na tentativa de reavivar a indústria adoecida. Mas, marotamente ou nos termos de Joaquim Barbosa – sorrateiramente, os burocratas tentaram fazer a compensação. Como? Aumentando, por retóricas esquizofrênicas, os tributos de importação. Onde está a incongruência dessa medida? Evidentemente, com aumento do esforço de perseguição aos arbitradores naturais, rotulados de contrabandistas reles, beneficiou-se uma turma parasitária que há tempos – mais de 60 anos – está na categoria de indústria nascente. Naturalmente, não foi por falta de aviso da turma blogueira de que tais medidas não adiantariam em nada, porque desoneração não pode ter o condão de aumentar a renda dos consumidores. No máximo, o que podemos ter, notadamente para os bens duráveis,  é uma antecipação dos gastos dos consumidores que, num período posterior, terá de acarretar um volume menor desses mesmos gastos.

Além disso, os segmentos beneficiados com a desoneração, geralmente são os mesmos que contam com proteção tarifaria parida à fórceps nos idos JK. O desfecho não poderia ser outro que não o de  acabarem elevando os seus preços. Os automóveis , por exemplo, subiram 2,37% no primeiro trimestre – mais do que a inflação do período (1,94%). Os móveis encareceram 5,5% nos últimos doze meses. A batata-inglesa , onerada com imposto de importação, também ficou cerca de 50% mais cara em 2012 (evidentemente coloco a batata-inglesa na roda, porque é citada erradamente como elemento inflacionário que sabemos é de pouca importância ou mesmo nenhuma). Os brinquedos que receberam proteção contra dumping tiveram alta de quase 9% em 12 meses. Tudo isso os jornais disseram.

Politica industrial – Ladainha campineira que se repete, agora, em hostes cariocas, numa versão pseudocientífica. “ O protecionismo tira competitividade do setor produtivo nacional e deixa os produtos mais caros. Hoje, nenhuma economia consegue ser eficiente sem fazer parte das cadeias globais, e o Brasil está pouco integrado. O Brasil precisa diminuir gradativamente o protecionismo para que a indústria e a economia possam se integrar às cadeias produtivas internacionais. “

Gradualismo como se sabe é desculpa de quem não quer mudança nenhuma. Muitos sabem que o nosso modelo de substituição de importação é em tudo equivocado. Primeiro, porque conta com dinheiro público. Segundo, porque conta com a reserva de mercado permanente. Terceiro, porque conta com acordos firmados há décadas,  na calada da noite, entre os poderosos locais, os testas de ferro, e as multinacionais,  que implicam no fatiamento de parte de sua indústria com aqueles “brasileiros” bem aquinhoados. Isso se dá, porque os empresários daqui não sabem fazer nada complexo (alguém já falou alhures que a nossa economia, em sua gênese imaginária,  é a do berimbau) e apenas cobram pelo direito “natural” de extorquir. Como não temos capital humano , não podemos ter invenções. Além disso, como não há liberdade de comércio não podemos usufruir de coisas de excelente qualidade e muito menos sabê-las. Evidentemente, sem um mercado competitivo nunca ficamos sabendo das boas oportunidades e , se ocorrem, não podemos saber se nosso empreendedorismo sairia vitorioso. O resultado desse modelo mequetrefe é o isolamento e a necessidade de tempos em tempos de refinanciarem, através do endividamento público,  o parque industrial sucateado. De fato,  estamos voltando às nossas origens: ao berimbau e ao mingau. Depois querem entender a tal da desindustrialização sem conhecerem história econômica, preterindo-a por estatísticas amalucadas, arrazoadas em análise escada do tipo sobe e desce.

O engraçado é que muitos falam de produtividade como se pudéssemos entendê-la considerando apenas os dados macroeconômicos. As loucuras são do tipo: “ a falta de qualificação da mão de obra  fez com que os salários subissem muito além da capacidade produtiva dos trabalhadores, elevando seus custos para a indústria. Esta falha reduz a produtividade e tira a competitividade das empresa em relação às concorrentes internacionais.” Claro, tomando ao pé da letra esse besteirol, em minha pregação revolucionária, diria aos trabalhadores: uní-vos e quebrai todas as escolas, porque, os menos qualificados estão elevando os salários e os empresários, uns boçais, estão pagando acima da produtividade de vocês!

Evidentemente, tudo é desculpa para expressarem que estão, por políticas transversas ou eventos fortuitos,  retirando a capacidade competitiva das empresas brasileiras. Balela! Ela não aguenta a competição, porque foi criada para sobreviver na redoma da proteção. O triste é que sempre protegem multinacionais, porque empresas brasileiras, pelo que saiba, quando não subordinadas às multinacionais, produzem comida, camisa de péssima qualidade e bebida a rodo. Claro, vão usar como contra-exemplo a Petrobrás. Retrucaria: alguém sabe de fato dos contratos firmados pela burocracia forjada na ditadura militar que já, com Geisel, a levou a um endividamento monumental ? Ver aqui.


Contando uma estória ilustrativa de nossa política industrial - Ontem, fui ao dentista e a engenhoca alemã de mexer nos dentes falhou – por falta de técnicos minimamente competentes e boas peças para substituir as gastas. Teve ele, o dentista (caro pra dedéu),  que usar a engenhoca brasileira, em tudo pior. Tive eu que suportar uma dor maior, além de uma broca de péssima qualidade a cobrar mais dos meus dentes cansados de açúcares nacionais. O dentista só mantém em seu consultório a engenhoca nacional, porque está difícil importar a alemã e sabe que a manutenção está precária e quando ela falha a sua  manutenção não é imediata. Esse é o ponto: só podemos fazer coisas boas, se o comércio for livre e tivermos gente sofisticada para, avançado no tempo, conseguirem fazer melhor ou igual aos gringos. Neste cenário de produção livre,  em que uma engrenagem tem milhares de peças, havemos de descobrir um nicho para nos encaixarmos, com a competência presente. Naturalmente, querer fazer tudo é impossível e irracional! Só tem sentido quando há reserva de mercado! E só há reserva de mercado, quando as leis são mequetrefes e deixam os crimes prescreverem e os bandidos soltos.  

Política Fiscal – Dizem os espertos que se, hoje tivéssemos  uma política fiscal mais contracionista, poderíamos atenuar a necessidade de aumento de juros. Se tivéssemos movimento de apreciação cambial, também seria possível atenuar um aperto monetário.

Evidentemente, falam como se pudéssemos cortar nos gastos de custeio. Evidentemente, os (in)dispensáveis – a turma do Tesouro, da Receita, do Bacen e seus similares – não irão propor gastos em suas tocas. Muito menos irão querer mexer na dívida pública que condiciona toda a bagunça presente (passada e futura). Vão, em seu gradualismo perverso, aprofundando a bagunça jurídica e lá no limite, tal qual se deu na época  da milicada e da Nova Republica, terão que se defrontar com o inevitável e quem sabe inventem um novo plano real para do zero começarmos tudo de novo, em ilusão distante que as coisas irão melhorar.

Inflação – A estória sobre inflação que encontramos nos jornais é a seguinte: “O atual quadro de inflação alta e baixa crescimento é resultado de uma sequencia de falhas da politica econômica. Os juros foram colocados no menor patamar da história sem que houvesse controle do gasto público. A politica fiscal expansionista combinada com juros baixos e crédito farto gerou um volume de demanda que o sistema produtivo não conseguiu suprir.”

Dizem os analistas de sempre que “o BC está no pior dos mundos, com inflação alta , baixo crescimento e sem autonomia. Subir juros sempre tem consequências, mas por falta de outro remédio, é o mais indicado no combate a inflação”. De fato, essa tal de Targeting Inflation está se reproduzindo, quer por força legal, quer por adoção implícita. Os juros, em quase todos os cantos, viraram o instrumento operacional dos bancos centrais, embora no Brasil se use uma taxa de juros – a Selic – que ao mesmo tempo serve como  “indexador” da dívida pública. O problema com a nossa política de juros é que ela encarece a nossa dívida pública , por manter o valor presente do estoque da dívida praticamente constante. O custo dessa política de juros pode ser equivalente ao arrocho no setor privado em consequência do possível aumento de juros.

A conclusão óbvia de todo o meu arrazoado é de que se ficar parado o bicho come e se correr também. O problema é político, estúpido! – reproduzindo o que tá na moda. Mas quem liga para política? Eu ligo! E se me perguntarem qual das medidas entendo urgente, fora cadeia para os políticos atuais (generalizo, porque sabemos que a grande maioria enfileira a bandidagem)  , diria que a mais importante seria a abertura da economia. O fechamento da economia é a maior incongruência. Ela não é de hoje. Começa com força após a segunda-guerra mundial e se entroniza definitivamente com a ditadura militar de 1964. 


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