Fazendo algumas observações à entrevista do Prof. José Alexandre Scheinkman




Entrevista com José Alexandre Scheinkman em 29 julho de 2013 – Folha São Paulo. Minhas observações estão destacadas abaixo das respostas do professor.


Folha - Que fatores têm se mostrado mais importantes para aumentar a produtividade do trabalho?

José Alexandre Scheinkman - Todos os fatores têm importância, mas a evidência mostra um papel muito importante da educação. Para cada ano a mais de educação, a produtividade do trabalhador aumenta muito.

Obviamente, um trabalhador com mais capital à sua disposição também vai produzir mais. Mas há menos variação de capital por trabalhador entre os países do que de quantidade de educação.

Também sabemos que a qualidade da educação importa, mas temos dificuldade de medir essa qualidade.

A saúde também é muito importante. Nos países que têm melhores indicadores de saúde, os trabalhadores são mais produtivos.

Há outro aspecto da produtividade que não conseguimos explicar pela quantidade de fatores.

Se você pega duas firmas da mesma indústria, usando trabalhadores com o mesmo nível de educação e o mesmo tipo de capital, essas empresas produzem quantidades diferentes.

"Evidentemente, a educação é um fator importante para o entendimento da produtividade. Para o Brasil,  é o elemento chave. Entretanto, o ambiente competitivo inexistente também inibe a produtividade, já que as invenções são importadas ou embutidas nas máquinas que por aqui chegam em reserva de mercado espetacular. Temos a produtividade no setor agrícola dando pinta de melhoria. Porém, de uma forma geral, estamos fora de um  contexto competitivo e,  assim,  a produtividade vem atrelada à essas máquinas. Mas, em contrapartida, tais maquinas não demandam mão de obra especializada. No caso da agricultura, a produtividade diferenciada se dissipa em renda que vai para o exterior – agroindústria com tentáculos no exterior ou altamente concentrada em poucos grupos econômicos e demandando poucos trabalhadores. Além disso, a extensão produtiva, notadamente a de serviços, tem baixa exigência de mao de obra qualificada. O modelo é em tudo concentrador, o que acaba por gerar serviços pouco sofisticados".

Isso é explicado pela eficiência no uso dos fatores, a chamada produtividade total dos fatores?

Exatamente. Há hoje muita atenção nos EUA para tentar entender quais são os fatores que tornam as empresas mais produtivas.

Como a eficiência da economia brasileira tem evoluído?

A produtividade total dos fatores, que pode ser traduzida como grau de eficiência, está estagnada ao menos desde 1989 para a economia como um todo. Mas há setores da economia brasileira que tiveram grandes ganhos de eficiência. Um é a agricultura.

Obviamente há fatores que influenciam todos os setores e toda a economia. Mas, para entender a eficiência, é importante olhar o que está acontecendo com cada setor e com as firmas de cada setor.

Um fenômeno interessante brasileiro é a existência de empresas pequenas que muitas vezes são informais, muito ineficientes e só sobrevivem por não pagar impostos. Elas trazem a produtividade média do setor em que atuam para baixo.

Mas a informalidade entre as empresas menores diminuiu.

Sim, e essas empresas melhoram ao se tornar formais. Mas, como há um tamanho máximo de faturamento para ficar dentro das faixas de tributação no Brasil, há um desestímulo na busca por crescimento por parte dessas empresas e isso prejudica a eficiência da economia.

O ideal seria diminuir os impostos para as firmas maiores e trazê-las mais perto das outras.

"O elemento de baixa competitividade engendrado pelo modelo de compadrio não pode ser capturado pelo modelo de Solow que é o que me parece o que se tem em mira".

Quais são as outras causas da baixa eficiência da economia brasileira?

Há os casos de proteção setorial. As pessoas esquecem que a política setorial dificulta a vida das indústrias que usam o insumo do setor protegido. Elas acabam não podendo se tornar tão eficientes quanto as de países que têm acesso ao mesmo insumo a preço relativamente menor.

A outra questão importante é o investimento em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil tem uma estrutura científica bastante razoável se olharmos os números de doutorandos, as publicações em revistas científicas. Ainda não conseguimos criar uma estrutura de produção de pesquisa e desenvolvimento.

Esse assunto já foi muito bem estudado pelos economistas. A taxa de retorno, ou seja, o aumento de produtividade gerado pelo investimento nessa área, é enorme. E isso ocorre porque quem investe em pesquisa e desenvolvimento e recebe o retorno não é a única pessoa a lucrar.

Boa parte dos ganhos vai para outras empresas, concorrentes, outros setores que começam a se beneficiar da tecnologia desenvolvida.

Até a absorção da tecnologia vinda de fora em um país onde você já tem toda uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento é maior. E os governos têm papel fundamental no investimento em pesquisa e desenvolvimento.

"OK.  Mas isso deveria ter embasado as respostas anteriores e as que se seguiram."

Se há tanta evidência desses benefícios, por que não se investe mais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil?

Um amigo meu diz --e eu concordo-- que um dos grandes problemas do governo brasileiro é a incompetência. Eu não consigo explicar isso por malevolência, por um pensamento de que o governo quer um país atrasado.

Às vezes as políticas são extremamente prejudiciais ao país por incompetência --por exemplo, quando o governo controla o preço da gasolina. Isso levou ao aumento do congestionamento e da poluição e prejudicou uma das poucas tecnologias importantes criadas no Brasil, a da indústria do etanol.

Não imagino que o governo decidiu gerar essas consequências. Mas alguém teve a brilhante ideia de, entre aspas, controlar a inflação mantendo o preço da gasolina estável e não pensou nas consequências.

"Economia é economia política: a dos interesses. Quando você aceita essa premissa, fica fácil entender a história do Brasil. Sempre esteve presente em nossa história econômica e política  a chamada elite do café com leite. Esse grupo criou um modelo capitalista que se caracteriza por pilhagem: usam os recursos públicos e a política para os seus interesses em detrimento da grande maioria da população, fechando a economia ao ambiente competitivo, criando-se todo tipo de rentistas, sem contudo permitir que os verdadeiros empresários proliferem. Nesse sentido, não existe erro de política econômica. O que temos, sob a égide desse esquema de pilhagem,  é a exaustão do modelo de substituição de importação. Esse modelo sempre funcionou para um pequeno grupo de privilegiados e já não consegue mais empregar um forte contingente de mão de obra. Além disso, dispensa, pela certeza de aquisição de máquinas e insumos importados,  o emprego de cérebros locais; eles não são necessários ao modelo de substituição de importação. A constatação ubíqua é de que , em todas as cidades brasileiras, os bons negócios sempre estiveram em mãos de poucos. Agora, como o modelo está completamente exaurido, esses grupos poderosos estão avançando sobre os serviços públicos ou sobre a estrutura pública".

Há uma estagnação no processo de reformas importantes para o desenvolvimento econômico no Brasil?

As reformas começam no início do governo Collor com a abertura comercial. Depois houve um período de paralisia. E voltaram a acontecer com Itamar, o Plano Real. Em seguida, outras reformas importantes foram feitas. Esse processo foi freado a partir do segundo governo Lula.

Há seis, sete anos poucas coisas importantes estão sendo feitas. O governo tem se concentrado muito mais em políticas industriais, em intervir nos preços, em diminuir impostos setoriais e menos em resolver as grandes questões que poderiam melhorar a eficiência no Brasil, como as que eu já mencionei, e outras, como o investimento em infraestrutura.

"O governo Collor ainda não foi plenamente entendido. Portanto, as suas políticas deveriam ainda sofrer um tratamento analítico mais rigoroso. O tema abertura na economia ainda não foi decifrado, embora tenhamos observado alguma abertura, no setor automobilístico (autopeças), que teve desdobramentos. Mas, em relação a vários outros setores da economia, não se conhece o fenômeno da abertura em sua completa extensão para esse período; até pelo contrário. O professor fala de reformas, mas não as qualifica. Não houve nenhuma mudança substancial no governo FHC, fora o Plano Real. Acentuou-se o processo de privatização que certamente só mais problemas de gestão trouxe ao setor público, uma vez que se tem uma estratégia criminosa de garantia de retorno a essas atividades privatizadas. Evidentemente, como o Professor não incorpora a tese do modelo de pilhagem, vai procurar reestruturar o setor público em base abstrata, mas desconectada da realidade. O esquema de pilhagem é complexo, pois envolve todas as esferas de poder, além de deixar reféns os governos estaduais e municipais. O problema do Brasil não é econômico. É político."

Essa letargia tem a ver com a questão da competência que o sr. mencionou?

Há uma questão também de ideologia. Há reformas que precisavam ser feitas, mas que não atendiam à ideologia do governo. Acho que agora o governo entendeu que precisa trazer mais investimento privado para áreas como ferrovias, portos etc.

Outro problema importante é a baixa taxa de poupança. Então, o governo cobra muito imposto, mas tem gastos enormes e pouca capacidade financeira para investir, além da falta de capacidade que eu já mencionei de competência do setor público.

"O Professor faz referência implícita a uma taxa de poupança, sem levar em conta que a corrupção e a bagunça que o modelo de pilhagem engendra afeta a taxa de investimento. De novo, a desconsideração do modelo de pilhagem nos leva a prescrições equivocadas. De fato, taxa de poupança baixa significa o quê? Claro, se estiver falando da poupança pública, é fato que ela é baixa. Mas isso, para mim, não se relaciona com a falta de competência dos gestores do setor público. Eles fazem parte desse processo de compadrio".    

Esses fatores explicam a desaceleração econômica dos últimos anos?

Acho que há várias causas. Em 2008 e em 2009 a resposta à crise com política fiscal mais solta fazia sentido. O que não fez sentido foi achar que isso poderia ser permanente mesmo depois de a economia ter começado a se recuperar.

A outra é o excesso de intervenção, como o controle do preço da gasolina. Cada uma dessas intervenções, de forma isolada, pode passar a impressão de que seus efeitos não são tão graves, mas, se você junta todas, começa a ter efeito na economia. E isso é parte do que estamos vendo agora.

Além disso, também estamos sentindo o efeito da desaceleração da China, que, no entanto, não deve ser exagerado.

 "De novo, a não compreensão do modelo de pilhagem o leva a achar que temos uma possibilidade de crescimento em estado estacionário. O professor não observou com a lupa de um modelo político os dados que mostram queda no patamar da renda per capita. O modelo está exaurido e não tem elementos dinâmicos que possam tirá-lo da trajetória de crescimento mequetrefe que observamos".

"Em síntese, vejo a entrevista do Prof. José Alexandre Scheinkman totalmente coerente, porque não aceita a hipótese de que vigora um modelo rent-seeking. Se tal hipótese for válida, como imagino, certamente minhas observações podem fazer sentido lógico e , quem sabe, mereçam qualificações. O que reconheço é a falta de dados para que se construa um arcabouço teórico válido, incorporando o papel desses grupos importantes que pilham o orçamento público e ajudam a destruir o nosso ordenamento jurídico. Concluindo: precisamos mais pesquisas sobre o tema rent-seeking ou pilhagem.

É muito bom ter de volta os comentários do Prof. José Alexandre Scheinkman, porque tenho certo que só boas lições deles tiro. Eles me ajudam a alinhar o meu pensamento sobre o Brasil".
  



Comentários

  1. Chutando,
    Este blog é bom pelo conteúdo, mas essa visualização dinâmica que você usa é uma verdadeira praga do inferno. Faça um favor a seus leitores: usa um dos 7 modelos simples. Eu gosto de ler seu blog, mas esse seu avanço rumo a visualização dinâmica foi um verdadeiro retrocesso.
    Abs,
    Manelim Silva.

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  2. Fique à vontade para expor seus modelos. Go Ahead!

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  3. Eu ficaria muito satisfeito se você utilizasse qualquer um dos 7 modelos do tipo SIMPLES.
    Talvez você tenha se acostumado com o blog dinâmico e ache fácil manipulá-lo, mas pra nós leitores é um horror. Não permite a visão do conjunto, os arquivos ficam sei lá onde... tem que ficar procurando e esperando a página dinâmica carregar devido a nossa porcaria de internet o blog.
    Mas é só uma dica porque eu respeito o direito de propriedade: o blog é seu e você usa o modelo que quiser.

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